Driving Miss Lebedeff (uma confissão)

Comecei bem minha carreira no exterior, comecei mentindo na entrevista de emprego. “Sabe dirigir?” Respondi que sim, prontamente.

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Era uma meia mentira. A parte verdade é que eu soubera sim, um dia, dirigir. Tirei minha Carteira Nacional de Habilitação, ansiosa como todo jovem, quando fiz 18. Muito pneu gastei na Avenida Sarandi, pilotando a Elba dourada MH 4445 do pai carregadinha de gurias!

Mas depois, quando vim morar em Porto Alegre há alguns muitos anos, decidi que não queria mais dirigir. Decidi que ou eu viveria em cidades com transporte público eficiente e abundante, ou seria phoderosa o suficiente para ter um motorista particular (“Baby you can drive my car”, cantam Lennon e McCartney). Dizia que “preferia guardar dinheiro e andar de ônibus mundo afora do que investir num carro e ficar numa cidade apenas”. E assim deletei o programa “dirigir” do meu hard drive…

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Só que em Los Angeles, meu endereço durante mais de dez anos, é impossível viver a pé… Para tentar resolver a minha questão de mobilidade aluguei um apartamento a poucas quadras do trabalho e comprei uma bicicleta. Fortaleci o pulmão e fiquei com as pernas lin-dís-si-mas de tanto pedalar pra cima e pra baixo! Com um n de outras mentiras, explicava por que o carro que a empresa me oferecera até eu me instalar continuava ganhando poeira na garagem do prédio. Demorava uma eternidade para fazer qualquer programinha diferente: de casa até a praia eram umas duas horas de ônibus.

Cheguei à conclusão que se não voltasse a dirigir estaria condenada a ficar confinada nos subúrbios californianos. E não era uma questão de mobilidade apenas: a driver’s license norte-americana é um documento de identidade, usada para tudo! Vencida, voltei para a auto-escola.

Meu instrutor era um russo. Ele tinha um bigode farto e um sotaque forte e o vocabulário de imigrante bem menor que o tamanho da vontade de falar inglês. Mas era o suficiente para me ensinar a dirigir pelas largas avenidas do San Fernando Valley…

Fiz também um cursinho para enfrentar o trânsito com tranquilidade. Aprendi alguns truques como cantarolar bem alto e imaginar o carro envolto numa bolha de ar cor-de-rosa para me proteger em situações de desespero. (Ui. Como é que me atrevo a contar isso?)

Depois de conquistar a driver’s license o passo seguinte foi comprar um carro (o que me ajudaria a construir minha credit history, ou meu perfil de boa consumidora). Escolhi um hatch preto com câmbio automático e direção hidráulica.

Ele me acompanhava ao trabalho e à praia (guarda-sol e cadeirinha sempre no porta-malas!), me conduzia aos distantes sets de filmagens, me levava para passear nos horários dos meus programas de rádio favoritos (especiais sobre The Beatles ou programas da National Public Radio como This American Life e Wait, Wait, Don’t Tell Me!).

E assim eu e meu hatchzinho fomos felizes para sempre durante mais de uma linda década!

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Flash-forward e cá estou eu novamente em Porto Alegre. Cidade das lotações, do cartão TRI, e também do catamarã e das bicicletas! Quem precisa dirigir? Em plena era do desenvolvimento sustentável, por que aderir à massa de veículos com um único passageiro se é tão fácil embarcar num meio de transporte coletivo?

Além disso o transporte coletivo é uma infinita fonte de inspiração para quem escreve. Aprendi em cursos de roteiro e de redação criativa a colar no dia-a-dia da cidade para captar diálogos coloquiais e o comportamento das pessoas.

(Foi andando de ônibus pelo Rio de Janeiro que o vocalista da Legião Urbana teve a inspiração para escrever “Central do Brasil”, tema instrumental do álbum “Dois”. É o que eu descubro no viciante “Renato Russo, O Filho da Revolução”, do jornalista Carlos Marcelo. Descubro também que Renato Russo não dirigia…)

Tentei resistir bravamente, pero… Várias circunstâncias e alguns argumentos inquestionáveis me convenceram que eu teria que tirar o mofo daquela carteira de motorista vencida há tempos. Sim, eu reaprendi a dirigir no exterior, mas nunca mais tocara num volante aqui no Brasil. O Detran (que, a propósito, tem um ótimo serviço de atendimento ao público seja via email ou telefone) me informa que para renová-la seria necessário fazer tudo de novo outra vez.

