A mala

Não sei arrumar mala. Organizar o que vai dentro dela eu consigo: roupas em rolinho para não criar dobras, meias dentro dos sapatos para aproveitar espaço, perfume no meio da lingerie. Um truque para diminuir o volume das peças: coloque num saco plástico tipo zip lock e feche a vácuo usando um aspirador de pó. Estrategicamente, divido roupas e presentes entre bolsas e malas. Em caso de extravio, uma mulher prevenida vale bem mais que duas sem bagagem alguma.

Mas assim, ser prática e carregar apenas o extremamente necessário? Talento que eu não tenho. Invariavelmente não uso nem a metade do que levo. Planejar um guarda-roupa eficiente, com peças-chave de uma cor? Pode ser… Mas sabe quantas blusas pretas cabem em uma mala?

E isso que viajar, portanto fazer malas, é praticamente um pré-requisito na profissão de jornalista. Já deveria ter aprendido, certo? Pois é aí que tudo se complica – ou se explica. Se a viagem é a trabalho tenho que levar um figurino para reportagem, outro para os (raros) momentos de folga. Nessa mala “à la MacGyver” não pode faltar a fita crepe, várias pinças (em caso de eu perder uma…) e lenços umedecidos. São meus “bombris”, com 1001 utilidades. Fazer barra em calça no meio do nada? ‘Xa comigo.

Uma vezinha só viajei como mochileira. Fui para o Peru. O problema era o tamanho da mochila, daquelas de expedicionário! Foi cheia de coisas de que talvez eu precisasse. Ficou tão, mas tão pesada que acabou alterando o roteiro da viagem. Um dos objetivos era chegar a Machu Pichu pela trilha Inca, em três dias de caminhada, mas o peso da mochila e a falta de ar por causa da altitude me fizeram dar meia volta e concluir a aventura de trem. Não me arrependo; me hospedei na idílica Aguas Calientes e visitei Machu Pichu dois dias seguidos.

Minha teoria é: quem vai carregar a bagagem na maior parte do trecho não sou eu; é o avião, o ônibus, ou o carro. Então, por que não?

Ah, certo… Tem que arrastar a mala escadaria acima… Quando eu morava fora sempre desembarcava no Brasil com duas, monstruosas, a tiracolo. Reclamavam, reclamavam do peso, mas na hora de abrir era aquela alegria! Tinha fantasias de princesa, creminhos, tênis com amortecedor e tração nas quatro rodas, qualquer novidade da Apple.

Quando decidi voltar de vez acho que pequei pela escassez. Num exercício sobre-humano de desapego, tentando reduzir a mudança ao máximo, me obriguei a me desfazer de tanta coisa… (Ainda volto para buscar meus livros, o globo terrestre que também é um abajur e, aproveitando o ensejo, compro várias meias-calças daquelas sem elástico na cintura!)

Dica para quem está voltando para o Brasil de mala e cuia: sabe aquela caixa a mais, aquele volume extra de bugigangas? Traga. Yuri, o artesanato e as antiguidades que encontras pelas feiras de Moscow? Compra, coleciona, carrega. Vale a pena!

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Fico encantada com o entusiasmo do Gringo a cada capítulo de “Milagre nos Andes”. É um relato pessoal de Nando Parrado, um dos sobreviventes da queda de um avião na Cordilheira dos Andes, em 1972. Uma história de provação e superação que me fascina (também recomendo o documentário “A Sociedade da Neve”, do uruguaio Gonzalo Arijón).

A certa altura da saga localizar a cauda do avião estatelada nas montanhas nevadas torna-se fundamental. É ali que está grande parte da bagagem. Casacos de pele e blusões de lã para suportar o frio, batom para proteger os lábios, chocolate e uísque que serão racionados durante dias. A máquina fotográfica que registraria imagens impressionantes. Um rádio.

