Eu queria ser uma casa na praia

Não, esse título não está errado. Eu quis mesmo dizer que queria “ser” e não “ter” uma casa na praia – como faria sentido. Então explique-se, Tanira!

É que numa noite dessas tocou no rádio uma música linda… Era “The Planets Bend Between Us”, da banda irlandesa Snow Patrol. Com versos do tipo “vamos correr até a beira do mar, e eu vou gritar desde a Irlanda para que possam escutar nos Estados Unidos que é tudo por você… é tudo por você!”.

Fui pesquisar que musa teria merecido a linda homenagem do vocalist Gary Lightbody. Pois não é que o cara a compôs pensando em sua casa no litoral irlandês? “Há algo especial em estar na praia no inverno, sozinho, sob a chuva, gritando ao vento”, ele justificou. Vai entender…

“Something”, de George Harrison, é uma das mais belas da discografia dos Beatles na minha opinião. Há quem diga que a música foi feita para Patty Boyd (ex de Harrison, que também teria inspirado “Layla” e “Wonderful Tonight” do Eric Clapton). Alguns beatlemaníacos têm outras versões sobre a inspiração de George Harrison, versões menos românticas que vão de Krishna a Ray Charles. “Something” é a segunda música mais gravada da banda – só perde para “Yesterday”.

Uma curiosidade: a segunda frase de “Something”, “attracts me like no other lover” (“me atrai como nenhuma outra amante”), foi definida aos 45 do segundo tempo, quando os Beatles já estavam no estúdio para gravar. A versão de trabalho dizia “attracts me like a cauliflower”, ou “me atrai como uma couve-flor” – claro, o legume vinha sendo usado para estabelecer o ritmo.

É mesmo cheio de mistérios e vazio de regras o processo criativo.

E o Chico? Como nascem aqueles versos que me ajudam a me entender como “mulher”? Versos como “futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber com o amor que eu um dia deixei pra você”. Alguns segredos dos bastidores buarqueanos estão em “Histórias de Canções”, livro do curador do site oficial do artista.

Uma pérola que encontrei na “rede” relata como Chico Buarque e Vinícius de Moraes compuseram “Valsinha”. Foi nos anos 70. Como moravam longe a parceria foi viabilizada através de cartas. Elas estão publicadas no livro “Achados”, de Caique Botkay. Como eu acho que é parte valiosa do nosso patrimônio, tomo a liberdade de copiar aqui alguns trechos. Deleitem-se!

De Vinícius para Chico: “Chiquérrimo, Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. (…) Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa Hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha?”

De Chico para Vinícius: “Caro poeta, Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. (…) Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.”

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Ideias, ideias, ideias…

Elas podem surgir do nada, ou se esconder quando a gente mais precisa. (As que vêm em reuniões de pauta promovidas em mesas de bar são as melhores! Incríveis idéias, a esmagadora maioria jamais implementada.)

A dica, repetida em vários cursos de roteiro e redação criativa que fiz, é andar com olhos abertos e ouvidos atentos – e sempre com um caderninho à mão. O caderninho serve para anotar a reclamação na fila do mercado, ou a conversa no ônibus. É chover no molhado lembrar que jornalista tem que estar sempre tirando a febre das ruas, saber o que angustia a comunidade em que vive. No entanto, quando a tarefa é escrever para ficção, esses elementos do cotidiano são importantes na composição de personagens e diálogos coloquiais. (Andar de ônibus em busca de inspiração… Aí está uma ótima desculpa para não renovar a carteira de motorista!)

Algumas ideias evaporam, outras persistem, se acomodam em alguma gaveta da memória. “A Cidade dos Telhados de Vidro” é um conto com um toque de realismo mágico, que trata do assassinato de um padre numa cidade do interior. O pároco foi mandado desta para melhor junto com todos os segredos inconfessáveis que ouvia em seu confessionário. Já leu? Acho que não, pois ele ronda minha cabeça há anos… E as personagens vivem por aí, à espreita enquanto durmo, querendo sair da minha imaginação e entrar no papel.

Às vezes sai como um cupse, às vezes é um parto. Assim é a gênese de um texto para mim. Na rotina das redações é difícil dar à luz a textos sempre fluídos e bem “amarrados”, pois existe um fator complicador muy amigo dos jornalistas chamado deadline, que é o prazo para veicular a reportagem. Claro, a pauta e os entrevistados podem ajudar. Ou atrapalhar tudo…

Luxo dos luxos é poder deixar o texto de lado um dia ou dois antes do fechamento. Se afastar da criatura e ler mais tarde, com um olho diferente. Amadurecer um raciocínio. Acrescentar uma informação que cause impacto.

Esses dias Dona Inspiração veio do nada e me fez pensar sobre o amor apesar de. Esse aí eu rascunhei e fiquei namorando durante dias, mudando uma palavrinha aqui, outra vírgula ali, porque eu queria que ficasse redondinho.

“A gente nunca acaba uma obra, a gente desiste.” A frase que diz mais ou menos isso é atribuída ao cineasta George Lucas. Gosto de beber dessas fontes, é alentador saber que os grandes também sofrem das dores do parto criativo.

Para encerrar, uma lição do mestre Gabriel García Márquez, em “Como Contar um Conto”.

“Eu nunca torno a ler meus livros depois de editados, com medo de encontrar defeitos que tenham passado despercebidos. Quando vejo a quantidade de exemplares vendidos e as maravilhas que os críticos dizem, dá medo descobrir que estão todos enganados, críticos e leitores, e que o livro, na verdade, é uma merda. (…) Essa dose de insegurança é terrível, mas ao mesmo tempo necessária, para fazer algo que valha a pena. Os arrogantes, que sabem tudo, que nunca têm dúvidas, acabam dando tanta cabeçada que morrem disso.”

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E tu? O que ou quem te inspira?

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4 respostas em “Eu queria ser uma casa na praia

  1. Tem tanta coisa que me inspira… Este teu blog me faz querer voltar a escrever um pouco mais, só pra dar um exemplo. Mas um dia com nevoeiro, ou mesmo com aquela garoa fininha de molhar bobo, caminhando por alguma coxilha perdida na Metade Sul do Rio Grande numa manhã gélida, é algo poderoso. Talvez essa seja a inspiração mais “barata” que existe, do ponto de vista daquele pessoal chato que gosta de fazer guerra de referências, mas onde estaria o samba se não fosse a própria contemplação da democrática natureza?

    • o que me inspira… ‘O farfalhar das folhas secas esmagadas pelos meus passos nas longas caminhadas… Uma pipa dançando ao sol, num céu de brigadeiro… A paisagem noturna que rompe a janela de um onibus em movimento, com as estrelas fixas no firmamento acolhendo o Cruzeiro do Sul, que aponta meu destino… Lágrimas caladas de uma mãe abraçando seu filho doente… retornar para casa, no final de mais um dia feliz… Abraçar amigos, pelo sucesso do seu bebê… como agora!”. Um inspirado abraço pois, ‘something in my way YOU move’! xxoo

  2. Lindo filha! Interessante, ontem assisti uma entrevista com Danilo Caymmi em que ele falava sobre a inspiração; ele já se inspirou assistindo o programa do Datena e o comandante Hamilton voando no helicóptero sobre São Paulo. Adorei, mais uma leitura para sonhar!!!

E tu, o que me dizes?

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