Operação “limpando a ficha”

Trinta e um reais. Foi isso que me custou ficar em dia com a Justiça Eleitoral brasileira. Aliás, me deixa refazer a conta. Foram os 31 da multa, mais 12 reais da lotação (duas para ir porque me perdi no caminho, uma para voltar) e dois reais para plastificar o título. Total: 45 reais. Foi o preço para limpar minha ficha no Tribunal Regional Eleitoral.

Essa semana o Tribunal Superior Eleitoral avisou que quem não regularizar sua situação até o dia 16 de abril terá o título cancelado – por isso, corri. No TRE descobri que eu devia nove eleições – por isso a multa.

Meu título ainda estava domiciliado em Santa Maria, onde estudei. Acho que nem as justificativas que registrei no consulado em Los Angeles valeram, o que aumentou a dívida. Eu também poderia ter justificado o voto sempre que viesse ao Brasil depois de uma eleição – coisa que nunca cogitei fazer, com a benção de São Procrastinador.

Que fique claro, não acho bonito nem me orgulho disso. Concordo com o poeta que diz que quem se abstém de escolher está, de certa forma, tomando uma decisão.

O voto é a grande arma do povo, um direito que a gente não deveria, como dizem os americanos, take for granted – tomar como garantido, menosprezar.  No Afeganistão, só para lembrar um exemplo, mulheres escondidas em suas burqas arriscam a vida para votar. O Oriente Médio está em ebulição simplesmente por que o povo cansou de ditaduras.

Quando (mais) jovenzinha me encantava com o movimento estudantil; depois fiz campanha, vibrei com as vitórias e chorei as derrotas dos meus candidatos. (Tá soando discurso de político demagogo, não é? Pois piora.) Fiz muita reportagem lá fora mostrando a importância de transferir o título e se manter em dia com os direitos e deveres de cidadão brasileiro. Cobri eleições em consulados e vi o brilho nos olhos de quem votava – como se aquele exercício fosse um fiozinho, um cordão umbilical os unindo à amada terrinha. Segundo o TSE são mais de 200 mil eleitores registrados fora do país. Considerando que há (pelas contas do Ministério das Relações Exteriores) três milhões e meio de brasileiros espalhados pelo planeta, é uma parcela pequena que continua votando depois de migrar. Portanto, não navego sozinha nesse barco.

Não justifica, mas posso tentar explicar por que andei longe das urnas.

Sou daquele tipo de imigrante que “nunca desfez a mala”. Para mim, morar no exterior sempre foi algo “provisório”. A idéia de transferir o título para os Estados Unidos me dava a impressão de estar arrumando a vida lá fora, deixando de vez o Brasil.  (Sei, vai entender…) E lá se vão mais de dez anos nesse limbo eleitoral.

(Pensando bem, poderia ter feito esse discurso lá no balcão de atendimento do TRE. Será que se comoveriam? Anulariam a multa?)

A propósito, foi tudo extremamente eficiente. O processo não deve ter levado nem uns 20 minutos: pelo número da carteira de identidade rastrearam a minha (sujíssima) ficha, paguei o que devia no banco ali pertinho, voltei ao TRE para atualizar meu cadastro e já saí de lá com meu novo título de eleitora!  Genuinamente realizada. Toda faceira, mais faceira que guri de bombacha nova.

Next: carteira de motorista e reaprender a dirigir…

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6 respostas em “Operação “limpando a ficha”

  1. Tanira, teu blog, além de divertido contando tuas andanças e vivências é também informativo. Graças a este “new post” fiquei sabendo o prazo para justificar o não cumprimento do meu dever como cidadã eleitora. E agora que tens o título novo, virás votar sempre??hehehehe

  2. Poxa, estava ontem vendo um dos meus favoritos, Henry Rollins, falando exatamente disso; de quando ele estava no Sudão e a beleza que era ver as pessoas votando. Como muito deles não tinham documentos, o chefe da tribo ficava lá sentado, dizendo “esse é da tribo, pode votar… esse não”!
    como a gente não valoriza tantas coisa, né?

  3. tanis,

    não vale computar os 4 reais a mais da lotação. você se perdeu no caminho… o TRE não tem nada com isso. portanto, se quer limpar a ficha, bota aí que você gastou 41 reais. (rs)
    nada como estar de volta e sentir o gosto dos deveres de um brasileiro.
    amei o blog!!!

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