O mundo já acabou

Estás esperando pelo 21/12/2012 para “chutar o balde”? Espero que não.

O teu mundo, é bem verdade, já deve ter acabado.

Ao menos o meu já acabou. Várias vezes.

Quando a asma não me deixou ir no piquenique do colégio.

Quando Elvis Presley morreu meu mundo acabou e eu chorei tanto que achei que não sobrara lágrima alguma nesses olhos que Deus me deu e que a Terra não há de comer porque eu vou doar. Eu tinha seis anos.

Quando levei um fora do meu amor eterno da adolescência. Quando o telefone vermelho que ficava junto à porta verde da entrada lá de casa não tocou, o chão se abriu.

Quando aquelas pessoas amadas se foram… Essas notícias dolorosas chegam sempre com um sopro frio que sobe pela espinha e arrepia a nuca e amolece as pernas até que o chão se abre novamente – dessa vez com razão.

Meu mundo quase acabava cada vez que eu passava pelo setor de embarque do Salgado Filho. “Ligo quando chegar lá!” E abanava de longe, me fingindo de alegre.

Quando, às vezes sem querer, decepcionei. Detesto ser uma nuvem carregada no dia de alguém.

Quando me senti fracassada, só, encaixotando a mudança.

Quando não fui selecionada no concurso de Poemas no Ônibus e no Trem. Quando não consegui aquele emprego. Quando me senti rejeitada.

A cada desencontro, a cada perda, a cada desilusão.

Mas olha só, veja bem: cá estou. E tu aí, também. Depois de tantos apocalipses – alguns banais e cotidianos, uns inesperados e outros inevitáveis – recomeçamos. O nosso mundo acaba de vez em quando, pedacinhos dele acabam, para que ele possa se reinventar. Com arranhão aqui e ali, sobrevivemos aos “fins”.

(Eu sei… Não fui vítima de guerra, nem de miséria, tragédia ou doença. A vida tem sido leve.)

********

“Quisiera saber tu nombre, tu lugar, tu dirección
si te han puesto teléfono, también tu numeración.

Te suplico que me avises si me vienes a buscar,
no es porque te tenga miedo, sólo me quiero arreglar.”

Demorou um bom tempo até eu descobrir que Charly García não estava esperando pela amada em Canción para mi Muerte. (E, puxa, quantas vezes, na adolescência, sonhei acordada escutando a música equivocada…)

Mas, é bem verdade, o grand finale não marca data e não é possível se “arreglar”, né? Tem, sim, como aprender com nossos apocalipses particulares para – depois dos recomeços – viver uma vida mais ou menos plena. Daí quando “ela” chegar tu reages assim, meio blasé: “Ah, tá na hora? Pera aí, deixa eu ajeitar o cabelo…”.

Eu aprendi algumas lições. E determinei algumas regras.

Ouvir o . Nunca dormir emburrada. Resolver as pendências por aqui pois dizem que a fila para voltar e acertar os conflitos de vidas passadas é maior que a do SUS. Na dúvida, ultrapassar (na vida, não no trânsito…). Acreditar em pequenos milagres. Acreditar nos grandes encontros. Apreciar o agora.

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Estás esperando pelo 21/12/2012 para “chutar o balde”? Espero, sinceramente, que não.

Espero que não precises de um evento catastrófico para decidir fazer a vida valer a pena.

O teu grand finale, lembra disso, não vai marcar data.

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27 respostas em “O mundo já acabou

  1. Digo que tu, Tanira, não precisaste passar uma vida inteira para desenvolver neste passeio pelo mundo a sabedoria que muitos seres humanos só alcançam quando já estão no caminho de volta pra casa… Parabéns pela tua sensibilidade!

  2. Lembrei de Mário Quintana ao ler teus escritos:
    “Da vez primeira em que me assassinaram,
    Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
    Depois, a cada vez que me mataram,
    Foram levando qualquer coisa minha”.

    E como dizes: aqui estamos nós…
    bjs pra vc!!!

  3. É vero, nunca sabemos quando o nosso mundo vai acabar. Por isso precisamos curtir todos os momentos da vida, e não deixar apenas que passe um dia após o outro. Bjs

  4. É isso aí, Tan Tan. A única coisa boa nisso tudo é descobrirmos que é possível sobreviver a esses finais. Diferentes, mas ainda respirando. Foi o que consegui dizer para a Ana quando o mundo dela acabou pela primeira vez.
    Outra coisa, toda vez que leio um texto teu, sempre um prazer, corro para ler o comentário da Ula. Adoro! E como ela, também te amo.
    Beijo.

  5. Amiga… Teu texto é de uma verdade, falas realmente com teu coração e assim deve ser, procuro também ser assim, maravilhoso, fui vendo cada cena que descreveste, mil bjsssssssssss
    Lúcia

  6. Tanira, como sempre, tocas fundo e com muita leveza em nossas lembranças dando-nos a oportunidade de refletirmos. Hoje enxerguei todos os meus “apocalipses” lendo teu texto e entendi que o mundo só vai acabar, para cada um de nós, quando for a nossa hora. Poderá até haver um “fim do mundo” coletivo mas também será a nossa hora. Então, vivamos enquanto isso…
    Beijos.

  7. Parafraseando a Moema, enxerguei todos os meus “apocalipses”…e sempre, sempre há sol por detrás daquela nuvem carregada que nos tráz o temporal. Somos provas disso, não? Beijo meu anjo e continua com teus textos que embriagam tanto quanto o mais forte dos absintos.

  8. Nunca tinha parado pra pensar… pura verdade!
    Nossas vidas têm vários fins… e vários recomeços também.
    Parabéns pelo excelente texto Tanira.

  9. Tanira que lindo teu texto! Bem disse a tua mãe, a beleza do que tu escreveu está na simplicidade com que dizes a verdade. Beijo grande!

  10. Pingback: O mundo já acabou. (via taniralebedeff) | Beto Bertagna a 24 quadros

  11. Eu sei, eu sei, tô com a leitura atrasada. Azar é o meu né? Mais uma vez disseste tudo e muito bem. Definitivamente és nossa Poliana Contemporânea.Parabéns ! Bjo!

E tu, o que me dizes?

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