#amídianãomostra – um rap

Tu me dizes #amídianãomostra

A mídia não ouve, não vê

Só fala o que bem entender

Isso dói como uma paulada

#chateada

Penso nos colegas nas redações

Que viram noite, varam madrugadas

Em busca de fatos e n opiniões

Ponto e contraponto

Verso e reverso e inverso

Imparcialidade

Para que tu decidas a tua verdade

Que não é absoluta – apenas mais uma versão

Mas… não.

#amídianãomostra

Contar histórias,

Ou como disse o Geneton,

“Criar memórias”

Essa é minha paixão.

Eu sei que meu rap é tosco

Não sou Vinícius, Jobim ou Bosco

Mas várias versões eu busco

O contrário seria

Preguiça errado injusto

Ctrl+c

Ctrl+v

Como ignorar o beat

Das ruas e das redes

E ficar no auto-repeat?

Como ignorar a sede

de participação?

Como não ecoar o “prosumer”

Que hoje mais produz que consome

Informação?

Entrevistamos grevista motorista patrão

goleiro vazado

artilheiro premiado

doméstica lojista vítima e até ladrão –

tanta gente que num verso cabe não.

Por quantas ruas andei

quanta saliva gastei

a quanto amor renunciei

de quanta pedra e bomba de gás escapei

por causa da notícia?

(Até parei na mão da polícia…)

Mas… não.

#amídianãomostra

é a tua aposta

#prontofalei

Mas, ei!

Eu tô nessa pauta!

Vai ver que quando mostrei

Tu estavas em outro canal

Lendo outro jornal

Pulando Gal num Carnaval (ah, não! “isso faz mal!”)

Ou assistindo a um thriller policial

Pior cego é o que não quer ler

Pior surdo é o que não quer escutar

Me dizes #amídianãomostra

Soa tão “ontem”, tão infeliz

Pena que tu insistas

Em achar

Que eu, jornalista

Só vi a banda passar –

E nada fiz.

ativismo

Em Los Angeles, mostrando as manifestações contra as guerras do governo Bush

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Porto, alegre-se!

Me arrepiei.

Era fim de tarde e eu atravessava o centro da cidade para fazer a baldeação entre o trabalho e casa. Passaria pelo Mercado Público, como passei tantas vezes, e já estava certa de que sentiria falta daquele festival de cores e aromas e vozes que faz parte do local – interditado depois do incêndio da semana passada. Mas o que vi quando cheguei  lá me deixou arrepiada.

Era um cordão humano abraçando o Mercado Público. Eram pais e mães de santo dando suas bençãos, padeiros e açougueiros e peixeiros vestindo seus uniformes brancos de mãos dadas, gente que passava e parou para aplaudir o velho prédio amarelo. Uma cena linda, emocionante, que ajudou a apagar (um pouco) da tristeza que eu sentira um dia antes.

Na manhã de quinta-feira eu trabalhei na cobertura da greve geral. Acordei cedo para fazer uma ronda pelo centro da cidade. No caminho entre a rodoviária e a Praça da Matriz o que eu vi era um cenário desolador. Porto está triste.

São vidraças quebradas, fachadas de lojas e bancos protegidas com tapumes, paredes e monumentos pichados. Nem o velho Mercado escapou do spray de tinta: “polícia fascista”. Sim, com sc – o babaca tem bom português. A cidade está suja, pálida, desarrumada. Uma Porto nada alegre.

Conheço a sensação de participar de um protesto, de uma manifestação. Gastei muita sola de sapato nos tempos de estudante. E quando morei em Los Angeles também: gastei o pulmão gritando pelo fim da(s) guerra(s). Nos dois últimos anos gastei meus neurônios estudando um movimento “descentralizado e organizado pelas redes sociais”, o Movimento Verde que contestou as eleições presidenciais de 2009 no Irã. Bebi de teóricos que celebram como a Internet promove a “difusão do poder”: como mais atores sociais têm acesso ao poder que vem com as novas tecnologias de informação. Para o sociólogo espanhol Manuel Castells, é assim, pela Internet, que ativistas e sonhadores transformam “noites solitárias de ira em dias compartilhados de esperança”. Sei como é contagiante fazer parte de um coletivo e carregar uma bandeira, e sei da importância disso para nosso amadurecimento como cidadãos – online ou offline, nas redes ou nas ruas, tanto faz. Mas vamos combinar, nos últimos meses parece que vivemos numa democracia às avessas, numa (licença poética, tá?) ditadura da democracia.

