Os muito chatos que me perdoem…

Noite dessas vimos o show “Cale-se: as Músicas Censuradas pela Ditadura Militar”. Bem como eu imaginava, é uma pequena aula sobre o cancioneiro proibido naqueles anos de chumbo.

“Tente Outra Vez” do Raul. Pode? Com frases tipo “você tem dois pés para cruzar a ponte” ou “tenha fé em Deus, tenha fé na vida”, mais parece um cântico religioso, não parece? Foi censurada.

E o Chico? Esse era o número um na lista de músicos mais frequentemente calados pelo regime militar. Mas que mal há em cantar “me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, um riacho de amor”? A censura não gostou nadinha desse assanhamento todo…

Também foi vetada pela ditadura a fofa “Severina Xique-Xique”, lembra? “Ele tá de olho é na butique dela…”

Mas o tempo passou, ufa… Censura? Nunca mais!

Jura?

Hoje em dia, mesmo em tempos de democracia, eleições diretas e afins, tenho a impressão de que vivemos sob uma nova espécie de censura, perigosíssima! É a ditadura do sem-graça, da chatice. Vivemos sob a mira das patrulhas do politicamente correto e, pior, do intelectualmente correto. (E em muitas ocasiões, hás de concordar comigo, os nossos censores somos nós mesmos…)

Eu não vejo BBB, nem A Fazenda. Não acho interessante. Parcece que os personagens se repetem ano após ano, passam os dias armando complôs e jogando cabelões e músculos de um lado para o outro. Sinceramente, não curto. Só para implicar, telefono pra quem eu sei que assiste bem na hora do programa pedindo papo ou intimando para uma “DR”.

Mas eu dou uma espiadinha, sim. No mínimo para poder participar de alguma conversa. Ou por que às vezes de tão bizarro fica impossível não ver. Isso me define? Isso define as centenas de milhares de brasileiros que votam em uma eliminatória qualquer? Creio que não.

“E enquanto isso, você grita gol”, critica a patrulha. Grito gol, grito sim. Posso?

Pago imposto e pago minhas contas, cedo o lugar na fila, ando com lixo na mão até encontrar a lixeira, digo “por favor” e “muito obrigada”, xingo empresas públicas e privadas nas mídias sociais (e também elogio, quando merecedoras), leio Allende e García Márquez, voto bem mais pelo prazer que pela obrigação, visito o Votenaweb para acompanhar o desempenho dos meus representantes, uso cinto de segurança e respeito a faixa de pedestre.

“E enquanto isso, você pula Carnaval…” Eu vou atrás do trio elétrico, sim. Dá licença?

Participo de tuitaços e de campanhas da Anistia Internacional, sou doadora de sangue, não jogo óleo de cozinha na pia (guardo para reciclar, aliás reciclo todo meu lixo, sou uma serial recycler), dou “bom dia” para estranhos, cedo o banco no ônibus, fui “cara-pintada”, fiz bandejaço no RU, gastei a voz em passeatas contra as guerras no Iraque e no Afeganistão, ouço Beatles e rock progressivo.

Não tô querendo atestado de boa moça (tenho lá meus pecados, e não escondo meu desgosto por muita coisa que há por aí…). Mas pergunto: o fato de eu torcer pelo Inter, ver minha novelinha das seis, pular meu Carnaval, me faz uma pessoa alienada, manipulável?

Ou precisamos todos fazer um voto de tristeza, torcer o nariz pro Gangnam Style”, fingir que entendemos aquele filme “cabeça”, fazer um pacto com a chatice?

Prefiro pensar que o que define uma pessoa, um cidadão, não são as horas passadas em frente à TV ou no estádio – embora o futebol, vamos combinar, seja um patrimônio, ferramenta da nossa diplomacia cultural e parte da nossa identidade, sim!

Prefiro pensar que o que define o meu país é o exército de trabalhadores voluntários, as reuniões do orçamento participativo, é o casal que devolve uma pequena fortuna encontrada na rua, a adoção de animaizinhos, ativistas como a Isadora, as caminhadas por justiça que lotaram as ruas gaúchas nas últimas semanas, as 594 vassouras na Esplanada dos Ministérios, os milhões de assinaturas nas petições do Avaaz (que ajudaram a empurrar, por exemplo, o “Veta, Dilma”).

E se no fim do dia quisermos simplesmente xingar o juiz e o vizinho, torcer pelo infeliz que foi parar no paredão ou na roça, vibrar com o beijo da novela, tem algo errado? Se no fim do dia quisermos fazer parte de um coletivo, de uma massa – sem ter que pensar muito, meeesmo – isso desvalida tudo o que fazemos, em outros momentos, por um mundo melhor?

Temos sua permissão pra sorrir?

********

Vinícius de Moraes foi diplomata, durante 26 anos. Foi “aposentado compulsoriamente”, em 1968; seu comportamento boêmio, disseram, não condizia com a carreira pública. A ordem veio do Presidente Costa e Silva: “Demita-se esse vagabundo!”.  Contam que foi um golpe duro, pois o poetinha adorava o Itamaraty…

Mas, enfim, um favor foi feito à nossa música à nossa poesia.

Vinícius de Moraes, se vivo, faria cem anos. Imagino o que seria dele se repetisse, nos dias de hoje, a máxima “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Seria fuzilado pela patrulha do politicamente correto? Será que se sentiria compelido a dizer que “tudo não passou de um mal-entendido”?

E se ele “desse uma espiadinha” e, entre um copo e outro de uísque, debruçado no violão, desandasse a comentar sobre as beldades que desfilam na telinha do BBB? Cairia vítima da ditadura da tristeza, da sem-gracice, do intelectualmente correto? Ou mandaria tudo às favas?

Ah… Os muitos chatos que me perdoem, mas leveza é fundamental!

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8 respostas em “Os muito chatos que me perdoem…

  1. Parabéns, Tanira, Gostei muito do texto. Há muito tempo me incomoda essa ditadura do politicamente correto. Tenho tentado combater o bom combate, mas confesso que nem sempre consigo expressar meu pensamento de forma exata para não ser visto como radical, Seu Saraiva (tolerância zero) e assim por diante. Muitos amigos confessam que se sentem reféns desse politicamente correto. Nos dias de hoje sinceridade pode ferir e hipocrisia é idolatrada, infelizmente.

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