Sobre o tempo e sobre as coxas

Rapidinho, para que o final deste texto faça sentido.

Take for granted. É uma daquelas expressões idiomáticas super eficientes do inglês que dizem muito com poucas palavras. Busquei uma tradução objetiva – achei várias opções. Presumir. Considerar verdadeiro. Antecipar. Subestimar o valor. Dar por garantido. Significa algo ou alguém que presumimos ter para sempre, cujo valor só percebemos quando esse algo ou alguém nos falta.

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Foi muito estranho rever, pela internet, o prédio que chamei de “casa” nos meus últimos meses em Los Angeles. Pelo Google Earth pude refazer o mesmo caminho de tantas manhãs, até a esquina movimentada, passando pelo viaduto, pela mecânica. Na direção oeste, uns minutinhos mais e eu estaria na praia. Indo pro norte, em meia hora chegaria no trabalho. Estranho perceber que fiquei tanto tempo desgarrada. Como foi possível?

Durante a década e tanto em que fui imigrante tinha plena consciência de que me dividia em dois mundos: o dos esteites (da vida cotidiana), e o “universo paralelo” que passou a representar o Brasil (o mundo das celebrações, dos sabores, dos abraços e das saudades). É esse “portal” que meu irmão Yuri, expatriado para a Rússia, descobre agora.

Uma noite dessas vi um filme com a Tamara. A mocinha largava a pacata vida no interior para tentar a sorte em Los Angeles e tudo começava com aquela típica colagem de imagens dos cartões-postais da cidade. Maia me pergunta: “Não dá saudades?”.

Aliás, volta e meia me perguntam se já me adaptei à vida no Brasil. Não tem uma resposta simples, do tipo sim ou não.

Sinto falta de algumas coisas pequenas, mundanas: a meia-calça que não tem elástico apertando na cintura (e que não encontro aqui); meu colchão que nem era colchão mas uma mousse de esponja; as lojas de ponta de estoque com Calvin Klein a 50 dólares.

Também era uma delícia fazer compras no Trader Joe’s, um ícone da vida descolada e ainda hippie californiana. Para entender procurem no jutube o video “If I Made a Commercial for Trader Joe’s”, um passeio pelo mercado ao som de uma versão bem peculiar de “Águas de Março”.

Nesta época o Hollywood Bowl deve estar lotado toda a semana –a temporada de concertos de verão era meu programa favorito em L.A.! O Hollywood Bowl é um anfiteatro com capacidade para 17 mil pessoas, onde cantaram dos Beatles a Gal Costa. A gente levava piquenique e o veneno de sua escolha. Uma vez, empolgadíssimos num show do Jorge Benjor, eu e meu velho amigo Edu descemos e subimos as escadarias do anfiteatro carregando uma enorme bandeira do Brasil (minha canga, prá dizer a verdade, que aparece na foto ao lado com Papi e Mami no Bowl). Fiasco pouco, graça não tem.

A vida nos esteites tem algumas facilidades que a gente bem podia copiar. Para alugar um apartamento basta escolher o local onde você quer morar e negociar com o manager (uma espécie de zelador/síndico). Com documentação à mão, um cheque-fiança ou um bom credit score dá prá fazer a mudança no mesmo dia! Não tem essa peregrinação de ir na imobiliária-pegar chave-visitar o apartamento-voltar na imobiliária…

Lá qualquer deslize dói no bolso. Exemplo: nos meus primeiros dias em L.A. fui a um parque, lindo, perto de casa. Na área de piquenique tinha uma festa de aniversário de latinos com direito a piñata, carne assada, futebol. Pensei com meus botões, cheia de pré-conceitos: “Imagina a bagunça que vão deixar”. Horas mais tarde, nem um palito no chão! Experimenta descuidar de um bem público (grifo no público, no que é seu e meu) para ver quanto custa…

É estranho como funciona nosso cérebro. Volta e meia sinto como um curto-circuito e por um milissegundo tenho a impressão que ando pelas ruas de Los Angeles, em função de alguma das tarefas a que estava acostumada. Me pergunto por onde anda o carrinho que me acompanhou durante tantos anos, um hondinha preto super assediado (encontrava muitos bilhetes no pára-brisa, “If you want to sell this car call me”). Será que o hibiscus e a floribunda continuam florindo?

Mentiria se dissesse que não fui feliz, e é chato perceber que talvez eu nunca mais veja algumas pessoas que cruzaram meu caminho por lá. Mas trocaria, como fiz, tudo isso pela oportunidade de voltar. Num milissegundo.

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“Fritura a essa hora?”, ele me olha incrédulo, sabendo da minha eterna briga contra a balança. Era manhã cedo e tomávamos café num bar à beira da estrada. Eu continuei saboreando a coxinha. Concentradíssima.

Depois da longa década em que o jejum de coxinhas de galinha era quebrado somente uma ou duas vezes por ano estou empenhada em experimentar to-das. É um dos meus quitutes preferidos.

A vida no Brasil tem alguns luxos inimitáveis. Como passar na padaria da esquina e comprar uma coxinha, uma empadinha de “massa podre”, ou um pãozinho “recém-saído”.

Pedir palpite na frente do espelho: “Tô bem assim?”. Poder ligar prás amigas e combinar um mate ou um chopp para daqui a quinze minutos é um privilégio! É bom, muito bom, voltar a “pertencer”.