Nesses tempos de exposição e debate facilitados pelas redes sociais da Internet passamos de bodoque a vidraça em questão de minutos. Ouse questionar o movimento “horizontal e anti-partidário”. Ouse preferir saber quem é o líder, qual é sua agenda e aonde vamos. Ouse dizer que gostas, e muito, de futebol! Ouse criticar quem bloqueia o trânsito impedindo o direito de ir e vir de quem não está muito a fim de “ir pra rua”. Ouse defender um governo democraticamente eleito – que durante muitos anos foi o bodoque.

E de repente em dia de manifestação impõe-se um toque de recolher. E de repente vemos vereadores sentando no chão para negociar os termos de uma ocupação. E vemos a Cidade Baixa, a cidade da boemia, fechando portas, guardando mesas, armando-se. Numa banca de revistas da Borges de Medeiros foi colocado um banner enorme com uma frase do hino nacional na parede externa em que normalmente há propaganda. Aposto que é a escolha entre declarar apoio ao movimento, ou servir de tela para pichadores como todas as outras bancas do centro.

Sim, o movimento levantou questões importantes; como usuária do transporte público assino embaixo de muitas delas. A “pressão das ruas” obteve resultados admiráveis! Mas também deixou um rastro de discórdia e destruição.

#prontofalei

Quer saber? O incêndio no Mercado não foi causado por um curto-circuito.

Em sua Teoria Ator-Rede o filósofo Bruno Latour sustenta que como objetos fazem parte das nossas interações, eles assumem um caráter de protagonistas também. Caso do Mercado Público. Ele se transformou em um ser, um ser vivo de tanta vida que passa lá dentro. Por isso resolveu cuspir fogo. Por um longo momento naquela noite de sábado Porto Alegre se uniu e torceu para que aguentassem firme aquelas paredes – que não foram feitas para serem manchadas, mas para serem queridas.

O Mercado só quis chamar a atenção. A cidade precisava de um abraço, precisava se abraçar.

Foi nisso que eu pensei hoje.

Os muito chatos que me perdoem…

Noite dessas vimos o show “Cale-se: as Músicas Censuradas pela Ditadura Militar”. Bem como eu imaginava, é uma pequena aula sobre o cancioneiro proibido naqueles anos de chumbo.

“Tente Outra Vez” do Raul. Pode? Com frases tipo “você tem dois pés para cruzar a ponte” ou “tenha fé em Deus, tenha fé na vida”, mais parece um cântico religioso, não parece? Foi censurada.

E o Chico? Esse era o número um na lista de músicos mais frequentemente calados pelo regime militar. Mas que mal há em cantar “me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, um riacho de amor”? A censura não gostou nadinha desse assanhamento todo…

Também foi vetada pela ditadura a fofa “Severina Xique-Xique”, lembra? “Ele tá de olho é na butique dela…”

Mas o tempo passou, ufa… Censura? Nunca mais!

Jura?

Hoje em dia, mesmo em tempos de democracia, eleições diretas e afins, tenho a impressão de que vivemos sob uma nova espécie de censura, perigosíssima! É a ditadura do sem-graça, da chatice. Vivemos sob a mira das patrulhas do politicamente correto e, pior, do intelectualmente correto. (E em muitas ocasiões, hás de concordar comigo, os nossos censores somos nós mesmos…)

Eu não vejo BBB, nem A Fazenda. Não acho interessante. Parcece que os personagens se repetem ano após ano, passam os dias armando complôs e jogando cabelões e músculos de um lado para o outro. Sinceramente, não curto. Só para implicar, telefono pra quem eu sei que assiste bem na hora do programa pedindo papo ou intimando para uma “DR”.

Mas eu dou uma espiadinha, sim. No mínimo para poder participar de alguma conversa. Ou por que às vezes de tão bizarro fica impossível não ver. Isso me define? Isso define as centenas de milhares de brasileiros que votam em uma eliminatória qualquer? Creio que não.

“E enquanto isso, você grita gol”, critica a patrulha. Grito gol, grito sim. Posso?

Pago imposto e pago minhas contas, cedo o lugar na fila, ando com lixo na mão até encontrar a lixeira, digo “por favor” e “muito obrigada”, xingo empresas públicas e privadas nas mídias sociais (e também elogio, quando merecedoras), leio Allende e García Márquez, voto bem mais pelo prazer que pela obrigação, visito o Votenaweb para acompanhar o desempenho dos meus representantes, uso cinto de segurança e respeito a faixa de pedestre.

