FUTEBOL = PERTENCER

Escrevo ainda sob o calor do “Dia do Fico” de D’Alessandro, da estréia do Internacional na Libertadores e da promessa de uma bela campanha no Gauchão.

Sério. Fiquei emocionada com a decisão do D’Ale. Os argumentos que a direção do clube usou para convencê-lo a ficar foram bons e sabe-se lá quantos cifrões formaram  a cereja do bolo. Mas é óbvio – e isso até gremistas com dor de cotovelo admitem – que contou também a possibilidade de se firmar como um líder para o time e, sobretudo, um herói para a torcida. Achei fofo el D’Ale comentando na coletiva após a proclamação do “fico” sobre o carinho que sente pelo Inter, desde a tia que prepara o lanche, ao tio que cuida do vestiário, ao porteiro.

Lembro quando Zico, lá no comecinho dos 80, decidiu ir jogar na Itália deixando toda a torcida do Flamengo desolada. Vi a notícia num desses telejornais tarde da noite, lembro das imagens de cariocas chorando e xingando. E xingando. Muito.

Não entendo muito mais sobre futebol do que entendia naquela época. No entanto, me arrisco a um palpite: futebol = pertencer.

Zico acabou voltando. Mais tarde migrou outra vez – só para voltar novamente… Deve ter sentido falta dessa sensação.

Na China, que contratou animadores de torcida para alegrar as multidões nos estádios nas últimas Olimpíadas, será que o D’Ale conseguiria “pertencer”? (Dica: não se surpreenda se a China continuar tentando importar nossos craques… Fique de olho, hein? Na Alfa tem um belo artigo sobre por que é melhor viver sob o império norte-americano que sob um império chinês.)

Eu pertenço à nação colorada desde pequeninha. Nunca esquecerei de uma tardinha em que o pai nos levou para comemorar uma vitória do Inter na esquina de casa, abanando guardanapos vermelhos para os carros que passavam em festa. (A Maia estava junto mas o empenho não colou com ela, que se bandeou pros lados do tricolor…)

Não sou do bloco dos doentes ou fanáticos. Até torço pelo Grêmio se for para garantir um clássico em final de campeonato, ou se o adversário deles for um time carioca ou paulista.

Mas visto minha camisa com orgulho! Mesmo quando isso implica em acordar de manhã cedinho para o registro de uma porção da torcida desgarrada comemorando o centenário do clube em Los Angeles.

Ser brasileiro, quem mora fora sabe, é um ótimo cartão de visitas e isso se deve muito ao futebol. Não importa o quanto o legado de FHC e a administração de Lula tenham mudado a imagem do país lá fora, Brasil ainda é = Bossa Nova, Carnaval, café e Pelés, Romários, Ronaldos…

Nossa torcida se globalizou. Fiquei surpresa e orgulhosa ao ver a camisa 10 da seleção espalhada pelas lojinhas de um bazar em Marrakech durante a Copa do Mundo de 2006.

Aliás, imprescindível levar na mala um estoque de presentinhos verdes e amarelos nessas viagens de produção. Impressionante como essa gentileza abre portas! (É o que na seara das relações internacionais se chama de soft power: a habilidade de persuadir os outros a fazerem o que você quer que eles façam, através de atração e recompensas.)

Recém-chegada nos esteites, se eu avistasse alguém vestindo a inconfundível camisa da seleção corria para abraçar! Queria tocar, beijar, falar português, dar um balãozinho na saudade…

Imigrante brasileiro que se preze coloca o filho em escolinha de futebol (muitas dirigidas por jogadores veteranos daqui). É uma maneira de ensinar o idioma, a ginga e quem sabe conquistar uma bolsa de estudos numa universidade americana. Comunidade brasileira que se preze tem a bendita pelada do fim do dia ou da semana. Apesar do festival de baixarias que rola em campo (afinal os jogadores são de diferentes estados ou de times rivais), a pelada funciona como um boca-a-boca de anúncios classificados: dá para arrumar emprego, vaga em apartamento, um carro usado.

Os Estados Unidos também tentam, meio que em vão, popularizar o futebol por lá. Desde os anos 70, quando o Cosmos levou o Pelé. Em LA o Galaxy investiu alto e contratou David Beckham. Fui a uma partida pronta para torcer para os gringos do Galaxy, mas acabei migrando para a arquibancada do Chivas USA, que é uma equipe com raízes latinas, com uma hinchada mais caliente e genuína.

No entanto, nada se compara a ver um jogo num templo do futebol brasileiro, mais precisamente num estádio localizado à beira-rio…

É um privilégio.

Enquanto isso, em outro cantinho do planeta há quem corra grandes riscos em nome do futebol. É o caso das iranianas. Elas são proibidas pelas rigorosas leis islâmicas de frequentar espaços predominantemente masculinos – mesmo assim, insistem em pertencer. O belíssimo e singelo “Fora do Jogo” (Offside, de 2006) de Jafar Panahi narra a saga de mulheres iranianas que se disfarçam de homens para entrar no Estádio Azadi. Ironicamente, azadi significa liberdade em persa.

(Parêntese: em inglês offside se refere à regra do impedimento. Ironicamente, hoje é o cineasta Panahi que tem sua liberdade tolhida. Ele está impedido de sair do Irã e de trabalhar durante 20 anos, acusado de agir contra a segurança nacional e fazer propaganda contra o regime.)

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Tem um personagem que não pertence a ninguém nessa história. É a bola.

Não entendo por que garotos de todas as idades gastam saliva descrevendo (talento que só eles têm) com detalhes precisos, cinematográficos até, os gols que pensam que marcaram. Habilidade do artilheiro? Falha do goleiro? Comentaristas, técnicos, jogadores teorizam sobre a origem do gol. E esquecem que quem manda é ela… Ela é dona da sua vontade. Para virar um craque o cara tem que saber encantá-la.

E a prova está aqui: o genial Carlos Drummond de Andrade torcendo pela vitória na Copa de 70.

Bolinha minha, meu amigo redondo, suplico-te: não deixes a Copa ficar com a Britânia ou outra qualquer nação que dela não precisa como precisamos nós. Faze o seguinte: se nossos atletas não derem tudo que têm obrigação de dar, assume por ti mesma o ataque, vai em frente e, sozinha, ganha para nós, esse terceiro campeonato.

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9 respostas em “FUTEBOL = PERTENCER

  1. Adorei o que tu escreveu,eu sou gremista,mas também quando o inter esta em jogo também torço,isso quer dizer amor aos gaúchos, ser educada.Bjs.

  2. Adoro como escreves, mas como gremista vejo que o argentino inventou um empresário chinês e enganou os colorados, mais do que dobrando o salário. Lamento que ele não tenha feito isso no Grêmio, pois até pela fortuna eu gostaria de vê-lo em meu time.
    Continua brilhando, mesmo que não fales azul.
    tio sant´anna

E tu, o que me dizes?

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