Não tem perdida

Fim de tarde, de volta a Porto Alegre, mortos de cansaço (mas de cansaço “dos bons”), estamos num dos nossos botecos preferidos para encerrar o fim de semana com uma bela cerveja artesanal. Pergunto pro garçom, um beer somelier, por que raios não tem Conti Bier no cardápio. “Conti!?!” ele reage surpreso, querendo contar como conheceu essa cerveja ralinha, aguadinha, espumosa. “Duvido que a tua história seja melhor que a nossa”, respondo. De fato, não era.

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Bastou seguir por um atalho equivocado e a viagem entre Porto Alegre e Cambará do Sul ficou uma hora mais longa. (Foi então que entendi o aperto por que passam os competidores do meu reality show favorito, “The Amazing Race”: é muito fácil se perder e se atrasar para a próxima tarefa, sobretudo no caso deles, viajando mundo afora.) Passava das 11 da noite quando chegamos à pousada. Janete, que dormia sentada nos esperando, avisa que dificilmente encontraríamos onde jantar. “Aqui tudo fecha às dez!” Decidimos arriscar.

Com todo o devido respeito a Cambará do Sul, lá não faz muita diferença se hospedar no campo ou na cidade… A algumas quadras da nossa pousada na “zona rural” já estávamos no centro. Nossa salvação estava do outro lado da igreja, em frente à praça: Pizza Retrô!

Móveis antigos, paredes coloridas, vitrola funcionando, uma coleção de discos, gente bacana e uma pizza fa-bu-lo-sa. Tinha tudo o que precisávamos, exceto… Exceto a cerveja. “Acabou nosso estoque”, disse o garçom, meio sem jeito. No problemo. Gringo pega emprestado dois cascos e vai no bar da esquina. O lugar era um inferninho onde só havia a tal Conti – um freezer lotado! Fazer o quê? Brindar, ao som de um vinil de Tina e Ike Turner, como se fosse a última birra dos Campos de Cima da Serra.

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No sábado de manhã os patos avisam que é hora do café – com pão de banana e doce de leite caseiros. Mate cevado, lá vamos nós conhecer o Cânion Itaimbezinho. São 18 km de estrada de chão até o Parque Nacional Aparados da Serra. Nele é possível fazer duas trilhas: a do Cotovelo e a do Vértice. Seguindo a recomendação de um guia local começamos pela mais longa, a do Cotovelo. São três horas de caminhada “round trip”.

Eu queria ter um mapa, um guia que mostrasse precisamente como chegar aonde, e que me desse informações enciclopédicas sobre o que eu estava vendo. Mas não tínhamos. No entanto, o percurso é bem sinalizado; uma trilha fácil, plana, cercada por samambaias e araucárias.

Gringo faz milagres com as camerinhas, mas acho que não tem fotografia que traduza a grandeza e a beleza do que nos aguardava no fim do caminho.

O nome vem do tupi-guarani: ita (pedra) e aimbé (afiada). Aqui o paredão tem 720 metros de altura – é como se estivéssemos no topo de um prédio de 240 andares. Lá embaixo enxergamos o Rio do Boi, que pertence a Santa Catarina. Dizem que a caminhada pelo rio, no interior do cânion, é inesquecível. Ficou na “to do list”.

A trilha do Vértice é a mais popular entre os turistas (são 50 mil visitantes por ano no Aparados da Serra). A caminhada dura cerca de uma hora e o que se vê, como as cachoeiras banhando os paredões, é digno de cartão postal.  

O passeio pela chamada “parte alta” do cânion pode ser feito em um turno.

Como ainda tínhamos muita tarde pela frente seguimos a dica da Janete, a dona da pousada, e fomos a Jaquirana.

A cidadezinha fica do lado de Cambará do Sul. Uma estrada de chão nos leva à Cachoeira dos Venâncios. É uma jóia escondida dentro de uma propriedade particular: o Rio Camisas desce por degraus imensos formando quatro quedas; cada uma delas é cercada por lajes que nos permitem ver as cascatas de um ângulo privilegiado.

E quando a gente pensa que já se maravilhou o suficiente, eis que surge o Tio Gripa! Ele fica sentadito, bebericando e tocando sua gaita num canto do Galpão Costaneira.

O restaurante serve comida tropeira num bufê de panelas de ferro. Feijão mexido, carne de panela, polenta, mandioca cozida “se desmanchando”. Jantar farto: estávamos “podendo”, depois de uma tarde com os pés na trilha. Comemos despacito, enganando o cansaço (um daqueles “cansaços dos bons”) para apreciar a música do Tio Gripa.