“E enquanto isso, você pula Carnaval…” Eu vou atrás do trio elétrico, sim. Dá licença?

Participo de tuitaços e de campanhas da Anistia Internacional, sou doadora de sangue, não jogo óleo de cozinha na pia (guardo para reciclar, aliás reciclo todo meu lixo, sou uma serial recycler), dou “bom dia” para estranhos, cedo o banco no ônibus, fui “cara-pintada”, fiz bandejaço no RU, gastei a voz em passeatas contra as guerras no Iraque e no Afeganistão, ouço Beatles e rock progressivo.

Não tô querendo atestado de boa moça (tenho lá meus pecados, e não escondo meu desgosto por muita coisa que há por aí…). Mas pergunto: o fato de eu torcer pelo Inter, ver minha novelinha das seis, pular meu Carnaval, me faz uma pessoa alienada, manipulável?

Ou precisamos todos fazer um voto de tristeza, torcer o nariz pro Gangnam Style”, fingir que entendemos aquele filme “cabeça”, fazer um pacto com a chatice?

Prefiro pensar que o que define uma pessoa, um cidadão, não são as horas passadas em frente à TV ou no estádio – embora o futebol, vamos combinar, seja um patrimônio, ferramenta da nossa diplomacia cultural e parte da nossa identidade, sim!

Prefiro pensar que o que define o meu país é o exército de trabalhadores voluntários, as reuniões do orçamento participativo, é o casal que devolve uma pequena fortuna encontrada na rua, a adoção de animaizinhos, ativistas como a Isadora, as caminhadas por justiça que lotaram as ruas gaúchas nas últimas semanas, as 594 vassouras na Esplanada dos Ministérios, os milhões de assinaturas nas petições do Avaaz (que ajudaram a empurrar, por exemplo, o “Veta, Dilma”).

E se no fim do dia quisermos simplesmente xingar o juiz e o vizinho, torcer pelo infeliz que foi parar no paredão ou na roça, vibrar com o beijo da novela, tem algo errado? Se no fim do dia quisermos fazer parte de um coletivo, de uma massa – sem ter que pensar muito, meeesmo – isso desvalida tudo o que fazemos, em outros momentos, por um mundo melhor?

Temos sua permissão pra sorrir?

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Vinícius de Moraes foi diplomata, durante 26 anos. Foi “aposentado compulsoriamente”, em 1968; seu comportamento boêmio, disseram, não condizia com a carreira pública. A ordem veio do Presidente Costa e Silva: “Demita-se esse vagabundo!”.  Contam que foi um golpe duro, pois o poetinha adorava o Itamaraty…

Mas, enfim, um favor foi feito à nossa música à nossa poesia.

Vinícius de Moraes, se vivo, faria cem anos. Imagino o que seria dele se repetisse, nos dias de hoje, a máxima “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Seria fuzilado pela patrulha do politicamente correto? Será que se sentiria compelido a dizer que “tudo não passou de um mal-entendido”?

E se ele “desse uma espiadinha” e, entre um copo e outro de uísque, debruçado no violão, desandasse a comentar sobre as beldades que desfilam na telinha do BBB? Cairia vítima da ditadura da tristeza, da sem-gracice, do intelectualmente correto? Ou mandaria tudo às favas?

Ah… Os muitos chatos que me perdoem, mas leveza é fundamental!

Cadê teu voto?

Senti uma pontinha de ciúmes da caminhada que vi domingo pela manhã no Brique da Redenção.

Eu sei o quanto é gostoso participar de uma passeata, um protesto ou um comício com convicção – como as pessoas que seguiam aqueles candidatos. Sei como é bom fazer coro a palavras de ordem de rima pobre, acreditar piamente num projeto.

Fiquei enciumada porque nestas eleições municipais não tem ninguém que me desperte, assim, uma paixão avassaladora… Ninguém que, como em algumas eleições anteriores, me deixe louca de vontade de ficar rouca de gritar, ou sem pena de perder amigos temporariamente com meu lero-lero sobre ativismo cívico-político e tal. Mas isso não diminui meu entusiasmo.

Gosto de ver e escutar os programas do horário eleitoral gratuito – embora às vezes me canse a retórica piegas e o desfile de “candidatos” que não consigo definir se são oportunistas ou debochados mesmo.

