Em tempo: “my two cents” sobre a visita de Obama

É uma expressão idiomática do inglês. “My two cents” dá um valor modesto a uma opinião sobre um assunto polêmico. Pois aqui vão os meus “dois centavos” sobre a visita do Presidente Barack Obama ao Brasil.

Começando pelo fim. Cobertura ao vivo da despedida dos Obama. Assim que o Air Force One decola o prefeito e o governador do Rio de Janeiro se apressam em desfiar elogios à família. “Eles adoraram, querem voltar logo, vêm para a Copa, o Carnaval, para as Olimpíadas.” Oba, oba! Mas… peraí? Não era um Presidente empenhando em reter para seu país o status de potência incontestável numa visita oficial à primeira Presidenta de uma potência emergente?

Entenda-se que com frequência o Presidente Obama é chamado pela imprensa americana de “Charmer in Chief”. E foi o que ele fez no Rio: arriscou no português, citou Jorge Benjor, pediu a benção ao Cristo Redentor, encantou. No entanto, por trás desse charme todo havia um plano que o Cebolinha consideraria “infalível”: aqui começava a campanha para a reeleição.

Essa não foi simplesmente uma visita de cortesia à Presidenta (denta porque ela mesmo disse que assim quer ser chamada) Dilma Rousseff. É só ver no site da Casa Branca o pronunciamento que Obama grava semanalmente. Lá no weekly address do dia 19 de março estava claro: a missão no Brasil e na América Latina era aumentar as exportações norte-americanas, acelerar o crescimento econômico do país .

“O mercado e a economia da América Latina estão crescendo rapidamente”, disse Obama, “e com isso cresce a demanda por produtos e serviços. Quero me empenhar para que esses produtos e serviços tenham origem nos Estados Unidos”. Segundo o Presidente Obama, cada bilhão de dólares em exportações significam cinco mil vagas de trabalho. “Em 2010 as exportações para o Brasil garantiram 250 mil empregos nos Estados Unidos”, exemplificou. E é tudo o que os americanos querem: trabalhar.

Com duas guerras sem fim e índices de desemprego históricos, Barack Obama herdou da dinastia Bush um pepino de Itu. É de se admirar que ele queira continuar no posto. Mas até 2012 é necessário recuperar a economia, e esse caminho passa pela América  Latina, pelo Brasil.

Por isso, antes de comemorar qualquer boa impressão causada pelo país a Obama e vice-versa,  é importante que fique claro: para os Estados Unidos o Brasil é um “parceiro estratégico” e não um aliado. Citando um texto da Folha de São Paulo, “em diplomatiquês, há uma distância continental entre os termos aliado e parceiro”. Portanto, contar com o apoio dos EUA para algumas ambições brasileiras como uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU… not so fast. Agora, abrir as portas para mais produtos made in USA, aí são outros quinhentos.

Resta saber como a administração Rousseff vai reagir à nova investida norte-americana, e se uma renovada agenda seria efetivamente bilateral, promovendo crescimento mútuo.

Do lado de cá do tabuleiro, a impressão que eu tenho é que a política externa brasileira está sempre baseada em quanto e como apoiar ou se acomodar à política dos Estados Unidos. Um breve passeio pela nossa história oferece alguns exemplos.

Resumidamente. Getúlio Vargas negociou com o presidente americano Franklin Roosevelt o envio de tropas para lutar na Segunda Guerra Mundial. Em troca, receberíamos uma série de benefícios e investimentos numa condição especial de aliado dos Estados Unidos. A promessa, dizem os livros, nunca foi cumprida. A tal “relação especial” era apenas um mito, o Brasil um ator dócil nesse cenário em que toda nossa produção era adequada à necessidade norte-americana.

Pulando alguns capítulos, os anos JK ecoaram o pensamento do então Ministro das Relações Exteriores Horácio Lafer: “O mundo tem mais do que dois pontos cardeais”. O objetivo era uma reorientação multilateral. A administração de Kubitschek buscava recursos nos EUA e na Europa para implementar seu projeto desenvolvimentista, enquanto moldava novos acordos econômicos e políticos na América Latina.