Levo minha documentação a um Centro de Formação de Condutores (que nome pomposo!). E levo um susto: uma carteira de habilitação custa muito, muito caro. De saída, uns 200 reais em taxas! (E eu que vinha namorando um par de botas cor de vinho pensei seriamente que continuar a pé, com as lindas botas cor de vinho, seria um melhor negócio que pagar uma fortuna pela carteira de motorista…)

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No exame psicotécnico nos pedem para desenhar um boneco. Lembro daquelas regrinhas básicas para disfarçar sua loucura: desenhe todos os membros, rostinho completo com olhos-boca-e-nariz, desenhe o chão. Descrevo a cena e digo que o bonequinho está feliz pois é um dia frio, mas ensolarado!

A examinadora me pergunta o que acho do trânsito hoje em dia. Lembro do aniversário de Paul McCartney (que recém completara 70) e da música “Live and Let Die”. É isso aí: cada um por si, nada de camaradagem ou tolerância, carros demais nas ruas, na contramão do progresso sustentável. (Mas será que não dava para aproveitar o ensejo e discutir minhas outras neuras, penso eu?) E com esse eco-discurso fui dispensada rapidinho… Aprovada. Ufa.

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Pela terceira vez na vida frequento um curso teórico de direção. A professora, ciente do quão chato é aquele conteúdo todo, encarna várias personagens: a cúmplice, a fofoqueira, a carrasca. Sempre ilustra as aulas de direção defensiva com vídeos a que nunca assisti, pois tinham cenas horrendas de acidentes que só me levariam a desistir de dirigir definitivamente. Gosto das aulas de primeiros-socorros. Aprendi que se uma vítima de acidente estiver pegando fogo é preciso impedi-la de sair correndo, derrubá-la se necessário, jogar areia ou bater nela de alguma maneira para apagar as chamas. Colocar sal na ferida, né?

Estudo os livrinhos durante semanas – um exagero! Termino a prova teórica em 10 minutos. Saio do prédio na Voluntários muito p comigo mesma, braba porque por duas questões não gabaritei.

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É hora de retomar as aulas práticas. Não por exigência do processo de renovação (eu poderia pular direto para a prova prática), mas eu queria refrescar a memória. Conto pro instrutor que já soubera dirigir e que antigamente estacionava como poucos e que quem sabe…

Mas quem disse que eu me entendo com esse carro? Acho que sou capaz de dissertar sobre a regra do impedimento no futebol com mais facilidade que fazer a transição entre embreagem e acelerador! Pra que complicar tanto a vida? Por que o câmbio automático não é padrão?

Chego em casa e faço o que toda mulher normal faria… devoro um bolo de chocolate na frente da TV.

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Passo semanas oscilando do pânico ao êxtase: cada dia de aula começa com desânimo; cada manobra executada corretamente me dá alegria. Meia dúzia de regrinhas me ajudam a estacionar com primor, como antigamente! Vou me acostumando com a embreagem. Fico orgulhosa de mim mesma ao dirigir pela Cidade Baixa – que eu conheço como a palma da mão, de tanto que a percorri a pé.

No entanto, às vezes a ansiedade toma conta e erro tudo e o pobre do carro engasga e morre. No meio da rua. Lindo, né?

Além disso as aulas são totalmente direcionadas para a aprovação no exame prático. Eu não aprendo necessariamente a dirigir; aprendo o suficiente para convencer o examinador que eu sei dirigir. Era época dos Jogos Olímpicos e me sentia como uma atleta, como se cada movimento meu fosse avaliado microscopicamente, como se cada manobra desastrada me distanciasse do pódio. “No dia da prova isso te custaria três pontos!”

(Minha apreensão tem fundamento, pois segundo o Detran seis em cada dez candidatos a uma carteira de motorista são reprovados nessa etapa.)

E o instrutor? Ele tinha momentos de grande incentivador, meu José Roberto Guimarães; outros de impaciência, meu Bernardinho.

As provas são realizadas num bairro residencial, com pouco movimento (os poucos carros circulando por lá são de auto-escola) e sem as ladeiras porto-alegrenses que tanto apavoram. É lá que tomo uma das minhas últimas aulas práticas – de rendimento um tanto duvidoso.

Depois da aula, de volta ao centro da cidade, faço o que toda mulher normal faria… entro na primeira igreja que encontro pelo caminho e, como nunca e sem vergonha alguma, choro.