Longe de mim fazer da tragédia desculpa para exagero, mas o cenário desolador sugere uma reflexão. O avião foi algoz; depois virou abrigo. Aquelas malas, um dia arrumadas com tanto primor pelos passageiros, passaram a representar esperança, tinham as ferramentas para a sobrevivência dos jovens atletas uruguaios.

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A obra de Salvador Dalí não coube em um simples museu. O Teatre-Museu Dalí, na cidadezinha de Figueres (são duas horas de trem, partindo de Barcelona) é dinâmico e instigante como a obra do mestre surrealista.

Num dos salões, o Palau del Vent, o teto é coberto pela representação de um casal. Salvador Dalí e sua musa Gala sobem aos céus. O corpo dele, no lugar da barriga, tem gavetas abertas, vazias.

O que me lembra a pintura do espanhol Dalí é que daqui não levamos nada. Nada de material. Não é o que cobre o corpo que importa, mas o que recheia a alma.

Baseada nisso, crio mais uma teoria para justificar minha irremediável mania de desafiar as leis da física e fazer várias peças ocuparem o mesmo lugar ao mesmo tempo.

Vai dizer que não? Quando nos preparamos para uma viagem escolhemos as nossas roupas mais bacanas, as que nos caem mellhor, ou as mais confortáveis – aquela blusinha que já se moldou à sua anatomia.

A gente já vai imaginando o que vestir nos momentos que estão por vir. “Ah, eu vou ficar legal andando de Mulher Maravilha pelas ruas cariocas…”, pensei num desses devaneios. E lá foi a fantasia ocupando um espaço privilegiado na mala do Carnaval, com bracelete e laço e tudo.

O que conta são as imagens, eternizadas na memória ou em fotografias. Mas os trapinhos que te cobrem nessas horas ajudam a construir essas lembranças. Ajudam a contar uma história.

Portanto, sem culpa… Salve, salve o excesso de bagagem.

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7 respostas em “A mala

  1. Receita para uma mala saudável e leve:
    X cuecas, meias e camisetas para X dias de viagem…o resto é supérfluo.
    Sim, um calçado, uma chinela, na necessaire (escova de dentes e desodorante).
    Cansei de viajar com uma mala cheia e usar 5% dela…a mesma bermuda, camisetas surradas, etc.
    *************
    Dali, com esta leitura de sua personalidade ficou ainda mais interessante.
    *************
    Com certeza a aventura (??!!) nos Andes é fascinante, pois a cada linha é uma lição de vida.
    No sentido literal e mais irrestrito possível da palavra.

    Para variar, um ótimo texto, uma ótima leitura…daquelas de terminar e ficar “dando” F5 para ver se a página carrega mais um pouco.

  2. É, carregar malas nunca foi meu forte (principalmente agora com o probleminha nos meus braços), mas, metaforicamente, a mala que devemos carregar sempre, deve ser recheada de boas lembranças, experiências e alegrias vividas, essa sim tem de ser beeeeem grande…bj Tanira!

  3. Oi Tanira… ótimo post… me vez reviver tanta coisa… tanta mala feita e desfeita! Tb dei uma de mochileira indo pra Tailândia… mas usei e comprei mais, o calor de 40 graus fez com que as roupas fossem usadas mais do que deveriam para um mês e a lavanderia não vencia, hahaha…
    Já arrastei muita mala em trens e escadarias, já deixei muita coisa pra trás e carreguei muita coisa desnecessária… Vou seguir teus conselhos!!!! Adorei!!! Bjão

  4. Boas dicas Tanira, sou péssima em malas, agora mesmo vou passar uns dias no Rio e ja estou enlouquecida pensando em tantas roupas, temperaturas diferentes, hoje aqui fez 4º e la 30°, e à noite esta fazendo fresquinho por la, então verão, meia estação, inverno , nossa… Um beijo.

  5. Ótimo texto mais uma vez. Sou dono de encher as malas e não usar nem a metade dela. Também lembrei de uma viagem há dois anos e de minha briga para trazer os pratos de bateria dentro do avião. Bjs.

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