Bruno

A primeira lembrança que me vem à cabeça é de uma imagem branca. Como se o branco invadisse todo o quadro. Um céu branco. Acinzentado. Carregado de nuvens carregadas.

Ventava, muito.

De repente um pequeno avião desgovernado, desnorteado, cruza aquele céu. Rodopia como uma pandorga. Era vermelho, como uma pandorga. Depois vem o som, um estrondo. E com o estrondo veio a consciência de que algo bem ruim havia acontecido.

Maia e eu fazíamos um piquenique na esquina de casa. Mas ali não havia calçada, nem casas, nem rua, nem carros. Era apenas um descampado como um dia me disseram que fora. Lembro da toalha xadrez, vermelha e branca. Buuummm! Era um estrondo, um estouro.

Corro olhando para o céu, procurando o rastro do avião descontrolado, vestindo apenas camiseta e calcinha – o mesmo “traje” que, quando morava em Los Angeles, eu vestia nas inúmeras vezes em que saí de casa de madrugada buscando abrigo na rua após o sacolejo de algum terremoto. Avistamos a fumaça atrás da torre da igreja, algumas quadras ali abaixo. “Eu lavo essa louça depois”, me disse a Maia. Sim, obrigada, eu precisava correr. Não havia tempo para recolher a louça do piquenique ou vestir uma roupa decente. O avião vermelho havia caído e eu precisava contar essa história. Mas meu celular não funcionava, tampouco meu laptop…

Bruno – esse era o nome do piloto – estava acomodado sobre os galhos de uma árvore, como se estivesse ali apenas descansando. Logo acima dele, os destroços da pequena aeronave. Colegas veteranos vieram rápido para tentar acudir, e comentavam que grande piloto e que prazerosa companhia era o jovem Bruno. Alguns choravam, e não há nada mais duro que ver um “homem feito” chorar. O levaram em seguida.

********

A bronquite me acordou no meio da noite. Água, xarope, tento voltar a dormir. O avião decolando do Salgado Filho aqui perto avisa que em algumas poucas horas meu dia tem que começar “de verdade”. Apago. E é aí que algumas lembranças recentes começam a se misturar.

O vídeo sobre um experimento que levou um Galo de Barcelos, símbolo de Portugal, ao espaço (depois do voo o galo despencou sobre uma árvore, num vilarejo). Maia decretando que a louça do jantar ficaria na pia até a manhã seguinte – no mínimo. O celular e o laptop sem bateria ao lado da cama.

Abro os olhos, novamente, um pouco antes do despertador tocar. Lembro de Bruno e de seu avião vermelho. Abro a janela ansiosa pelo Sol, mas o que vejo é um céu branco. Acinzentado. Carregado de nuvens carregadas.

E ventava, muito.

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Uma resposta em “Bruno

  1. Sonho ou pesadelo???Mas graças a ele,lí um texto bonito,colorido,com suspense,muito agradável!!!Obrigada filha por nos dar momentos de prazer e riqueza.

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