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O domingo começou cedinho, pois queríamos mais aventura antes da viagem de volta. Janete nos sugere visitar o Cânion Fortaleza. Ela mostra o caminho numa fotografia, uma vista aérea da cidade; anoto algumas instruções tipo dobra aqui, segue por tantos quilômetros de chão até ali… “Não tem perdida”, ela garante, “não tem perdida”. Então, tá bem…

Mate cevado, pão de banana na mochila, partimos confiando no caminho que vem sendo transmitido boca a boca por gerações. As dicas da Janete combinam com as do guarda na entrada do Parque Nacional da Serra Geral. Estaciona na porteira, caminha tantos metros, passa sobre a ponte, segue pela beira do rio. “Não tem perdida”, lembramos. E, de fato, não tinha.

O Cânion Fortaleza é mais intocado que o Itaimbezinho, mais “roots”, como diz o Gringo. Nada de placas indicando caminho. Nenhuma cerca te separa da beirinha do penhasco, que em alguns pontos chega a ter 900 metros! O movimento de turistas é menor, talvez pelo esforço que as trilhas exigem. Subimos pela Trilha do Mirante. Do topo, em dias claros, se avista o litoral. Passeamos entre as nuvens. Perdemos o fôlego, não por causa da escalada morro acima, mas por causa da imensidão da paisagem.

Ai, que coisa mais clichê se deter a pensar na vida num lugar desses! Mas o contrário seria absurdamente impossível…

Fortaleza, eu acho, é um nome mais que apropriado. O cânion me transmite constância, perenidade – e serenidade. A vida nele independe de resoluções da ONU, de altas em bolsas de valores, de alguma descoberta da ciência ou revolução industrial. (Queria, em certas horas, ter um cânion dentro de mim.)

A Trilha da Cachoeira do Tigre Preto é mais curta, mais acessível – mas com suas peculiaridades. Para enxergar a cachoeira é preciso atravessar o rio pulando pelo caminho improvisado nas pedras, a alguns metros da queda. Sem emoção, que graça tem?

A trilha acaba na Pedra do Segredo, como foram batizadas as duas rochas que se equilibram à sombra do paredão. (Observando as fotografias, mais tarde, juro que enxergo a silueta de um macaco nas pedras!) Insisto com o Gringo para matarmos a sede num riacho, pois uma vez ouvi que para voltar num local é preciso beber de sua água.

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Não fosse pelo atraso na chegada em Cambará do Sul, nosso jantar naquela sexta-feira teria sido convencional. Com uma pizza unicamente delish (ainda volto para experimentar a de pinhão e a de strogonoff de charque), mas com a cervejinha comum de cada noite.

O Itaimbezinho é lindo, organizado, acessível. Talvez acessível demais… Vale a visita, é claro! Mas poucas sensações se comparam à de caminhar linda e solta pelo Cânion Fortaleza, de espiar lá na beirinha do penhasco e chegar quase até a porta do céu.

Deixo o Fortaleza me contradizendo. Não quero mapa, não quero um manual de instruções, não quero saber muito além daquilo que meus olhos vêem. Não tem perdida: às vezes o melhor da vida está escondido num caminho errado, numa viagem sem roteiro.

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9 respostas em “Não tem perdida

  1. Escreves como poucos…descreves como poucos!
    Lendo este texto, realmente passaste as emoções e sentimentos que, sem redundâncias, sentimos!
    As melhores viagens são aquelas que não programamos…aquelas, onde, na quarta-feira a noite…”Vamos?” e a resposta é: “Vamos!” E na sexta estamos na estrada…sem rumo, ou melhor, com rumo, mas perdidos!
    Foi assim no Rio, foi assim aqui!
    Enquanto uns, para “aproveitar” uma viagem condiconam a grandes distâncias, vôos intermináveis, línguas diferentes…apenas com o intuito de facebookear e se gabar…outros, fazem viagens sinceras, a destinos tão deslumbrantes, e igualmente sinceros…e sinceramente, estas é que ficam!
    Sem menosprezo!
    Obrigado pela viagem, obrigado pela companhia, obrigado pela parceria, e principalmente, pela leitura, cheia de emoção…de encher os olhos…também de lágrimas.

  2. Bem legal. Belas fotos. É um lugar que eu gostaria de voltar. Há muitos anos, desci até quase embaixo da primeira cachoeira. Imagens inesquecíveis!

  3. Pingback: Do diário da motocicleta | Take the long way home

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