Atenção, Senhores Passageiros

Era um comercial de uma marca de malas. A modelo usava peruca e carregava uma carteira debaixo do braço. Ela entrava no banheiro do aeroporto, tirava uma bolsa maior de dentro da carteira, e nela escondia a peruca, tirava o trench coat e o escondia, guardava a carteira, e de lá saia uma mulher bem diferente. Aquela cena intrigante me perseguiu toda a infância! Eu via um aeroporto como um cenário mágico, uma porta para um novo mundo, para novas aventuras.

“Be careful what you wish for”, dizem os sábios. Pois quem diria, passei boa parte de minha vida transitando por aeroportos. Desde o começo da minha carreira – viajei muito pelo Rio Grande do Sul, por terra e ar. Depois que “migrei” então… Minha pegada de carbono hoje é no mínimo vergonhosa!

Com o tempo desenvolvi uma rotina. Gosto de chegar cedo, fazer o check in e enfrentar a fila da segurança sem stress – porque invariavelmente viajo com equipamento. Me acomodo num canto, bebo uma cervejinha para tranquilizar e voilá!

Já me diverti muito em aeroportos com os companheiros de equipe, especialmente com um designer britânico com quem fiz uma série de programas sobre moda. Ri na chegada a Dublin: disse ao oficial da imigração qual o motivo da viagem, gravar reportagens sobre beleza. “Ela veio procurar por beleza na Irlanda!”, ele debochava com os colegas. Pode ter soado como desculpa esfarrapada para eles, mas era verdade – me deixaram entrar. Em Las Vegas quase perdi o avião por causa das máquinas de caça-níqueis espalhadas por todo o aeroporto.

Já morri de medo, como na ocasião em que fui parar na “salinha da imigração” no aeroporto de Toronto, no Canadá. Friozinho na barriga, aliás, é rotina. Em Beijing nosso equipamento ficou todo retido na alfândega – só liberaram no dia seguinte, a tempo de gravar, e olha que éramos convidados do governo chinês! No México, numa escala entre Cuba e Estados Unidos, a preocupação era esconder os charutos e ter que dar explicação sobre essa viagem “proibida” (não foi necessário). Já fiquei “presa”… Foi em Fiji. Minha escala era de umas 10 horas. Como havia uma crise política no país fomos orientados a não deixar o aeroporto.  E eu sozinha, com todo o equipamento de gravação! (Sempre ele… Às vezes a função de repórter se confunde com a de babá.)

Já morri de dor… Foi no aeroporto de Casablanca; um bicho havia se instalado no meu estômago, não sei se por causa de uma overdose de azeitonas ou por mau-olhado (causo para outro post). Muita coca-cola e “me deixem em paz, por favor!”. Perdi o fôlego atravessando terminais: tente fazer uma conexão a jato no aeroporto de Heathrow, em Londres!

Já senti o coração apertando desesperadamente em muitos desembarques… Quantas, quantas vezes quis entrar pelo portão errado, pegar o avião que me levasse de volta àquela cidade de onde eu acabara de chegar.

Durante muitos anos o aeroporto foi meu lugar preferido. Significava o começo de uma nova aventura, como as que eu imaginava na infância por causa daquele comercial. Sempre gostei muito da viagem, do trajeto – às vezes mais do que o próprio destino. Claro, aeroporto não é só partida, significa também alento. É chegar em casa, cair em certos abraços…

No entanto, de uns tempos para cá andei ficando de mal com eles. Há alguns verões no Tom Jobim, no Rio, achei que não iriam permitir que eu embarcasse – eu, aos prantos como criança que derruba o sorvete no chão, tendo que deixar o Brasil. (Dramático? More mais de uma década fora do país… A bagagem de ida fica cada vez mais pesada, carregada de saudade.)

Percebi o quanto nossa relação (eu e os aeroportos) se deteriorou hoje, quando estive no Salgado Filho em Porto Alegre. Me causou arrepios passar pela praça de alimentação onde tantas vezes tomei a “saideira” com a família… Ver a fila do check in… Ui!

Aeroporto é bom porque nele não é preciso justificar o choro, todo mundo entende. Ou você está se despedindo, ou feliz por reencontrar alguém. Não é preciso disfarçar lágrima. Aproveitei a situação e deixei rolar… Acho que foi culpa de um, mesmo que temporário, alívio. Hoje era a minha irmã quem embarcava, para um trés-chic bate-e-volta a Paris. Dessa vez, não era eu partindo.

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5 respostas em “Atenção, Senhores Passageiros

  1. Adorei o seu texto, muito real e me fez lebrar de muitos “aeroportos”meus também, mas acho que é mais stess do que romantico, como vc colocou!! Tanira, pega mais um voo e vem pro RJ no carnaval com a Tamara, 10000 beijos
    Alexandre

  2. Tanis, adorei! Os aeroportos ainda me encantam. A expectativa da viagem é uma delícia, minhas malas estão sempre prontas para mais um destino… Como nem tudo é só felicidade, as despedidas sempre deixam o coração em pedaços. Com o passar do tempo, cada “até logo” demora mais do que o anterior para cicatrizar. Chorar alivia, mas nada consegue mandar embora aquele aperto que fica no peito e na garganta. Sabes que estamos te esperando por aqui, não prometo que vou segurar as lágrimas na saída, mas garanto boas gargalhadas durante a visita. Beijos enormes!

  3. O filme “Simplesmente Amor” começa mostrando o que seria o saguão de chegada no aeroporto de Heathrow. Hugh Grant, que vive o Primeiro-Ministro da Inglaterra no filme, diz que quando perde a fé na raça humana ele vai ao aeroporto para ver a alegria das pessoas recebendo seus amores, amigos, parentes. Lá ele crê que “love actually is everywhere”.

  4. Oi Tanira,tudo bem?
    estava lendo o teu texto sobre aeroportos,entendi muito estes sentimentos.
    Não é fácil viver longe da família ainda mais qd. são muitos unidos, eu não conseguiria viver longe da minha.Bjs.

E tu, o que me dizes?

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