Piripaque dos bons. A pressão de ter que ser “aprovada” num mesmo processo pela terceira vez é grande. Entenda: a brincadeira de recomeçar às vezes cansa.

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Decido me dar um tempo. Quem sabe esperar que inventem uma maneira de alimentar meu cérebro com programas à la Matrix?

Até que mais um daqueles argumentos incontestáveis se apresenta e eu reconheço que preciso, de uma vez por todas, recuperar minha carteira de motorista. Resolvo virar mocinha e parar com esse mi-mi-mi todo. Vou encarar esse processo com olhos de aventura e novidade!

Ligo pro CFC, agendo mais uma aula. “E, por favor, pode marcar a prova também? Para esta semana, tá?” Até eu me assusto com minha determinação!

Me surpreendo também porque mesmo com o hiato de semanas não esqueci do que havia reaprendido: libera a embreagem devagar, cuida o espelho, gira toda a direção antes de movimentar o carro novamente… “Perfeito!”

A Tati não gosta muito quando digo isso, mas acho que tenho mais sorte que juízo. Eis a prova.

Eu treinava na baliza quando o instrutor vem com uma novidade, que ele soube através de outro instrutor que estava por ali, que mudou tudo num instante. Não é que nesse meio tempo, durante essas semanas em que resolvi “me dar um tempo”, o Detran baixou uma portaria isentando motoristas com carteira vencida há mais de década (meu caso) do exame prático? Teoricamente eu já estaria devidamente “habilitada”. Novamente. Pela terceira vez na vida.

Sabe assim, alívio?

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A linda da Carteira Nacional de Habilitação me foi entregue algumas semanas depois. (Podiam ter me avisado que aquela fotografia que eu tirei numa manhã de janeiro no CFC, com vestido de alcinha e o cabelo penteado pelo vento, iria pro documento. Ao menos estou bronzeada.)

Um esclarecimento se faz urgentíssimo: não sou, assim, um perigo constante no volante. Dirijo direitinho até, eu juro! Eu treino muito no videogame – joguinhos de corrida são os meus preferidos! E treino também como co-piloto em viagens (a-do-ro uma estrada!).

Vai entender… (Eu já desisti ;))

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9 respostas em “Driving Miss Lebedeff (uma confissão)

  1. Tan, que maratona emocional! Felizmente o universo “conspirou” a teu favor. Ou foi a tua reza emocionada que funcionou. Seja lá como for, vida nova! Pega uma caixinha e coloca ali todo o medo, ansiedade ou qualquer sentimento de te trava. Coloca a caixinha em um lugar que tu pouco passa… e sai de casa, pega o carro e vem tomar um mate comigo.
    Muitos beijos.

  2. Parabéns! Quem sabe um dia tenho esta perseverança!
    Ainda não consegui encarar a “tarefa” de ser motorista …
    Dizer que não faz diferença dirigir é bobagem, pois FAZ SIM, em diversas situações … em outras nem tanto!
    Mas o meu Muro de Berlim ainda está de pé!
    Já pensei nos motivos, depois não mais …
    Enfim, por enquanto ainda empurrando com a barriga!
    Ops, já ia esquecendo: Quero fazer um test-drive hein …

  3. Acho que encarnaste a “Mulher Maravilha” da tua fantasia!!!És linda em todos os sentidos e escreves maravilhosamente!!!Beijos e braços carinhosos da mami!!!

  4. Heheheheh… Diriges melhor que a grande maioria dos brasileiros, Tanis. Fica tranquila. Mas te prepara: vais ser xingada e buzinada por muita gente impaciente e atrasada por respeitares as leis de trânsito. Lembra-te e me ajuda a espalhar: manter uma boa (eu disse boooooa) distância do carro da frente vai te garantir jamais seres a causadora de qualquer incidente.

  5. Muito boa tua saga automobilistica!!!!É bem assim!
    Eu a cada 5 anos(agora serão 3, pela idosidade) renovo direitinho minha carteira, mas não tenho carro pois adoro lotação, ônibus e táxi. Observo que algumas pessoas não entendem por que. Estou mandando, via e-mail, para algumas, esta tua história que diz tudo. Beijos.

  6. Tanira, tua histórinha está super real de tão bem escrita, como sempre. Transmitiste o sentimento que muitas pessoas sentiram em relação ao fato em si. bjs

  7. Well…será que poderei descansar nas viagens?
    Olhar a paisagem, servir o mate, trocar o CD…pegar o dinheiro pro pedágio…
    Dia 24 está aí!

E tu, o que me dizes?

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