Da fabriqueta de memórias

Conversar com estudantes de jornalismo é sempre um prazer. Acredito no intercâmbio entre a academia e o mercado: para os futuros jornalistas é inspiração; para os profissionais, reciclagem.

Um exemplo. Depois que voltei a estudar descobri a importância da metodologia de pesquisa. Um repórter, eu acho, tem que deixar a redação com um conjunto de hipóteses – a pauta não pode ser encarada como uma “tese” a ser comprovada.

Como em toda profissão, quando nos graduamos somos como uma pedrinha bruta. Pedrinhas bonitinhas, diplomadas, mas brutas, que somente serão lapidadas com os solavancos do dia-a-dia. (Na reportagem sobram solavancos!) Anos de estrada nos ajudam a criar um “manual de redação particular”, de onde saem algumas lições que gosto de lembrar nessas conversas.

Preparando uma palestra sobre o telejornalismo na era da Internet encontrei uma citação genial do genial Geneton Moraes Neto (um repórter que sabe OUVIR). “Fazer jornalismo pode ser simples: é ver, ouvir e passar adiante – da maneira mais fiel e mais interessante possível. Ou seja: produzir memória”, ele diz.

Fazer jornalismo é produzir memória. Gosto dessa definição pois creio que toda obra implica numa co-autoria entre quem a produz e quem a aprecia. Eu escrevo com uma intenção, você interpreta à sua maneira. Além disso, de nada valeria escrever um poema, fazer uma reportagem, pintar um quadro ou compor uma canção se não fosse para dividir com alguém. Certo?

Num “mundo perfeito” você encontra bons parceiros para uma obra. É o caso de uma reportagem costumo apresentar nas escolas de jornalismo, uma das mais bacanas que já fiz. Uma obra composta a dez mãos.

O personagem é o físico Eduardo Couto e Silva, radicado nos Estados Unidos há mais de duas décadas. Ele trabalha num laboratório da Universidade de Stanford, no norte da Califórnia, onde integra a equipe que monitora o Telescópio Espacial Fermi, que Eduardo ajudou a construir. Contamos sua história no Planeta Brasil, programa que retrata a vida dos brasileiros no exterior (TV Globo Internacional).

Eduardo, meu entrevistado, se empenha em tornar compreensível a ciência e a tecnologia que envolvem seu ofício. Além disso, diverte com casos como os desafios de lidar com uma equipe internacional (“O japonês nunca diz não!”).

É o tipo de entrevistado dos sonhos! Ele me ofereceu inúmeras informações e recursos para escrever um bom texto.

O cinegrafista Alan Hernandez é um dos mais talentosos que conheço. O uruguayo é do tipo que se integra verdadeiramente na pauta, bolando um roteiro de gravação com takes precisos e variados.

Tinha outro Eduardo envolvido na operação, o Canto Machado, editor do programa. É um velho e grande companheiro de trabalho. Sua paixão pela astronomia e sua sensibilidade musical deixaram a matéria interessante e dinâmica.

O “quinto par de mãos” dessa composição é você, que pode ver a reportagem aqui.

********

Outro aspecto muito positivo desses convites é que cada bate-papo me leva a n reflexões. Se me perguntam o que não pode faltar para um jornalista respondo: bom humor e um rolo de fita adesiva. Sempre.

Revendo essa reportagem me chama atenção o fato de que o trabalho do físico Eduardo demora uns 50 a 100 anos para ter resultado. Um período de tempo im-pen-sá-vel para uma repórter acostumada com deadlines apertados e respostas imediatas.

Também percebo inúmeras mudanças que eu poderia fazer para melhorá-la (como a entonação do off, por exemplo). É que a gente nunca acaba uma obra: a gente simplesmente desiste.

Pois acaba um deadline e lá vem outro. E vem outra pauta e suas hipóteses. E novos solavancos. E as lições que, com sorte, poderemos dividir.

Anúncios

2 respostas em “Da fabriqueta de memórias

E tu, o que me dizes?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s