Primavera em maio

Tava demorando para aparecer meme ligando protestos sobre a falta de mulheres no Ministério Temer à figura da primeira-dama interina. Hoje vi um. Sexista, sem surpresa alguma.
Olha… ela, a Marcela, tem a liberdade para ser o que quiser! Do lar-do bar-do mar. Aliás, do lar eu sou bem mais que ela, a Marcela. Duvi-de-o-dó que ela se ajoelhe para limpar o piso branco da cozinha como eu faço. Costuro em feltro bonequinhos do Minecraft para o enteado e Fridinhas para as amigas. Sou de humanas, miçangueira. Guria prendada, adoro cozinhar para o namorado. De vez em quando até roupa passo, o que é totalmente contra meus princípios. Faço parte da imensa legião de mulheres que cumprem jornada múltipla entre casa-estudo-trabalho e NÃO HÁ NADA DE ERRADO NISSO. Nada. Fui criada por uma mãe que depois de ficar anos “no lar” voltou para a sala de aula e me deu exemplo de protagonismo nas duas searas. Dispenso qualquer rótulo, não me considero feminista, não assino ficha com ninguém, assim como tiro todas as etiquetas das minhas roupas. Não me sinto na obrigação de me posicionar contra ou pró qualquer coisa. E não tenho paciência para textão. Mas hoje meu sapato de salto apertou.

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Guris, querem saber como é ser mulher? Temos que combater todo o dia desde o fiufiu discretinho sem testemunhas que te dói como uma paulada, ao uso de expressões como “abrir as pernas” ou ” grelo duro”, da pressão por gerar filhos ao “também né quem mandou usar saia curta” às campanhas publicitárias (de cerveja por exemplo) que nos pintam como seres entediantes, ciumentos, ou apensas gostosos. (E não há nada errado em ser gostosa. Nem bela. Mas é preciso sexualizar tudo?) Em alguns países mulher é arsenal de guerra. O estupro é arma. Para humilhar. Desmoralizar, enfraquecer corpo e espírito.
De um jeito ou outro somos a garota do atirador de facas, ali no centro do alvo. Incluindo a Marcela.
Guris, ser mulher é fogo. Sinceramente se eu fosse homem eu ficaria com vergonha ao saber o constrangimento que alguns de vocês nos provocam em muitas situações. Minha bandeira é um movimento inclusivo que convide homens e meninos de todas as idades a entender isso tudo, a exemplo da campanha ‪#‎HeforShe‬ ou ‪#‎ElesporElas‬ da ONU Mulheres. Por isso os convido a calçar meu salto 15 por um momento.
Tenho ótimos amigos, ótimos colegas de trabalho do sexo masculino. Estou nessa cachaça que é o jornalismo há mais de 20 anos, convivo com equipes majoritariamente masculinas e sempre fui respeitada e celebrada pela minha capacidade; grandes colegas meninos me ajudam a crescer profissionalmente. E essa mistura – pois somos diferentes e viva as diferenças – dá um samba bom.
Não sei nomear todas as ministras que passaram pelos governos Dilma, Lula ou FHC – ou Collor até! Mas, pôxa, estávamos lá! Lembra que há alguns meses celebrávamos a Primavera das Mulheres? Pois ela tem que continuar.
A ausência de mulheres no governo Temer é cheia de simbolismos e deveria causar estranheza pela falta de sintonia com nossos tempos. E isso não é mimimi de feminista. É só lembrar que isso não ocorria desde Geisel, como vem sendo noticiado. Sobretudo depois da retirada da nossa primeira presidente. Vem na esteira da reportagem sobre a “bela-recatada-do lar”, que veio na esteira da reportagem que mostrava a presidente afastada como uma mulher descontrolada. Parece que diz “saiam dos holofotes, gurias!”. Hoje no O Globo a representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman (para ecoar apenas uma das vozes que se manifestam contra essa atitude), disse bem dito que “a democracia somente se realiza com a plena participação das mulheres em espaços de liderança e de tomada de decisões”. Se o presidente interino chegou a cogitar convidar algumas mulheres para essa empreitada, poderia ter se empenhado mais, feito disso prioridade. Tenho certeza que ele tem exemplos lindos de mulheres protagonistas que ele admira e com quem aprendeu um ou dois macetes sobre política. Ou, no mínimo, deve estar ciente que formamos 52% do eleitorado do Brasil (dados do TSE). Ou que somos responsáveis por mais de 60% das decisões de compra nos lares brasileiros. (E se decidirmos votar com a carteira? Aí não tem Meirelles que segure a onda…) Não somos apenas coadjuvantes, e isso há tempos.
Mas o que consola é que a imagem da exclusão incomodou sim. E nesse retrato do retrocesso, essa percepção é um avanço.
13 de maio, século vinte e um.
Quem diria, na terra de Maria todo o dia é dia de brigar por alguma alforria.
Pronto, gurias. Falei.

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