Dorme agora…

Eu já frequentei muitos espaços apertados, com a certeza de que sairia de lá mais viva do que entrara. (E quem nunca?) Muitos desses espaços ficavam em Santa Maria.

Era uma época em que eu tinha certeza de que era imortal. Atravessava o Parque Itaimbé de madrugada e, talvez com mais sorte que juízo, chegava bem ao apartamento a uma quadra da velha rodoviária. Numa época em que, parafraseando o poeta, queria ao mesmo tempo colo e fugir de casa. Eu era feliz – e sabia.

Há alguns dias, tentando encontrar num mapa online o local da tragédia, percorri com o mouse aquelas mesmas ruas em que vivi parte da minha juventude. Me deu um aperto no coração…

“Estátuas e cofres e paredes pintadas, ninguém sabe o que aconteceu…”

Num dos textos que li nessa cobertura jornalística o santa-mariense Nilson Vargas falava de listas. Como a lista de que a “cidade universitária” tanto se orgulha, a dos aprovados no vestibular (lembro do meu êxtase ao ouvir meu nome pelo rádio quando conquistei uma vaga no jornalismo da UFSM). O texto citava a lista que causou tristeza e revolta, a das vítimas, e clamava por uma lista de culpados.

Eu somaria a esse “rol de listas” a lista dos sobreviventes. Não dos que escaparam com vida da boate. Mas do que terão que aprender a conviver com cadeiras vazias. Quantos?

Quem perde um esposo ou esposa fica viúva, ou viúvo. Quem perde os pais é orfão. Mas e quem tem que sepultar os filhos? Acho que o dicionário obedece a lei da natureza, a lei que diz que é errado isso de perder um filho, pois procurei uma palavra com esse significado e não encontrei.

“Posso dormir aqui com vocês?”

E quem perde um irmão, um amigo… um amor que acaba de nascer? Chama como?

“¿Qué es esto de sobreviviente?”, pergunta Pablo Díaz num poema dedicado a Claudia Falcone. Eles eram ainda mais jovens que os jovens de Santa Maria quando seus sonhos foram sequestrados pela ditadura militar argentina, no episódio conhecido como La Noche de los Lápices. Eram estudantes secundaristas, e lutavam pelo direito a passagem escolar. Claudia desapareceu. A Pablo, restou o silêncio.

“¿Dónde estás, en qué tiempo, en qué mundo te encuentro? ¿Hasta dónde estiro la mirada para verte?”

Mas também da Argentina vem a história das Madres e das Abuelas de Plaza de Mayo, mulheres fizeram do sofrimento inimaginável uma bandeira. E há tantos outros exemplos: a atriz Cissa Guimarães, os pais de Thiago Gonzaga da Vida Urgente, os familiares e amigos das vítimas do vôo da Tam que se uniram numa associação, as Mourning Mothers of Iran que compartilham o luto numa luta contra um governo opressor.

De onde vem essa força? “¿Qué es esto de sobreviviente?”

Talvez sobreviver seja a capacidade de transformar uma dor imensa em energia. Pois a alternativa seria deixar que esses jovens morram novamente, pelo esquecimento.

Ou talvez seja a magia da compaixão.

“Solidariedade é dor em movimento”,  ouvi o Fabrício Carpinejar dizendo na TV. E quantos gestos tocantes surgiram no meio de tamanha tristeza…

Talvez assim esses “órfãos” – pois falta a palavra – de filhos e netos e sobrinhos, esses “viúvos” de irmãos e amigos e amores possam atenuar o incompreensível vazio. Talvez seja esse o colo, o consolo, a cola que tentará remendar uma vida dilacerada.

“Me diz por que que o céu é azul?”

A imagem da Dona Elaine velando o último sono do filho correu o mundo. A fotografia do colega Jefferson Bernardes dispensa legenda porque, por si só, ela grita. Dias depois Dona Elaine teve que enterrar outro filho. Pela televisão a vi abraçando jovens, provavelmente amigos dos guris, para quem ela dizia algo como “não desaparece, fica sempre por perto”.

Oh, Dona Elaine, tomaram da senhora dois filhos, insubstituíveis! Mas acredito que ganhou muitos e muitos outros.

“Dorme agora, é só o vento lá fora.”  (Pais e Filhos, Legião Urbana)

 

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26 respostas em “Dorme agora…

  1. Teu fã de carteirinha. Passei estes dias com a família do Gustavo, ajudando no que desse. Não tive metade da estrutura emocional da Dona Elaine.

  2. Filha querida, li como mãe que graças ao Bom Deus, meus anjinhos da guarda, Virgem Maria e todos os Santos protegem muito bem meus filhos e netos, como tia me emocionei muitíssimo, teus escritos têm vida, amor e mexem com os sentimentos, lindo, lindo demais!!!

  3. Preencheste brilhantemente com palavras o vazio apontado pelas tuas indagações. Não o vazio irremediável, mas aquele que grita no meio de tanta tristeza. Bjo!

  4. Só quem tem o poder de ver o mundo com olhos diferentes do senso comum, pode sintetizar a realidade tal como ela se mostra. O que dizer? ir-re-to-cá-vel, assim mesmo, sílaba a sílaba, para que fique indelevelmente marcado em nossa fugidia memória. Acabo de tomar um banho de realidade. Muito Obrigado!

  5. um chamada para que façamos da dor um grito de clamor para que os verdadeiros responsáveis tomem atitudes que impeçam outras dores deste porte.

  6. TANIRA,OBRIGADA POR TUAS PALAVRAS QUE NOS PERMITEM ENTENDER UM POUCO MAIS DE NOSSA FINITUDE, FRAGILIDADE E FORTALEZA, AO MESMO TEMPO.SOMOS, AGORA, TODOS SOBREVIVENTES.
    BEIJO.

  7. Parabéns, Tanira!! Traduziste com palavras, lindas, tocantes, todo o sentimento de pessoas como eu, que, talvez, não perderam um parente nesta tragédia, mas que sentiu tanto quanto por amar a “cidade universitária”, por ter crescido e partilhado a vida com tantos outros estudantes no ‘Coração do Rio Grande’…. Obrigado!

  8. Muito lindo o que escreveste. Lembro bem daquele tempo, afinal fomos contemporâneos e ainda havia as viagens de retorno para Santana do Livramento.

E tu, o que me dizes?

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