Adoro discutir política no café da manhã ou numa mesa de bar como se entendêssemos profundamente do assunto. 😉

(Não sei se chega a ser preocupante, mas dia desses me peguei sussurrando no ouvido do namorado: “Gruda em mim que nem jingle de campanha”.)

 

Logo no início dessa campanha um movimento que apareceu nas redes sociais da Internet me chocou: era um movimento pela derrubada de cavaletes com a propaganda de candidatos. Em tempos de “mensalão” é totalmente compreensível que haja uma desilusão com nossos políticos. Mas achei a ideia simplesmente estúpida.

Ao invés de errar o alvo e sabotar o debate, não seria melhor escolher a urna como o local para resolver o problema com algum candidato ou partido? Aliás, podemos e devemos votar e protestar também com a carteira, com o controle remoto…

Também não entendi quando apareceu gente querendo banir a campanha das redes sociais. Quer um veículo mais clean e ecologicamente correto para discutir política? Não gostou? De-le-ta. Mas depois não venha querendo pregar o “Veta Dilma” ou reclamar que “esse é o Brasil”.

Não entendi por que querer excluir a discussão política da Internet, que hoje é uma extensão natural da nossa vida social. A pequena Isadora, ao criar uma página no Facebook para denunciar as péssimas condições da sua escola, demonstrou como o clique de um mouse nos faz poderosos. 

É apenas um exemplo.

Tenho estudado como a Internet e suas redes sociais se transformaram em ferramentas para o protagonismo político e mudaram as relações de poder. “No meio do século XX as pessoas temiam que os computadores e as comunicações da atual Revolução da Informática criassem um governo centralizador e controlador como o dramatizado na novela ‘1984’ de George Orwell”, diz Joseph Nye, um dos mestres das Relações Internacionais que moram na minha mesinha de cabeceira. “No entanto, ao contrário, com a redução do custo dos computadores e do tamanho dos aparelhos portáteis, o efeito descentralizador ultrapassou o poder centralizado”.

E isso mesmo dentro de Estados que lideram o ranking de “centralizadores”.

Foi via Internet que cidadãos de países árabes se mobilizaram para desestabilizar governos e derrubar ditadores e tentar reconstruir democraticamente sua história.

Blogs, Twitter, Facebook e YouTube foram instrumentais para a articulação do movimento que contestou as eleições presidenciais no Irã em 2009, um movimento conduzido pelas palavras de ordem “Cadê Meu Voto?”. Eu era correspondente da Globo News em Los Angeles, e lá cobri a repercussão do Movimento Verde entre os expatriados iranianos. Eles acompanhavam tudo, minuto a minuto, via redes sociais. Mais que conectar os iranianos, a Internet ajudou a mostrar para o mundo o que o governo certamente preferiria ocultar. (Aliás, “reconhecendo o papel que estamos desempenhando como uma ferramenta de comunicação no Irã”, como explicava o blog da empresa na época, o Twitter chegou a alterar uma manutenção rotineira que indisponibiliza o serviço durante algumas horas para evitar prejuízo aos manifestantes.)

 

Numa era de fronteiras estreitadas graças à tecnologia, que o drama de outros povos nos sirva, no mínimo, de estímulo para apreciar nossa democracia. Ainda há quem perca a liberdade, ou a vida, brigando pelo direito de escolher seus governantes – o voto, que no Brasil é consolidado.

Como nos conta a imagem da vovó fofa que peguei emprestada do Huffington Post.

No Afeganistão os eleitores têm o dedo indicador pintado para evitar fraude – evitar que se vote mais de uma vez. O problema é que os talibãs ainda têm problemas com a democracia e volta e meia cortam o dedo de quem votou. Para tentar coibir, intimidar, aterrorizar. Mesmo assim, correndo riscos, a vovó fofa foi às urnas!

Se der preguiça na hora de votar, lembra: tem muita gente mundo afora com ciúmes da gente.

E tu, o que te motiva nestas eleições?

☪☮e✡is✝

“Human beings are members of a whole,
In creation of one essence and soul.
If one member is afflicted with pain,
Other members uneasy will remain.
If you have no sympathy for human pain,
The name of human you cannot retain.”

(Do poeta persa Saadi: seres humanos são parte de um todo; se um membro sofre os outros sentem a mesma dor. Está lá no prédio da ONU, em Nova York. Very fitting.)

☪☮e✡is✝

Nunca Más: os netos recuperados

Show do U2 não é simplesmente um show, é também um comício. As bandeiras que Bono Vox leva para o palco inquietam e chegam até a provocar uma certa dor na consciência pela pequena fortuna investida no ingresso – não seria melhor doar o dinheiro para uma das causas humanitárias abraçadas pela banda?

