A Separação

A confissão: por pouco não deixei a sala de cinema antes do fim de A Separação.

Mas não foi por não estar gostando (a saber, minha tolerância para filme chato é curta, ou eu durmo ou fast-forwardo…). Pelo contrário! Quando percebi que a história começava a acabar decidi que preferia não saber qual seria o destino dos personagens.

Na tela o casal da separação em questão, cada um num canto, magistralmente distanciados pelos elementos de cena. E eu torcendo: “Termina logo, termina logo!”.

A obra de Asghar Farhadi  (ele escreveu, produziu e dirigiu) me lembra filmes como O Banheiro do Papa (baseado em hilários e comoventes fatos reais), O Visitante (um conto sobre imigração ilegal que elevou o eterno coadjuvante Richard Jenkins ao status de estrela da hora), e o argentino Um Conto Chinês (com o imprescindível Ricardo Darín). São histórias singelas, humanas, com personagens que instigam algum sentimento – seja piedade ou raiva.

Histórias assim, eu creio, superam de longe qualquer avanço em CGI.

O filme narra o drama de Simin, que quer deixar o Irã em busca de um futuro menos conturbado e por isso quer se separar de Nader que, por motivos louváveis, não pretende ir embora. Seria simples se eles não dependessem de uma autorização do governo para dissolver o casamento. E se as pequenas decisões não tivessem consequências tão graves lá na frente. Em A Separação ninguém é totalmente culpado, ou totalmente inocente o tempo todo. E o espectador (eu, ao menos…) se vê trocando de lado a cada sequência.

Farhadi filma segundo o peculiar manual do cinema iraniano: é um gênero quase documental, que usa ambientes reais como locações e transeuntes como figurantes. Em entrevista ao The Guardian, ele disse que essa abordagem permite que os espectadores descubram o filme por si e evita que o cineasta imponha seu ponto de vista.

Asghar Farhadi, seu elenco e equipe já devem estar com os braços cansados de tanto arrecadarem troféus mundo afora. São prêmios de associações de críticos, prêmios de júri popular, em festivais pequenos e em festivais de renome como o de Berlim.

Ao receber o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ele fez um discurso elegante. “Muitos iranianos em todo o mundo estão nos assistindo e eu imagino que devam estar felizes, não apenas por causa de um prêmio importante. Em tempos de guerra, de intimidação e de agressões entre políticos o nome de seu país é mencionado aqui através de sua gloriosa cultura, que está escondida sob uma poeira política.”

E é verdade, escondido sob uma densa poeira política está o cinema persa.

Como a cerimônia só foi assistida no Irã por quem tem satélite, no dia seguinte a agência de notícias estatal Farsi se encarregou colocar palavras na boca de Farhadi. Segundo a Farsi, ele disse: “Eu orgulhosamente ofereço este prêmio ao povo do meu país que, apesar de todas as tensões e hostilidades entre o Irã e o Ocidente em relação ao programa nuclear iraniano, respeitam todas culturas e civilizações”.

O cineasta realmente terminou o discurso com uma homenagem ao seu povo, mas não fez qualquer menção ao programa nuclear. Percebendo que não teria como sustentar a farsa por muito tempo o governo acabou publicando uma nova versão da reportagem. A façanha, porém, ficou devidamente registrada pelos blogueiros iranianos.

Enquanto tenta usar o sucesso de A Separação em benefício próprio, a ditadura Ahmadinejad continua calando seus artistas. O próprio Asghar Farhadi teve a licença para filmar cassada por declarar publicamente sua solidariedade ao colega Jafar Panahi (condenado a seis anos de prisão e a 20 anos sem trabalhar como diretor). A Casa de Cinema, a mais importante associação independente de cineastas do Irã, foi ordenada a encerrar suas atividades pelo Ministério de Cultura e de Orientação Islâmica. A perseguição é parte da incessante campanha para reprimir o movimento de oposição ao regime.

Escrevo ciente de que falar do Irã exige tolerância e um certo distanciamento dos “filtros ocidentais”. No entanto, isso não significa isentar o país de sua responsabilidade com as convenções internacionais, sobretudo no que diz respeito à promoção e defesa dos direitos humanos.

Mesmo sem qualquer pretensão de promover um debate político ou sociológico, Asghar Farhadi abre uma janela para uma cultura rica, para uma nação cheia de contradições (e qual não o é?) e involuntariamente devolve para a pauta a repressão que impera por lá.

Uma vez ouvi que Coldplay é uma banda que todo mundo adora odiar, e que ninguém admite curtir.

O Oscar é mais ou menos assim. O pessoal adora criticar, torce o nariz, mas fica de olho! Se o selo de aprovação de Hollywood era só o que te faltava para assistir A Separação… Corre lá!

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9 respostas em “A Separação

  1. Tantan,
    Um texto maravilhoso! Perfeito.
    Embora ir ao cinema não esteja nos meus planos para as próximas semanas (ou meses), fiquei irresistivelmente tentada a assistir o filme. Não para saber o fim, mas para saber o meio.
    Bjs maternais…
    Fernanda

  2. Tle,

    A qualidade de seu texto com certeza supera a do filme. Aliás, tenho uma tese: o Irã é tão turbulento, que os filmes tem aquele ritmo só pro pessoal poder dormir em paz no cinema… Everyone to his taste! bj

  3. Perfeito!
    Acho que podem ser estes dois sentimentos – piedade ou raiva – que não me permitiram assistir a todo o filme, assim como aconteceu com outros filmes iranianos que não persisti. Na verdade, piedade E raiva seria mais adequado… um pouco de indignação de quem não entende como o ser humano LHE e SE permite viver situações humilhantes, quase desumanas (não necessariamente neste filme). Ignorância minha que vivo no ocidente, mas minha limitação é tão grande que só de pensar na situação da mulher iraniana eu desisto de assistir os filmes… Tenho que repensar … Confesso!!!!

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