Jânio Quadros instaurou sua Política Externa Independente e até “ousou”, apoiando a Revolução Cubana, condecorando Che Guevara, aproximando-se da China e da União Soviética. Deu no que deu. Operação Brother Sam, golpe militar, e anos de subserviência. “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, disse o chanceler do Marechal Castelo Branco.

Curiosamente foi também um general, Ernesto Geisel, que deu passos inovadores nos anos 70. Sua administração libertou o Brasil do alinhamento automático com os EUA dos regimes militares anteriores. Geisel reatou com a China, começou a construir Itaipu, ampliou laços com países europeus e africanos.

Dependendo da leitura, FHC é herói ou vilão. Ele consolidou a abertura econômica do Brasil, mas para isso adotou regras ditadas pelo FMI e pelo BID, o chamado Consenso de Washington. Um preço caro. Sua administração entra na chamada “década bilateral”, em que o desenvolvimento se dá pela “aceitação”. Um fenômeno que o próprio FHC criticaria mais tarde, denunciando “os efeitos nefastos da globalização assimétrica” e propondo uma globalização solidária.

Lula apostou no desenvolvimento pela reciprocidade. Seu plano de governo visava trabalhar na redução da vulnerabilidade externa, exportar mais, e criar um forte mercado interno de consumo. A América  Latina passou a ser a prioridade da política externa. Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores, pregava a queda do muro norte-sul que “separa os ricos dos pobres”. “A aproximação com países em desenvolvimento complementa e enriquece as relações tradicionais com os países desenvolvidos”, disse Amorim.

Notadamente, a administração Lula levou o Brasil a integrar o BRIC, bloco que, segundo o próprio governo norte-americano (em relatórios da CIA), deve tomar conta da economia nas próximas décadas. Com sua política multilateral, selou alianças com potências médias e nações emergentes.

O governo Lula usou a estratégia que todo mundo que namora conhece bem. Depois de anos de menosprezo e submissão, decidiu paquerar em outra freguesia, procurar outros parceiros. Mostrou seu valor, e passou a se fazer de “difícil”. Afinal, a fila anda…  Obama percebeu o filézão que os EUA estavam deixando escapar e decidiu “pedir pra voltar”. Por isso a urgência de visitar o Brasil. Com todo seu charme…

(Sim, é com esse raciocínio sofisticado que eu pretendo cursar o Mestrado em Relações Internacionais na UFRGS.)

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Esses são meus “two cents”, minha modesta opinião. E você, como percebeu as diversas encarnações da política externa brasileira até agora? Alguma mudança chegou a doer no bolso, por exemplo?

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17 respostas em “Em tempo: “my two cents” sobre a visita de Obama

  1. Tanira:
    Adorei… na minha modesta opinião conseguiste com muita clareza fazer a leitura correta do objetivo americano. O charme das relações internacionais está justamente em entender o que as entre linhas estão expressando…
    Aos brasileiros cabe deixar de lado a ingenuidade de achar que o que é bom para os americanos é bom para nós… tomara que nossa política internacional continue nessa linha…Sucesso no teu mestrado!

  2. Melhor two cents do que 50 cent!!!!
    O Obama veio só jogar charme e buscar dinheiro. Contrapartidas? Nada. O problema é que nossa política externa é uma piada: temos uma longa tradição de omissões (se abster na votação contra o Kadafi é o exemplo mais recente), solidariedades e simpatias esdrúxulas (já criamos um “mercado comum para matar comunistas” com uruguaios, argentinos e chilenos nos anos 70, hoje adulamos o Chaves e o maluco do Ahmadinejad, e o que dizer do patético caso Zelaya?) e períodos de subserviência aos EUA alternados com rebeldiazinha. Estamos precisando muito de mestres em relações internacionais…. BJ!

