Nunca Más: os netos recuperados

Show do U2 não é simplesmente um show, é também um comício. As bandeiras que Bono Vox leva para o palco inquietam e chegam até a provocar uma certa dor na consciência pela pequena fortuna investida no ingresso – não seria melhor doar o dinheiro para uma das causas humanitárias abraçadas pela banda?

Buenos Aires, estádio do River Plate. Nos primeiros acordes de “One” Bono chama para o palco as Madres de la Plaza de Mayo. Emocionante? Sim, sin duda. As Madres, uma instituição da recente história da Argentina, haviam virado pop? Sim também, se necessário, pois toda exposição é benvinda. Pense bem: quantos ao meu redor, naquela multidão que lotava o River Plate, poderiam ser filhos dos jovens desaparecidos durante a ditadura militar, os netos procurados?

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“(…) Yo, hace viente años, dice: en el dia de mañana nuestros nietos serán adultos y van a buscarnos. (…) Ahora son hombres y mujeres que dudan, tocan el timbre y preguntan ‘seré nieto de ustedes? quiero saber’.”

O depoimento de Estela Carlotto, presidente da ong Abuelas de la Plaza de Mayo, sintetiza de que se trata o documentário “¿Quién soy yo?”, de Estela Bravo. É uma compilação de histórias comoventes como a de Horacio Pietragalla.

Ele cresceu como Cesar Castillo. Na adolescência passou a desconfiar que seria adotado – ele não percebia semelhanças, nem físicas nem de caráter, com os pais. Ao conhecer o trabalho das Abuelas começou a ligar os pontinhos: a mãe adotiva trabalhara como doméstica na casa de um militar, e isso era uma grande pista. Quando a namorada descobriu no site da ong a foto de uma jovem com um bebê, os dois parecidíssimos com Horacio, foram as dúvidas que desapareceram.

Horacio foi bater na porta das Abuelas. Depois de uma rápida mas precisa averiguação recebeu um título: “nieto recuperado numero 75”. Ele recuperou os laços familiares e ouviu histórias sobre seus pais. A mãe, Liliana Corti, foi assassinada pela repressão quando ele tinha cinco meses; do pai herdou o nome e os quase dois metros de altura.

A expressão “requinte de crueldade” pode ser clichê, mas não vejo outra forma de descrever o que a ditadura que castigou a Argentina entre 1976 e 1983 fez com os filhos dos prisioneiros políticos. Crianças foram sequestradas; bebês foram tomados das mães, presas, logo após o parto. Cerca de 500, todos entregues a um sistema de adoção clandestino.

A associação das Abuelas surgiu em 1978 dentro da organização das Madres de la Plaza de Mayo com o objetivo de localizar as crianças vitimadas pela repressão. Depois de anos batendo e porta em porta, peregrinando em busca de pistas sobre os filhos e os netos, hoje as abuelas são frequentemente surpreendidas por jovens que querem descobrir sua verdadeira origem, bem como um dia previu Estela de Carlotto. (Ela, a propósito, ainda procura pelo neto. O corpo da filha sequestrada em 1977, grávida de três meses, Estela conseguiu enterrar – “casi un privilegio”, leio numa reportagem sobre o caso.)

O Ministério da Justiça argentino atribui à Comisión Nacional por el Derecho a la Identidad (CoNaDI) a função de amparar o empenho das Abuelas. Se a investigação através de documentos não convence, os supostos nietos y nietas podem averiguar sua identidade consultando o Banco Nacional de Datos Genéticos (BNDG), que tem amostras de DNA de todas as famílias que buscam por seus desaparecidos (foi um exame assim que Horacio Pietragalla fez).

Tropecei no documentário “¿Quién soy yo?” depois de ler o blog da jornalista gaúcha Gisele Teixeira, que mora em Buenos Aires. No blog da Gisele soube das celebrações pela descoberta do “neto número 101”, e conheci tantas outras maneiras como os argentinos mantêm viva – embora cheia de remendos – essa dolorosa história.

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“Well, it’s too late, tonight, to drag the past out into the light.”

Assim cantava Bono Vox naquele distante mês de maio, no show em Buenos Aires. Atrás dele madres y abuelas andavam em círculos, repetindo no palco a coreografia que há mais de três décadas levam para a praça em frente ao palácio da presidência. Insistindo em contrariar a canção, teimando em iluminar o passado.

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3 respostas em “Nunca Más: os netos recuperados

  1. Putz, que história… E como sempre, muito bem escrita. Dá um misto de raiva, uma dor, uma pena, uma revolta com tanta injustiça, tanta brutalidade. A gente não pode mais mudar o passado, mas todos esses sentimentos nos fazem obrigados a lutar até o fim para que essas barbaridades jamais se repitam no futuro.

  2. Realmente, emocionante e revoltante. Não acho possível avaliar ou imaginar a dor dessas mulheres. Sem dúvida, o homem é o animal mais cruel que existe.
    Mas ao terminar de ler o teu texto volto a pensar no teu primeiro parágrafo e na pergunta que o finaliza. Eu tenho a minha opinião sobre isso: não, não seria melhor. Acho justo o preço por essa lição de cidadania que atinge milhares de pessoas e que se desdobra e se multiplica, como em textos como o teu, que chegou até mim. Esse é o poder de um megashow, da música. Da muito boa música.
    Adoro ler os teus textos, me fazem pensar em muitas coisas, principalmente agora que me encontro dedicada a fraldas e mamadeiras, vivendo em “estado de graça”. Me faz lembrar que existe vida lá fora.
    Bjs, te amo.

  3. Lindo texto,como sempre. Me emocionei imaginando o sofrimento dessas mães é avós. É uma dor enorme para a família! Beijos, linda da mami!

E tu, o que me dizes?

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