Colocar um “capaz” em qualquer lugar da frase, com qualquer conotação, e não precisar traduzir. Sério. Essa “tradução” dá um trabalho…

Aqui tem área de serviço nos apartamentos! Com tanque! E varal! É um luxo, sabia?

Tem o cafezinho na sala de espera, ou depois das refeições.

Fico encantada com a gentileza das pessoas, e com a modernidade de muitos serviços. Como as máquinas para passar cartão que te trazem na mesa nos restaurantes. Fui no Correio: senha para ser chamada, cadeiras para esperar, e um atendimento eficientíssimo. Para recarregar o cartão Tri, do transporte público, vou ao imenso saguão de um prédio histórico no centro de Porto Alegre, encaro uma fila que é longa mas sou recebida com um sorriso ao som de uma música lounge, e entro-e-saio em menos de cinco minutos!

Agora posso subir num ônibus e ir torcer pelo meu time no Beira-Rio. Algumas horas a bordo de outro ônibus e posso passear pela Avenida Agraciada, que é meu programa favorito na fronteira (na foto, Maia, Yuri e eu em Rivera).

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É estranho como funciona nosso cérebro. Volta e meia sinto como um curto-circuito e por um milissegundo tenho a impressão que devo aproveitar para devorar logo aquela feijoada, dar uma derradeira voltinha no Brique da Redenção… E então lembro que não há urgência. Que o Brasil não é mais apenas meu “universo paralelo”. Me sobra tempo para descobrir onde estão as melhores coxinhas de galinha.

Já descobri o que não deveria ter descoberto: que no “burguesão” no Campus do Vale da UFRGS (onde estudo) tem buffet de salgadinhos durante o café da tarde. Uma tentação assim deveria ser proibida! A coxinha, dessas tamanho coquetel, é delish

Provei a do Natalício, que dizem ser “a melhor da cidade”. Muito barulho por nada: grande, seca, pelo tamanho merecia mais catupiry no recheio.

O top do ranking continua com a da Casa da Cucas, em Barra do Ribeiro, com massa feita de batata.

E assim os sabores e os abraços que eu costumava take for granted voltam a fazer parte da vida. Às vezes parece que nunca saí daqui. Às vezes vejo que ainda falta reaprender muito. Como lembra o título deste blog, o caminho para casa é longo.

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14 respostas em “Sobre o tempo e sobre as coxas

  1. Falo também de cadeira: aqui é bom mas é ruim e aí é ruim mas é bom. Não tem como dizer aqui é melhor ou pior…

    Tanira, vou apenas complementar a história da canga/bandeira do Brasil no Hollywood Bowl… Depois de algumas Coronas, descemos carregando a bandeira e no trigésimo degrau, quando eu olho pra trás, tem 20, 30, talvez 40 ou 50 brasileiros fazendo trenzinho, seguindo a bandeira verde-e-amarela de perto. Foi, realmente, algo inesquecível!

    Teu blog é demais!!!

  2. Benvinda filha!!! Lá do outro lado tiveste uma vida legal também. É a pessoa que faz o ambiente, e tu com tua alegria e muito mais sempre fará lindo qualquer lugar! Lindo texto!!! Vi a Floribunda e o Hibiscus lendo tuas palavras. Beijos.

  3. Tanis, Tanis, é sempre espetacular te ler!
    Me vejo no teu texto. Dá um nó na garganta pensar que o Brasil ainda é o meu universo paralelo, mas pelo menos existe o Skype.
    Sabe, outro dia eu estava procurando umas fotos para imprimir e adivinha o que encontrei… Piquenique no Hollywood Bowl, saudade gostosa daquelas noites divertidas.
    Um beijo bem grande!
    Ah, e se precisar de meia-calça me avisa que eu levo!

  4. Estou encantada com a tua emoção… teu texto tá leve, poético, envolvente. Dá prá sentir cada detalhe das tuas descrições, sou capaz de jurar que vivi um tempão fora e to voltando prá casa. Bjo enorme, que POA continue te abraçando….

  5. Maravilha, de novo!! Tô adorando os posts! Quanto à busca pela coxinha perfeita, sou parceira. Dizem que tem uma num barzinho metido a besta (Nossa Senhora do Ó) no Moinhos que é ótima! E aquele chope? Já virou vinho e nada, né?

    beijocas,

    Fer

  6. Tanira, não sabia que tu estava em Porto Alegre. Bem, ainda tem alguns remanescentes da FACOS por aqui – e volta e meia, nas terças-feiras, nos reunimos no Lipe Bar, ali na Felipe Camarão, eu , Roger, Lissandra e mais um povo que já não é FACOS, mas era do DCE. Se quiser tomar uma cerveja numa dessa terças-feiras, manda sinal pelo Facebook ou GMail e a gente combina. Abraço e bem vinda de volta.

  7. Querida Tanira
    Vê-se que estudastes fora, pois nós da fronteira não somos de coxinhas. Nosso negócio é ¨pancho¨ e um ¨chivitaso¨ de Rivera e, algumas noites, um ¨asado de tira¨do D. René. Um abraço do tio sant´anna

  8. Tanira, mais uma vez, um texto excelente.
    Se para um cara como eu, que passou poucos meses fora do país em experiências semelhantes, imagina para quem viveu lá, como foi o teu caso.
    Bjs, Elio

  9. Como disse a Deborah, estou aprendendo a dar valor as tais pequenas (grandes) coisas contigo.
    Tu emociona com teu texto…muito bem traduzido por tantas manifestações de emoção lidas neste e em outros textos.
    E…
    Take for granted for now!

E tu, o que me dizes?

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