Buenos Aires, estádio do River Plate. Nos primeiros acordes de “One” Bono chama para o palco as Madres de la Plaza de Mayo. Emocionante? Sim, sin duda. As Madres, uma instituição da recente história da Argentina, haviam virado pop? Sim também, se necessário, pois toda exposição é benvinda. Pense bem: quantos ao meu redor, naquela multidão que lotava o River Plate, poderiam ser filhos dos jovens desaparecidos durante a ditadura militar, os netos procurados?

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“(…) Yo, hace viente años, dice: en el dia de mañana nuestros nietos serán adultos y van a buscarnos. (…) Ahora son hombres y mujeres que dudan, tocan el timbre y preguntan ‘seré nieto de ustedes? quiero saber’.”

O depoimento de Estela Carlotto, presidente da ong Abuelas de la Plaza de Mayo, sintetiza de que se trata o documentário “¿Quién soy yo?”, de Estela Bravo. É uma compilação de histórias comoventes como a de Horacio Pietragalla.

Ele cresceu como Cesar Castillo. Na adolescência passou a desconfiar que seria adotado – ele não percebia semelhanças, nem físicas nem de caráter, com os pais. Ao conhecer o trabalho das Abuelas começou a ligar os pontinhos: a mãe adotiva trabalhara como doméstica na casa de um militar, e isso era uma grande pista. Quando a namorada descobriu no site da ong a foto de uma jovem com um bebê, os dois parecidíssimos com Horacio, foram as dúvidas que desapareceram.

Horacio foi bater na porta das Abuelas. Depois de uma rápida mas precisa averiguação recebeu um título: “nieto recuperado numero 75”. Ele recuperou os laços familiares e ouviu histórias sobre seus pais. A mãe, Liliana Corti, foi assassinada pela repressão quando ele tinha cinco meses; do pai herdou o nome e os quase dois metros de altura.

A expressão “requinte de crueldade” pode ser clichê, mas não vejo outra forma de descrever o que a ditadura que castigou a Argentina entre 1976 e 1983 fez com os filhos dos prisioneiros políticos. Crianças foram sequestradas; bebês foram tomados das mães, presas, logo após o parto. Cerca de 500, todos entregues a um sistema de adoção clandestino.

A associação das Abuelas surgiu em 1978 dentro da organização das Madres de la Plaza de Mayo com o objetivo de localizar as crianças vitimadas pela repressão. Depois de anos batendo e porta em porta, peregrinando em busca de pistas sobre os filhos e os netos, hoje as abuelas são frequentemente surpreendidas por jovens que querem descobrir sua verdadeira origem, bem como um dia previu Estela de Carlotto. (Ela, a propósito, ainda procura pelo neto. O corpo da filha sequestrada em 1977, grávida de três meses, Estela conseguiu enterrar – “casi un privilegio”, leio numa reportagem sobre o caso.)

O Ministério da Justiça argentino atribui à Comisión Nacional por el Derecho a la Identidad (CoNaDI) a função de amparar o empenho das Abuelas. Se a investigação através de documentos não convence, os supostos nietos y nietas podem averiguar sua identidade consultando o Banco Nacional de Datos Genéticos (BNDG), que tem amostras de DNA de todas as famílias que buscam por seus desaparecidos (foi um exame assim que Horacio Pietragalla fez).

Tropecei no documentário “¿Quién soy yo?” depois de ler o blog da jornalista gaúcha Gisele Teixeira, que mora em Buenos Aires. No blog da Gisele soube das celebrações pela descoberta do “neto número 101”, e conheci tantas outras maneiras como os argentinos mantêm viva – embora cheia de remendos – essa dolorosa história.

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“Well, it’s too late, tonight, to drag the past out into the light.”

Assim cantava Bono Vox naquele distante mês de maio, no show em Buenos Aires. Atrás dele madres y abuelas andavam em círculos, repetindo no palco a coreografia que há mais de três décadas levam para a praça em frente ao palácio da presidência. Insistindo em contrariar a canção, teimando em iluminar o passado.

A Separação

A confissão: por pouco não deixei a sala de cinema antes do fim de A Separação.

Mas não foi por não estar gostando (a saber, minha tolerância para filme chato é curta, ou eu durmo ou fast-forwardo…). Pelo contrário! Quando percebi que a história começava a acabar decidi que preferia não saber qual seria o destino dos personagens.

