Hoje vamos falar de amor…

Pendurado por três fios, acomodado num cadeirinha, o operário pregava na lateral do prédio de dez andares um painel gigantesco, promoção de uma companhia de telefonia celular do tipo “compre um plano para você, leve outro para falar de graça com sua cara-metade”.

Em sua página no Facebook Julieta avisa que está num relacionamento complicado. Romeu curtiu.

É o amor se adaptando às novas tecnologias. Quem ainda não se emocionou com o filminho que mostra uma versão século XXI para o clássico “Eduardo e Mônica” da Legião Urbana?

Outro exemplo, menos romântico. Uma amiga percebeu que o final dos tempos havia chegado quando o blackberry dela deixou de falar com o iphone dele. Havia uma incompatibilidade entre os aparelhos, por isso as mensagens de texto chegavam com horas ou dias de atraso. A analogia é irresistível: nem os telefones, nem eles se entendiam mais.

Quando eu comecei a namorar era tudo muito simples – a gente simplesmente não saía de casa esperando por um telefonema. Resistir à tentação de ligar era fácil porque o “disco” do telefone era trancado com cadeado. Ah, e tinha aquela simpatia para que ele chamasse logo: ficar debaixo da mesa de jantar enquanto alguém batia lá em cima chamando o nome do dito cujo. Nunca funcionou. Mas bem que ajudava o tempo a passar mais rápido…

Nessa época, no norte do continente americano, o engenheiro Martin Cooper estava aprimorando a invenção que se popularizaria décadas mais tarde: o telefone celular. “O ser humano é móvel”, diz o engenheiro Cooper. Portanto, nada de ficar preso a um fio, esperando pela ligação.

Contesto: a dependência de telefones públicos também já nos havia obrigado a ser móveis – e isso tinha um quê de romantismo e aventura. Lá em Santa Maria, na época da faculdade, era líquido e certo que rolaria uma paquera na fila do orelhão da esquina ou na CRT do centro.

O Dr. Cooper diz que a vantagem do celular é estarmos mais acessíveis, mais próximos. E isso, para ele, já bastaria. Para Martin Cooper, que entrevistei para um programa sobre ciência e tecnologia, o telefone celular com todas suas funções pós-modernas ficou muito complicado.

Concordo: será que o aparelhinho está nos deixando mais impacientes? Através dele podemos receber uma enxurrada de informações e nos viciamos em obter respostas com um imediatismo que, bem sabemos, nem sempre o coração tem.

Difícil decifrar se essas ferramentas ajudam ou atrapalham o cupido.

A Internet (muito devo a ela…) promove encontros improváveis e, junto com a telefonia celular, abrevia a distância e a saudade. Isso é muito bom! Por outro lado, o amor reinventado de hoje tem uma coleção de novíssimos rituais que forçam até mesmo os mais tecnofóbicos a fazer malabarismos para acompanhar tudo!

É um tal de checar Facebook, MSN, torpedos… Será que ele está “conectado”? O que quer dizer esta frase no mural dela? Quem é ali ao lado na fotografia? Será que o celular pega aqui? Regra de etiqueta ensinada por uma amiga muito chique: sair do MSN sem se despedir ou dar chance de resposta é como desligar o telefone na cara.

Esses romances mediados por gadgets como computadores, tablets, telefones são um case e tanto para a teoria ator-rede do filósofo francês Bruno Latour, que defende que os relacionamentos são formados por atores ‘humanos’ e ‘não-humanos’ também. 😉  

(Pausa para admirar o insuperavelmente belo e irremediavelmente romântico pôr-do-Sol do Guaíba.)

Pros mais ansiosos, a História serve de consolo. Quantos casos de amor resistiram ao tempo e à distância, alimentados por cartas? Lembra? Carta, escrita num papel, com lápis ou caneta?

(Parêntese: sabia que existe um órgão da ONU chamado União Postal Universal? A UPU congrega correios de todo o mundo, e diz que o hábito de enviar cartas continua firme e forte. Mais de 430 bilhões de correspondências domésticas e 5.5 bilhões de correspondências internacionais são entregues pelos serviços postais de todo o planeta a cada ano.)

Um exemplo bem romântico. O filme “A Jovem Rainha Vitória” mostra como nasceu e cresceu o amor entre a rainha britânica e o Príncipe Albert. A comunicação entre os jovens apaixonados era todinha através de cartas. Quantos dias à espera de uma resposta? Quantas possibilidades de uma missiva nunca chegar, ou não chegar a tempo, ou ser interditada e adulterada pelos conspiradores de plantão?

Victoria & Albert tiveram seu final feliz, um casamento estável e nove (nove!) filhos, até que a morte os separou. Então volto a perguntar: será que esses amores duravam mais porque a comunicação não era tão instantânea e, por consequência, o encantamento mais perene?

De qualquer maneira, fica uma bela lição. Se a rainha teve paciência e serenidade para esperar por mensagens que chegavam a cavalo, minhas caras, meus caros… vocês também conseguem.

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14 respostas em “Hoje vamos falar de amor…

  1. Minha linda, como sempre sensível aos fatos…..
    Adorei e me pus a pensar, mexeu comigo, maravilhoso
    Beijocas saudosas
    Lúcia

  2. Amada da mami, me fizeste sonhar, lembrando as cartas que eu e teu pai trocávamos. E depois com o passar do tempo, cartas,telefonemas de vocês longe, mais recente, ligada nas notícias de Los Angeles e atualmente esperando notícias de Moscou. Tudo é amor e comunicação!!!

  3. Muito bom, Tanira.
    Ele me lembrou coisas como sobre ficar na fila do orelhão. Muitas vezes fiz isso. Meus namoros da adolescência eram abastecidos (também) com fichas da CRT. Comprava de cartelas (bah, tô entregando direto a idade, hein?).
    Bjs.

  4. Tanira, és mais recente do que eu, mas minhas experiências telefônico-amorosas dependiam do humor de uma senhorita (ou senhora) telefonista que completava, ou não, a ligação. Não sei se é saudosismo ou um romantismo exagerado mas eu acredito que os amores duravam mais porque a comunicação não era tão instantânea, como dizes em teu texto. Então aquela espera “virá? não virá? a que horas?” nos mantinha mais idílicos e o momento juntos era muito bem aproveitado! Sem falar que nenhum ficava pegando no pé do outro, querendo saber o que estavámos fazendo, onde estávamos, com quem e por aí vai…

  5. Tanira, muito bom. Cá estou tentando compreender os gadgets e suas artimanhas que nos deixam a cada dia mais conectados e fascinados. Adorei as suas fotos, gostaria de ler (ou ver) a entrevista com o Cooper.
    Uma semana iluminada. :o*

  6. Itens com reflexões bem pontuais, Tanira! Adorei a sacada do pôr-do-sol em seguida da menção ao Latour. Um beijo com este visual tem um efeito completamente diferente de um beijo em uma festa.
    O teu gran finale me fez pensar: consigo esperar? Sim, hoje consigo, porque a vida nos dá experiência e paciência. Como conviver com tantas tecnologias e a possibilidade de comunicação instantânea? Será que não seriam os adultos jovens, estes apressadinhos, que teriam maior dificuldade?
    Eu adorei o texto. E já indiquei adiante! Conhecimento é alimento pra alma!

E tu, o que me dizes?

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