Porto, alegre-se!

Me arrepiei.

Era fim de tarde e eu atravessava o centro da cidade para fazer a baldeação entre o trabalho e casa. Passaria pelo Mercado Público, como passei tantas vezes, e já estava certa de que sentiria falta daquele festival de cores e aromas e vozes que faz parte do local – interditado depois do incêndio da semana passada. Mas o que vi quando cheguei  lá me deixou arrepiada.

Era um cordão humano abraçando o Mercado Público. Eram pais e mães de santo dando suas bençãos, padeiros e açougueiros e peixeiros vestindo seus uniformes brancos de mãos dadas, gente que passava e parou para aplaudir o velho prédio amarelo. Uma cena linda, emocionante, que ajudou a apagar (um pouco) da tristeza que eu sentira um dia antes.

Na manhã de quinta-feira eu trabalhei na cobertura da greve geral. Acordei cedo para fazer uma ronda pelo centro da cidade. No caminho entre a rodoviária e a Praça da Matriz o que eu vi era um cenário desolador. Porto está triste.

São vidraças quebradas, fachadas de lojas e bancos protegidas com tapumes, paredes e monumentos pichados. Nem o velho Mercado escapou do spray de tinta: “polícia fascista”. Sim, com sc – o babaca tem bom português. A cidade está suja, pálida, desarrumada. Uma Porto nada alegre.

Conheço a sensação de participar de um protesto, de uma manifestação. Gastei muita sola de sapato nos tempos de estudante. E quando morei em Los Angeles também: gastei o pulmão gritando pelo fim da(s) guerra(s). Nos dois últimos anos gastei meus neurônios estudando um movimento “descentralizado e organizado pelas redes sociais”, o Movimento Verde que contestou as eleições presidenciais de 2009 no Irã. Bebi de teóricos que celebram como a Internet promove a “difusão do poder”: como mais atores sociais têm acesso ao poder que vem com as novas tecnologias de informação. Para o sociólogo espanhol Manuel Castells, é assim, pela Internet, que ativistas e sonhadores transformam “noites solitárias de ira em dias compartilhados de esperança”. Sei como é contagiante fazer parte de um coletivo e carregar uma bandeira, e sei da importância disso para nosso amadurecimento como cidadãos – online ou offline, nas redes ou nas ruas, tanto faz. Mas vamos combinar, nos últimos meses parece que vivemos numa democracia às avessas, numa (licença poética, tá?) ditadura da democracia.

Nesses tempos de exposição e debate facilitados pelas redes sociais da Internet passamos de bodoque a vidraça em questão de minutos. Ouse questionar o movimento “horizontal e anti-partidário”. Ouse preferir saber quem é o líder, qual é sua agenda e aonde vamos. Ouse dizer que gostas, e muito, de futebol! Ouse criticar quem bloqueia o trânsito impedindo o direito de ir e vir de quem não está muito a fim de “ir pra rua”. Ouse defender um governo democraticamente eleito – que durante muitos anos foi o bodoque.

E de repente em dia de manifestação impõe-se um toque de recolher. E de repente vemos vereadores sentando no chão para negociar os termos de uma ocupação. E vemos a Cidade Baixa, a cidade da boemia, fechando portas, guardando mesas, armando-se. Numa banca de revistas da Borges de Medeiros foi colocado um banner enorme com uma frase do hino nacional na parede externa em que normalmente há propaganda. Aposto que é a escolha entre declarar apoio ao movimento, ou servir de tela para pichadores como todas as outras bancas do centro.

Sim, o movimento levantou questões importantes; como usuária do transporte público assino embaixo de muitas delas. A “pressão das ruas” obteve resultados admiráveis! Mas também deixou um rastro de discórdia e destruição.

#prontofalei

Quer saber? O incêndio no Mercado não foi causado por um curto-circuito.

Em sua Teoria Ator-Rede o filósofo Bruno Latour sustenta que como objetos fazem parte das nossas interações, eles assumem um caráter de protagonistas também. Caso do Mercado Público. Ele se transformou em um ser, um ser vivo de tanta vida que passa lá dentro. Por isso resolveu cuspir fogo. Por um longo momento naquela noite de sábado Porto Alegre se uniu e torceu para que aguentassem firme aquelas paredes – que não foram feitas para serem manchadas, mas para serem queridas.

O Mercado só quis chamar a atenção. A cidade precisava de um abraço, precisava se abraçar.

Foi nisso que eu pensei hoje.

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12 respostas em “Porto, alegre-se!

  1. QUE CONSEGUISTES DE FORMA INTELIGENTE COMO TUDO QUE ESCREVES, DESVENDAR OS SENTIMENTOS DE UM MERCADO PÚBLICO QUE É VIVO, QUE POSSUI ALMA E VONTADE PRÓPRIA!!! PARABÉNS!!!

  2. Não lembro de ter me emocionado com um prédio (monumento) de minha terra natal, como me emocionei lendo este texto, realmente instigador, sobre um prédio (monumento) da cidade que adotei como minha…e viva a alegria.

  3. Penso da mesma forma!! falta educaçao e um pouco de sensibilidade para que as pessoas se expressem de outra manneira. Um abraço ou um texto como este. Muito bom

E tu, o que me dizes?

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