Marty & Eu

Para marcar os 40 anos da primeira chamada com um telefone celular eu escrevi um texto para a Zero Hora, contando sobre uma reportagem que fiz para a Globo News quando morava na Califórnia. Para ficar registrado, trouxe o texto para o blog. A propósito, o tema, anos mais tarde, viria a ter tudo a ver com a minha pesquisa de mestrado – as novas Tecnologias de Informação e Comunicação como ferramentas de ativismo político e social. Ah… “if I knew then what I know now…”

cooper e taniraHá alguns anos tive o privilégio (sim, é clichê mas foi mesmo um privilégio!) de conhecer Martin Cooper, o inventor do telefone celular. Foi uma daquelas coisas que só a vida de repórter faz por você… Eu era correspondente da Globo News em Los Angeles, e o entrevistei para um programa da emissora, o Ciência & Tecnologia.

A entrevista foi na sede da Dyna, empresa de desenvolvimento de tecnologia e serviços wireless que Cooper comanda jundo com a esposa, Arlene Harris. A empresa fica em Del Mar, no sul da Califórnia, a algumas quadras da praia e dos morros onde ele caminha todos os dias. Martin Cooper acredita somos seres “móveis”, feitos para explorar o mundo – nada de ficarmos presos esperando por uma ligação! Foi essa crença na mobilidade que o levou a inventar o telefone celular.

Lembro da decoração da empresa: o hall de entrada é um pequeno museu particular que retrata a evolução da telefonia de acordo com um ponto de vista privilegiado. Num local de destaque da sala de reuniões fica uma réplica do primeiro telefone celular, o “tijolão” inventado por Martin Cooper nos anos 70. Também me chamou a atenção a quantidade de cristais de quartzo espalhados pelas peças. Cooper me ensina que quase todo equipamento eletrônico tem algum componente de cristal, e faz questão de contar que algumas daquelas pedras eram de origem brasileira. … E depois de alguns minutos de amenidades eu já estava autorizada a chamá-lo pelo apelido, Marty.

Martin Cooper nasceu em Chicago, no estado de Illinois, numa família de imigrantes ucranianos. Ele estudou Engenharia Elétrica e serviu na Marinha norte-americana. Nos anos 60 foi contratado pela Motorola.

Cooper liderou a equipe da Motorola que desenvolveu o telefone celular. Na época a concorrente AT&T investia alto no projeto de um telefone para carros, o que para o cientista não resolvia a questão da mobilidade – pois continuaríamos confinados. “Decidimos enfrentar a AT&T, mas como chamar a atenção das pessoas? Resolvemos fazer uma demonstração que ofuscasse a concorrência: vamos criar um telefone verdadeiramente móvel! E foi o que fizemos”, lembrou Martin Cooper.

Da idéia inicial ao primeiro modelo foram apenas três meses de pesquisa. No laboratório da Dyna, Martin Cooper me mostrou uma réplica transparente do aparelho que deixa à mostra um aglomerado de fios, baterias, circuitos… milhares de componentes. Era o que o fazia tão pesado: o primeiro modelo tinha quase um quilo! A bateria não durava muito, mas ao invés de defeito o inventor Cooper vê nisso motivo para uma piada que só melhora com o tempo: “Ninguém aguentaria segurar o aparelho por mais que 20 minutos!”.

A primeira chamada, feita no dia 3 de abril de 1973, foi tão ousada quanto a ideia de criar um telefone móvel. Martin Cooper me contou que estava apresentando a invenção para um jornalista, no centro de Nova York, quando decidiu fazer o primeiro telefonema. E quem mais ele chamaria se não seus concorrentes na AT&T, que achavam que a Motorola não passava de “uma mosca no elefante”?

Marty ficou com a fama, mas não com a patente da invenção, que pertence à empresa.

Desde o “tijolão” pioneiro de 1973 muita coisa mudou.

Segundo a União Internacional de Telecomunicação (ITU, braço da ONU para as Tecnologias de Informação e Comunicação), há 6.8 bilhões de assinaturas de serviços de telefonia celular em todo o planeta, ou seja, quase um aparelho para cada habitante da Terra. Mais da metade desses aparelhos, 3.5 bilhões, estão na região da Ásia-Oceano Pacífico.

Hoje o telefone celular é ferramenta de ativismo, impede que abusos de direitos humanos e civis permaneçam ocultos ou impunes. Os protestos no Irã contra o resultado do pleito que garantiu o segundo mandato ao presidente Mahmoud Ahmadinejad são um exemplo. O observador mais atento das imagens captadas nas ruas iranianas durante aquele conturbado verão de 2009 perceberá que em cada cena há várias pessoas com o telefone celular na mão. No entanto, elas não necessariamente falavam ao telefone – elas registravam tudo o que ocorria com as câmeras dos celulares. Em locais onde a imprensa é proibida de trabalhar, o jornalismo “participativo” ou “cidadão”, exercido graças ao fácil acesso às mídias digitais, impede que crises políticas e humanitárias desapareçam da pauta.

Martin Cooper tem 84 anos mas mantém o entusiasmo de um guri que acaba de aprender a falar num telefone feito de lata e corda. Na época da nossa entrevista, Marty e a esposa Arlene trabalhavam no desenvolvimento de um aparelho batizado de Jitterbug, destinado ao consumidor da terceira idade. O aparelho tem um teclado maior, tela mais brilhante, o volume é mais alto e as funções bem mais simplificadas que nos modernos smartphones.

O telefone celular transformou a maneira como as pessoas se relacionam, diminuiu a barreira entre o que é público e o que é privado, e também acabou com as desculpas para não sermos localizados a qualquer hora, em qualquer lugar.

E se, por causa disso tudo, você ainda questiona se a invenção de Marty é mesmo uma benção ou se é uma maldição, reparto aqui uma lição que aprendi com ele. “A tecnologia móvel significa liberdade para você fazer o que quiser”, me disse Martin Cooper. “Se as pessoas decidem ser escravas do telefone, é opção delas. Eu nunca acordo no meio da noite para atender o meu.”

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