As “medalhonas”

Papo flagrado num corredor de supermercado. “(…) Daí eu falei que ela era parecida com a Mayara, sabe, aquela atleta? E ela me disse que são irmãs!”, o rapaz comenta com um amigo. “E ela me mostrou as fotos, e até uma mensagem dela prometendo a medalha!”

Faz todo o sentido:  o supermercado em questão fica pertinho de casa, pertinho da Sogipa, onde treina a judoca. A conversa foi no comecinho das Olimpíadas, dias antes de Mayara Aguiar agarrar seu bronze e deixar de ser apenas “aquela atleta”. Sabe?

********

Ricky Martin avisou pelo Twitter que está viciado em Olimpíadas. Eu também. É um olho nos temas de casa, outro em qualquer competição que estiver passando pela TV. Sou fácil assim, altamente influenciável – e ser contagiada pelo espírito olímpico não faz mal, faz?

A cada quatro anos, durante duas semanas, entendo tudo de atletismo, conheço as regras do vôlei, sou capaz de avaliar com precisão um salto ornamental. E depois cerimônia de encerramento sofro, durante dias sofro de “síndrome de abstinência de Olimpíadas”.

Porque além do espetáculo da busca da perfeição que são, as competições têm exemplos de perseverança, persistência e de ousadia que sempre inspiram.

A luta da judoca Wojdan Shaherkani durou apenas um minuto e 22 segundos – fora do tatame a batalha é bem maior.

Ela e a atleta Sarah Attar foram as primeiras sauditas a competirem numa Olimpíada. Precisaram de uma autorização especial do rei, já que na Arábia Saudita mulheres são proibidas de praticar educação física nas escolas, de frequentar clubes ou eventos esportivos. (A judoca Shaherkani treina com o pai. Attar, especialista dos 800 metros, mora nos EUA onde é treinada por Joaquim Cruz, nosso medalhista de ouro que corria descalço no começo da carreira.) No entanto, o que muitos veem como um feito histórico foi encarado como um insulto ao Islã pelos conterrâneos mais radicais: nas redes sociais da Internet Wojdan e Sarah foram chamadas de “prostitutas das Olimpíadas”.

A façanha da norte-americana Gabrielle Douglas foi conquistar medalhas de ouro individual e por equipe na ginástica artística. O pecado dela foi não se preocupar tanto com o visual. Douglas, o “esquilo voador”, foi criticada via Twitter por não ter produzido o cabelo para a competição (ela fez uma singela colinha e  prendeu os fios mais rebeldes com tic-tacs). Sério, isso aconteceu, de fato aconteceu…

E em algum lugar do universo Renato Russo se indignaria: “O que é demais nunca é o bastante?”.

********

Admiro a devoção dos atletas. Te falo de plano a longo prazo: dedicar uma vida inteira para definir a prova em questão de segundos, gramas, milímetros. A medalha de ouro do “homem mais forte das Olimpíadas”, o iraniano Behdad Salimikordasiabi, pesa 455 kg. Nos 200 metros borboleta, cinco milésimos de segundo separaram o sul-africano Chad Le Clos do segundo colocado, o Aquaman Michael Phelps.

Imagino o que eles pensam quando estão lá no pódio. Phelps, por exemplo. Ele, que chegou a instalar a cama dentro de uma câmara que simula a atmosfera de uma altitude elevada para melhorar sua performance. Phelps disse que tudo o que quer depois da missão cumprida é dormir. Como qualquer pessoa que não carrega o peso de 18 ouros e 22 pratas, ele quer dormir até tarde. Nada de treinar de madrugada!

Vibro com os persistentes. Como o jogador do vôlei masculino que não se intimida com o olhar fulminante do Bernardinho ao errar um saque ou um passe. Numa mesma nota, adoro a ousadia da líbero Fabí, do vôlei feminino, que busca a bola lá fora da quadra com o pé!

Admiro quem não joga a toalha. Quantos nãos o sul-africano Pistorius ouviu até chegar a Londres?

Admiro os determinados. Como o guri que um dia chegou para os pais e decretou: “Quero ser arremessador de martelo!”. Ou o que avisou: “Quando crescer serei um ginasta. E minha especialidade será argolas!”

(Mas será que não dava para querer ser engenheiro, médico, ou ao menos um jogador de futebol ou de basquete?)

Admiro o pai que disse “Tá bom, filho”. E lá foi ele mesmo forjar argolas para o guri treinar. Fast forward para Londres 2012 e lá está Arthur Zanetti, recebendo um “ouro inédito para o Brasil”.