Na tela o casal da separação em questão, cada um num canto, magistralmente distanciados pelos elementos de cena. E eu torcendo: “Termina logo, termina logo!”.

A obra de Asghar Farhadi  (ele escreveu, produziu e dirigiu) me lembra filmes como O Banheiro do Papa (baseado em hilários e comoventes fatos reais), O Visitante (um conto sobre imigração ilegal que elevou o eterno coadjuvante Richard Jenkins ao status de estrela da hora), e o argentino Um Conto Chinês (com o imprescindível Ricardo Darín). São histórias singelas, humanas, com personagens que instigam algum sentimento – seja piedade ou raiva.

Histórias assim, eu creio, superam de longe qualquer avanço em CGI.

O filme narra o drama de Simin, que quer deixar o Irã em busca de um futuro menos conturbado e por isso quer se separar de Nader que, por motivos louváveis, não pretende ir embora. Seria simples se eles não dependessem de uma autorização do governo para dissolver o casamento. E se as pequenas decisões não tivessem consequências tão graves lá na frente. Em A Separação ninguém é totalmente culpado, ou totalmente inocente o tempo todo. E o espectador (eu, ao menos…) se vê trocando de lado a cada sequência.

Farhadi filma segundo o peculiar manual do cinema iraniano: é um gênero quase documental, que usa ambientes reais como locações e transeuntes como figurantes. Em entrevista ao The Guardian, ele disse que essa abordagem permite que os espectadores descubram o filme por si e evita que o cineasta imponha seu ponto de vista.

Asghar Farhadi, seu elenco e equipe já devem estar com os braços cansados de tanto arrecadarem troféus mundo afora. São prêmios de associações de críticos, prêmios de júri popular, em festivais pequenos e em festivais de renome como o de Berlim.

Ao receber o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ele fez um discurso elegante. “Muitos iranianos em todo o mundo estão nos assistindo e eu imagino que devam estar felizes, não apenas por causa de um prêmio importante. Em tempos de guerra, de intimidação e de agressões entre políticos o nome de seu país é mencionado aqui através de sua gloriosa cultura, que está escondida sob uma poeira política.”

E é verdade, escondido sob uma densa poeira política está o cinema persa.

Como a cerimônia só foi assistida no Irã por quem tem satélite, no dia seguinte a agência de notícias estatal Farsi se encarregou colocar palavras na boca de Farhadi. Segundo a Farsi, ele disse: “Eu orgulhosamente ofereço este prêmio ao povo do meu país que, apesar de todas as tensões e hostilidades entre o Irã e o Ocidente em relação ao programa nuclear iraniano, respeitam todas culturas e civilizações”.

O cineasta realmente terminou o discurso com uma homenagem ao seu povo, mas não fez qualquer menção ao programa nuclear. Percebendo que não teria como sustentar a farsa por muito tempo o governo acabou publicando uma nova versão da reportagem. A façanha, porém, ficou devidamente registrada pelos blogueiros iranianos.

Enquanto tenta usar o sucesso de A Separação em benefício próprio, a ditadura Ahmadinejad continua calando seus artistas. O próprio Asghar Farhadi teve a licença para filmar cassada por declarar publicamente sua solidariedade ao colega Jafar Panahi (condenado a seis anos de prisão e a 20 anos sem trabalhar como diretor). A Casa de Cinema, a mais importante associação independente de cineastas do Irã, foi ordenada a encerrar suas atividades pelo Ministério de Cultura e de Orientação Islâmica. A perseguição é parte da incessante campanha para reprimir o movimento de oposição ao regime.

Escrevo ciente de que falar do Irã exige tolerância e um certo distanciamento dos “filtros ocidentais”. No entanto, isso não significa isentar o país de sua responsabilidade com as convenções internacionais, sobretudo no que diz respeito à promoção e defesa dos direitos humanos.

Mesmo sem qualquer pretensão de promover um debate político ou sociológico, Asghar Farhadi abre uma janela para uma cultura rica, para uma nação cheia de contradições (e qual não o é?) e involuntariamente devolve para a pauta a repressão que impera por lá.

Uma vez ouvi que Coldplay é uma banda que todo mundo adora odiar, e que ninguém admite curtir.

O Oscar é mais ou menos assim. O pessoal adora criticar, torce o nariz, mas fica de olho! Se o selo de aprovação de Hollywood era só o que te faltava para assistir A Separação… Corre lá!