  3. Amiga, linda……
    Saudades de ti, mas feliz por ti também….
    Muito bom teu comentário a respeito, é isso aí,
    vamos expôr nossos pensamentos e nossas idéias, vamos compartilhar….
    Bjs

  4. Oi, Tanira,
    a Tati me mandou teu texto, parabéns, adorei! Boa sorte no mestrado!
    Precisamos de gente inteligente de volta por estes pagos.
    O dia que América Latina se dé conta que o Tio Sam tem muito para aprender conosco e não o contrário, vai ser uma festa…
    Abração

  5. tudo muito legal filhota, mas acho que o Obama veio tentar levar os gordos (Ronaldo e Adriano) para jogarem no Los Angeles Galaxy. Beijos do papi…

  6. Muito bom Tanira!
    Concordo totalmente com seus centavos.
    O que mais me espantou foram os títulos dos portais e jornais na chegada do Obama. Parecia um astro… O que ele comeu, onde passou, aquelas clássicas matérias do grande chefe chegando, de como as crianças de uma escola pública iriam cumprimenta-lo… Enfim, uma típica cobertura de um povo subserviente.
    Isso foi o que a imprensa mostrou…
    Espero, assim como você, que o nosso governo tenha pulso e vá atrás do que realmente nos interessa e não de apenas ser o queridinho do Obama.
    Sucesso no seu mestrado!

    • Peter, o que me espantou foi a tal “liberacao dos vistos” para entrar nos EUA. Nao sei qual a genese desse papo, mas parece uma ideia absurda.
      Aumentaria o problema da imigracao, exigiria mais investimento na seguranca e fiscalizacao dos “portos de entrada”, e seria uma valiosa fonte de renda a menos para o pais.
      Sabe quanto custa fazer um visto, ne? O que os EUA ganhariam com essa liberacao?

  7. Oi Tanira,
    sou amiga da Ula e ela me passou o teu link. Gostei do teu blog e achei muito interessante a tua análise neste post e comento uma curiosidade que li na zero hora.
    Antes da chegada dos Obama ao Brasil, a presidenta Dilma alertou seus acessores e ministros que não bajulassem a família em hipótese alguma, por que “não era uma reunião de amigos e sim uma reunião de trabalho.” Todos os que a rodeavam estranharam pq a postura do presidente anterior era radicalmete oposta.
    Achei bem interessante a postura dela e desejo que ela se mantenha firme e coerente, mas sem perder a ternura.

  8. Gostei do comentário do José Luis Fiori na FSP:

    “Qual sua avaliação da vista de Obama ao Brasil?
    Teria sido uma visita irrelevante, quase um passeio de fim de semana da família Obama, se não tivesse sido usado para fazer uma demonstração imperial do poder americano. Ao encenar uma decisão de guerra, que já tinha sido tomada e que foi deixada para ser anunciada em território brasileiro, antes de um almoço festivo do Itamaraty. Deixando nosso país numa posição rebaixada e colocando nossos governantes na posição de pró-cônsules de uma província imperial, na hora em que faziam o ridículo de anunciar um novo “tratamento entre iguais”. Faltou um mínimo de altivez aos nossos governantes e ex-governantes presentes na confraternização do Itamaraty. Para nem falar das autoridades cariocas que se comportaram como se fosse apenas tietes de auditório.”

    Obs: O Geisel também irritou os americanos com a aliança com a Alemanha para construção das usinas nucleares. No mais, o império continuará imbatível, pelo menos no nosso tempo de vida…

  9. Ouvi muito atento o dircurso do Obama, prestei atenção em cada palavra, cada sorriso e fiquei realmente impresionado, é muito agrado, como diz dona Isabel (minha mãe) “…quando a esmola é demais o santo desconfia.” Me sinto representado nesse seus “two cents”, percebi e tive essa sensação , mas com toda certeza a clareza e a tua argumentação me deixaram muito seguro e compartilho da mesma opinião de que “aliado e parceiros” são duas situações bem diferentes.
    Obrigado pela análise!!!

  10. E poucos viram: enquanto Obama discursava, manifestantes bolivarianos, trabalhadores sem teto, protestavam na Cinelândia, isolados a cerca de cem metros da entrada do teatro. Sem conseguir acompanhar o discurso, eles vaiaram quando os primeiros convidados começaram a sair. Ainda na véspera, um protesto teve desfecho violento em frente ao Consulado dos Estados Unidos, com bombas de efeito moral e quinze pessoas presas.

E tu, o que me dizes?

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