Vibro com quem lota as arenas desportivas e torce, torce fervorosamente por qualquer bandeira que lhe desperte simpatia. Assim como o amor, o esporte parece ser um idioma universal…

 ********

O domínio de países como EUA e China nos Jogos Olímpicos pode ser resquício do tempo em que a guerra fria transbordava para o esporte. Lembra da briga entre os esteites, a (na época) União Soviética, Cuba? Mas nesses países os atletas se formam desde o berço, seja por iniciativa do Estado ou da família.

Quando estive na China fiquei admirada com o tamanhinho dos atletas, recrutados ainda bem criancinhas e levados para instituições que são um misto de escola/internato/centro de treinamento. Num país de um bilhão de habitantes, a chance de se destacar pelo esporte parece imperdível – além de ser encarada como um dever cívico.

Nos Estados Unidos ser bom em algum esporte garante uma bolsa de estudos nas caras universidades, e daí para se formar como um atleta é um pulo.

No U.S. Olympic Complex em Colorado Springs, Colorado

E há outro objetivo, além de manter a supremacia no quadro de medalhas: o esporte também é ferramenta diplomática.

Nos anos 70 os EUA mandaram jogadores de ping-pong para quebrar o gelo com o bloco comunista em partidas amistosas na China (o episódio está deliciosamente retratado no filme “Forrest Gump”). Nos anos 90 uma equipe de luta-livre norte-americana foi ao Irã para participar da Takhti Cup International; era uma tentativa dos então presidentes Clinton e Khatami de reaproximar os países, cujas relações estavam rompidas desde a Revoluçao Islâmica de 1979.

Mais recentemente, com o programa “SportsUnited”, o Departamento de Estado dos EUA tem levado treinadores e atletas para “fortalecer laços com outros países através do intercâmbio com jovens e crianças de comunidades carentes”. Mais ou menos o que o Brasil fez no Haiti em 2004 com o “Jogo da Paz”, só que num empenho constante.

(Mas não pense que eles estão com a vida ganha. Os jogos de Londres têm servido como “gancho” para n reportagens sobre as dificuldades financeiras dos atletas olímpicos norte-americanos.)

 ********

Enquanto escrevo tem festa em Porto Alegre: os judocas Mayara Aguiar e Felipe Kitadai (também bronze) acabam de chegar de Londres e desfilam em carro aberto pela cidade. Tem festa para a “medalhinha” (ouvi, ouvi sim comentarista esportivo chamando o bronze de “medalhinha”). É “medalhona”, tá?

A treinadora Rosicleia Campos usou lágrimas para dizer mais ou menos isto: no país do futebol praticar qualquer outra modalidade é uma briga eterna pelo reconhecimento.

Para muitos atletas os desafios continuam depois da competição, além das quadras, pistas, piscinas. E isso não é “privilégio” dos “não-jogadores de futebol” brasileiros.

Admiro quem não se achica –  diante de seus competidores, ou dos obstáculos. Aplaudo quem não foge da briga, como o ciclista Magno Prado que remendou com alfinetes o zíper quebrado do único uniforme que tinha. (A imagem que correu o mundo me fala sobre o caráter do atleta. Deveria ser um “kick up the backside” para a potência emergente que está prestes a sediar Copa e Olimpíadas.)

Acho que o esporte é feito disso: de perseverança, de persistência e de ousadia. Ah, como eu queria, pela inspiração que ela traz, que a febre olímpica durasse mais. 😉

E tu? O espírito olímpico também te contagiou?

Anúncios

5 respostas em “As “medalhonas”

  1. Tanira, que belo texto sobre as Olimpíadas, uma “geral detalhada”. Quanto ao comentarista que falou “medalhinha”, vamos fazer justiça colocando aspas no energúmeno: “comentarista”. Essa gente se acha dona da verdade. Se fosse só isso, tudo bem. Mas esse tipo de gente fraca das ideias acaba se tornando influente quando lhe é emprestada uma grande audiência. Bueno… Melhor focar em jornalistas de verdade, como tu. Já estou a espera do teu próximo post. Tá pronto? E agora?

  2. Valeu Tanira! Estou cansada de ler e ouvir críticas aos atletas brasileiros pelo “fraco” desempenho deles nas Olimpíadas de Londres 2012. Quem fala não conhece a vida dos atletas, tirando futebol, vôlei e agora o basquete, os demais atletas brasileiros ralam muito, com um patrocínio que mal paga o equipamento deles! Fácil exigir desempenho quando não se conhece a realidade! Todos o que chegaram a Londres, já são campeōes!!!

E tu, o que me dizes?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s