Do diário da motocicleta

O melhor da viagem não está necessariamente no destino. O destino pode ser apenas uma mera desculpa –  e o trajeto, o melhor motivo – para colocar os pés na estrada. Viajar de moto, eu aprendi com o Gringo, é assim.

Volta-e-meia ele me convida para um bate-e-volta. Na sexta de noite avisou: “Amanhã abrimos os olhos e vamos a Morro Reuter”. E eu, que não refugo uma aventura por nada neste mundo, topei na hora!

Morro Reuter fica a 60 km de Porto Alegre, seguindo pela BR 116 (faz parte da “Rota Romântica”). Nossa primeira parada para esticar as pernas e atiçar a vista é no Belvedere (no km 218), de onde enxergamos o Vale do Rio dos Sinos e a vizinha Dois Irmãos pequeninhos lá embaixo.

A estrada, a propósito, vai ficando cada vez mais sinuosa a essa altura (sem emoção, que graça teria?), mas é extremamente bem sinalizada e conservada.

No começo da tarde a siesta dos morro-reutenses foi sacudida pelo suave ronco da Trovoada – a moto do Gringo. A cidade pequena impressiona pelo capricho nas ruas e nas casas, uma boa amostra da qualidade de vida de que tanto se orgulha Morro Reuter. É dela um dos maiores índices de alfabetização do Brasil (98,4%, segundo a prefeitura), façanha celebrada pelo Obelisco de Livros, próximo ao pórtico de entrada.

O almoço é no Wolf, restaurante que fica num casarão estilo enxaimel e que serve um banquete de iguarias da culinária alemã.

Sopa de legumes, buffet de saladas e doces, dúzias de pratinhos quentes sobre a mesa e o garçom oferecendo diversos cortes de carne assada no forno a lenha (por onde começamos?), tudo preparado em panelas de ferro pela família do Heitor, que não gosta de ser chamado de “senhor”.

O restaurante só funciona sábado e domingo. Os outros dias Heitor dedica a “mosaiquear”. É que as paredes do imenso salão são cobertas de mosaicos feitos por ele.

A parada de ônibus em frente ao restaurante também é, uma obra de arte colorindo o  caminho.  

Heitor adora contar de onde vem a inspiração para cada desenho – um papo demorado com os moradores do local é uma das delícias de cada viagem, não é?

Seguimos pela zona rural de Morro Reuter, pela VRS 873.

Ganhamos a estrada, enquanto os vilarejos lá embaixo continuam perdendo tamanho. Enchemos os olhos de verde e de horizonte, e os pulmões com um ar cada vez mais geladinho.

Paramos no Edelweiss Atelier e pronto: achei mais um lugar onde eu poderia ficar para todo o sempre!

A casa construída no topo das montanhas tem um vale inteirinho como pátio. A artista plástica Lenira Siegle colocou umas mesinhas na varanda onde é possível fazer um happy hour. Com uma delicadeza très chic, mantas de lã descansam sobre as cadeiras pra aquecer a chegada da noite.

Lá dentro há um sem fim de belezinhas. Obras de arte (ela faz peças de madeira e terracota) dividem as prateleiras com antiguidades e objetos decorativos.

(Parêntese. Uma das desvantagens de viajar de motocicleta é que não dá para ter vontade de comprar nada… Ou seria isso uma vantagem? Outro “problema” é que na garupa, com o capacete, passo muito tempo só pensando, e não consigo decidir se isso é bom ou ruim.)

Morro Reuter é endereço de vários ateliers – há um roteiro pela VRS 873 batizado de Caminho das Artes. Totalmente compreensível, pois o cenário deslumbrante deve inspirar até as almas sem um pingo de talento.

A estrada sobe-e-desce cercada por casinhas dos tempos da colônia. E as casinhas são cercadas por gramados que mais parecem tapetes! É uma pintura com um colorido acentuado pelo Sol da primavera antecipada.

Depois de mais alguns quilômetros chegamos a São José do Herval. O Gringo, que conhece bem meu gosto por coisinhas antigas, acertou em cheio ao me levar no Armazém Kieling, a atração dessa localidade.

Homens discutindo futebol e bebendo cerveja. Cena comum em qualquer boteco deste Brasil, certo? Mas este não é um “boteco qualquer”.

O Kielings Haus funciona há gerações num casarão construído entre 1869 e 1879 (dizem que ninguém sabe a data ao certo). Baleiros enormes, armários de madeira de vão do teto ao chão, uma mesa para jogar bolão. Sabe aqueles bares da moda decorados com relíquias? Mais ou menos assim, só que no Kielings Haus tudo é original. Debruçados no balcão, os fregueses praguejavam contra Inter e Grêmio num misto de português com alemão, com um sotaque carregadíssimo!

Foi quando percebemos que o dia chegava ao fim –  mas o nosso roteiro, não… Viagem boa é mesmo assim, nos deixa cheios de “quero mais!”.

Se te entusiasmaste, o Grupo Turismo em Morro Reuter tem um guia com sugestões de programas bacanas e as atrações das redondezas – o mapa é uma graça, ilustrado com desenhos feitos por crianças da cidade.

Ah, falando em desenho… Trovoada vai virar arte! Gringo prometeu pro Heitor uma bela foto da moto, que servirá de modelo para um mosaico.

Boa desculpa para voltar lá. Como se fosse preciso mais alguma.

😉

PS: Para os aventureiros, nossa viagem aos cânions Itaimbezinho e Fortaleza está registrada neste texto. Uma viagem bem do tipo “quero mais!”.

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8 respostas em “Do diário da motocicleta

  1. A facilidade que tens de traduzir os acontecimentos em palavras, adicionando informações, é simplesmente perfeito. Se não tivesse ido e sentido tudo, com certeza estaria inserindo este roteiro para o próximo final de semana de sol.

  2. Tanira tudo beleza? Estou sempre te “visitando”, naquelas navegadas pela web. Gostei demais da tua mensagem, me senti bem importante! O Gringo? Ah o Gringo, que coisa né? Pra nós o Rogério, são as necessárias diferenças de tratamento kkkkk!!!!!!!! Poderíamos ter marcado um encontro então no último sábado, fizemos um roteiro parecido, mas entramos em Presidente Lucena (foi uma comilança danada….), depois Nova Petrópolis, Ninho da Águias, Casa Fagundes, Feliz e retorno, também bem feliz! A próxima aventura será ida dia 12/10 a Jaguarão, de moto e com o baú vazio….
    No início de tua postagem me lembro de algo que eu li, onde dizia que quando se chega ao destino, vê-se que o mais importante não foi chegar, mas o que se passou pelo caminho!

  3. Olá
    Entrei no blog bem por acaso…mas que bom que isso aconteceu rsrsrs. Sou apaixonada por viajar e conhecer novos lugares. Li o texto e pensei “Preciso conhecer”. Me inspirei e estou programando uma viagem para a Rota Romântica. Abç

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