A reinvenção dos artistas

Nem a enxurrada de prêmios, nem a recomendação de amigos, nem a curiosidade. Nada, nada me tirava a preguiça de ver O Artista – um filme mudo, em preto e branco, ambientado no final dos anos 20. Nem mesmo o dever de quem aprecia cinema… Ou o calor saariano que obriga a procurarmos abrigo em ambientes com ar condicionado. O argumento incontestável veio no artigo de Alberto Dines, que li no Observatório da Imprensa: o filme trata da necessidade de se reinventar.

O Artista em questão é o galã George Valentin (Jean Dujardin), que resiste à chegada do som ao cinema. Repetindo o mestre Dines, essa é uma metáfora sobre o desafio que artes e artistas (e eu diria o mesmo para todo tipo de profissão) enfrentam quando suas formas de expressão ou suas ferramentas de trabalho são ameaçadas ou consideradas ultrapassadas.

Denunciando aqui a minha idade: terminei da faculdade sabendo como diagramar um jornal com primor! Redigia numa lauda na máquina de escrever; distribuía o texto em colunas precisamente medidas com régua de paica; compunha títulos e subtítulos com letrinhas adesivas a la Kalkitos. Hoje posto neste blog em minutos…

Quando comecei a carreira na TV ouvia loucas histórias sobre os tempos em que telejornalismo era feito como cinema, portanto necessário revelar filme para colocar a notícia no ar – para desespero dos produtores; para a alegria dos cardiologistas. Fiz parte das equipes de reportagens que carregavam aqueles VT’s enormes (um tipo de videocassete) acoplados às câmeras. Aprendi a editar com o sistema Betacam: a gente revisava a gravação numa máquina, selecionava os trechos que valiam e copiava para outra fita, em outra máquina. Saber editar nesse “sistema linear”, acreditem, me garantiu emprego no exterior. Mas em seguida chegaram às redações a edição por computador (“não-linear”) e as câmeras digitais. Tão mais rápido e eficiente… Como ninguém havia pensado nisso antes? Bora aprender tudo de novo. Outra vez.

Dominar os softwares de computer-aided design ou CAD ou AutoCAD, que geram projetos em duas ou três dimensões, é um pré-requisito para um engenheiro como o Gringo – que me levou ao cinema igualmente seduzido pelo argumento infalível de Alberto Dines. Mas quantas plantas de obras já foram desenhadas com lápis e papel?

Parece que os avanços da tecnologia acompanham a chegada de cada nova geração ao mercado, ameaçando com obsolência quem já atingia certa senioridade e estabilidade em seu emprego – não importando a área de atuação. Atualize-se, aprenda, reinvente-se, ou “abra o caminho para o novo”.

E isso não se limita ao trabalho. Experimente enviar notícias para aquele amigo distante através de carta e esperar que a resposta venha pelo correio “convencional”. Uma boa vida de ermitão para você, meu bem.

O Artista convida a essa reflexão.

O Artista é obrigatório porque nos tira da zona de conforto, como bem observou o Gringo. Estimula uma outra forma de compreender um filme; exige prestar atenção nos detalhes, já que a informação não é oferecida numa bandeja. “A nostalgia pode ser revolucionária”, decreta Dines. E por isso é também uma aula de roteiro.

Creio que uma deficiência constante nos filmes é o excesso de informação colocado na boca dos personagens por roteiristas preguiçosos. No cinema mudo a escassez de diálogos exige criatividade para contar a história usando outros recursos narrativos como os objetos da cena, ou as expressões dos atores. E aqui deixo meu aplauso para atriz Berenice Bejo, que dá vida a Peppy Miller, “a nova cara do cinema falado”. Preste atenção no seu “solo” no camarim de George Valentin, um pequeno luxo de roteiro e interpretação.

É o tipo de história que você carrega consigo depois que sai do cinema. Não que seja necessário uma sessão de terapia em grupo para dar sentido ao drama de George Valentin – a saber, nem de graça vejo filmes que desdenham do espectador, cheios de símbolos e metáforas que só o diretor entende.

Dines acertou em cheio. “Não se trata de um drama particular dentro de um ofício – neste caso o título seria O Ator. A ideia era transcender a crise produzida pela introdução do som no cinema e gerar uma provocação válida para qualquer gênero artístico quando ultrapassado pelo progresso tecnológico.”

O trunfo do bom cinema é proporcionar a identificação do público com os personagens. A necessidade de reinvenção é constante, fascina, assombra e angustia ao mesmo tempo. Assim, todos somos um pouco “artistas”.

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5 respostas em “A reinvenção dos artistas

  1. Tá bom, não tinha pensado desse jeito mesmo. Parece q vou ter de assistir novamente e apreender essas metáforas perdidas! Esse é o lado ruim de termos tanta informação antes de ver um filme.

  2. Ao ler teu texto me senti como uma pessoa de bom gosto para filmes.Eu, como já te havia dito no facebook, me senti como também carregando dentro o filme, e com uma enorme vontade de ficar para a próxima sessão e vê-lo novamente.

    • Obrigada pela visita, Moema! Eu estava mesmo com preguiça de ver, mas me surpreendi com O Artista. Acho que a experiência de apreciar um bom filme no cinema ainda é única!

E tu, o que me dizes?

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