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Jamón del Medio

Tenho uma recordação bem particular daquele verão. É lembrança de um tombo em alguma esquina da Avenida Santa Fé, que eu levei enquanto caminhava, desatenta a todo o resto, admirando a arquitetura dos prédios que decoram os céus da capital argentina.

Era um fim de tarde, o começo do nosso passeio por Buenos Aires. Nosso primeiro destino foi a livraria El Ateneo, que funciona no antigo Teatro Grand Splendid. Lá onde antes havia assentos hoje há estantes de livros. O palco virou um café. Eu havia passado dias sonhando acordada em conhecer a El Ateneo!

El Ateneo

Gosto de cidades com rugas, de lugares que têm alguma história para contar. Nesse quesito Buenos Aires é um prato muito, muito farto – daí explica-se por que eu andava tropeçando pelas calles argentinas.

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Como em toda a cidade, em Buenos Aires há que se cumprir um roteiro obrigatório: Casa Rosada, Puerto Madero, La Boca, Recoleta, a Feria de San Telmo (onde me sinto como um pinto no lixo)… tortoni

É obrigatório comer churros no Café Tortoni!

No entanto, acho que para conhecer uma cidade é preciso experimentá-la como ela é no seu dia-a-dia.

Buenos Aires é linda e, como qualquer lugar deste mundão, fica ainda mais bela com a companhia certa. O que para mim significa ter alguma dose de “espírito aventureiro”.

Gringo descobriu que devíamos comprar um “Guía T” (“guia-te”, sacou?), um livrinho que tráz mapas das linhas de ônibus e de metrô. O guia de bolso colocou cidade na palma das nossas mãos, e assim nos sentimos quase porteños.

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Nos hospedamos no apartamento de Elisa y Carlos (alugado pela Internet) em Palermo, bairro onde morou Che Guevara e que ainda hoje é endereço de Charly García. (Sei disso não só por que havia lido em algum lugar, mas por que nosso anfitrião fez questão de nos mostrar onde mora o cantor. “Carlos”, aliás, virou apelido de todo argentino bacana que encontrávamos – como o motorista de ônibus que não nos deixou pagar passagem no dia de Natal.)

A região de Palermo é uma das mais transadas de Buenos Aires. Caminhando algumas quadras do ap chegávamos ao coração do Palermo Soho. Lá, nos fins de semana, praças como a Serrano são tomadas por feiras de artesanato; danceterias viram espaços coletivos para designers e estilistas. Uma moda que, dizem, surgiu com a recessão econômica de 2001, e que pegou.

A vizinhança era realmente um “problema”. As ruas (creio que seja assim por todo o país) são cheias de confeitarias com aquelas facturas e sandwiches de miga indecentemente exibidos nas vitrines. A-do-ro sandwich de miga, aquele de pão bem fininho, recheado com palmito, morrones, jamón, huevos duros… E na Argentina tem sandwich de miga triplo!

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A localização, perto de estações de metrô e pontos de ônibus, nos ajudou a planejar os passeios. Conhecemos áreas não tão charmosas da cidade nas nossas viagens em colectivos. Andamos na mais antiga linha de metrô da América do Sul, a linha A do subte.

subte

Comemos parrillada, milanesas, medialunas – e MUCHOS sandwiches de miga!

Ensinamos aos mozos (garçom, em espanhol) como é que a gente gosta de tomar cerveja: gelada, e não apenas “fría”. Foi engraçado ver a estranheza e até a inconveniência que causávamos ao pedir um balde de gelo para colocar a garrafa. Cerveza de litro, fría? Em pleno verão? Não dá, né?

A mais gelada que tomamos foi no El Querandí, onde assistimos a um show de tango. Mal sentamos à mesa e já fomos combinando com o mozo: guarda uma garrafa só pra gente, por favor, lá no fundo do freezer… ¿Vale? El Querandí fica no centro histórico da cidade, perto da Plaza de Mayo. O show é uma produção enxuta e tocante, que conta a história do tango desde o surgimento, no século XIX.

Mas para experimentar o verdadeiro tango fomos a uma milonga! É onde os argentinos e aprendizes estrangeiros se encontram simplesmente para bailar. O lema do La Viruta, que fica na região de Palermo, é “entrás caminando… salis bailando”. Sim, eles fazem tudo parecer tão fácil…

Atravessamos a cidade para visitar o Museo Argentino de Ciencias Naturales Bernardino Rivadavia, que tem um riquíssimo acervo de fósseis. E aí foi a vez do Gringo virar um pinto no lixo no meio dos dinossauros.

dino

E atravessamos (eu correndo) as largas avenidas…

Conversando com taxistas ouvimos um comentário que já entrou para a nossa história – “o Grêmio é mais famoso que o Inter”…  E descobrimos o que significa a expressão “jamón del medio”, que é como os hermanos chamam “a cereja do bolo”, o melhor de tudo.

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Descobrimos El Boliche de Roberto ao procurar por um lugar que ficasse fora do roteiro turístico tradicional. E acho que não há nada mais genuinamente argentino que o balcão de madeira onde, conta a lenda, se debruçava Carlos Gardel. lo

O boliche é pequeníssimo. Chegamos cedo e nos acomodamos no bar – bebendo de uma garrafa de cerveja fría que o barman/mozo/cozinheiro/caixa voltava a guardar na geladeira após cada servida, evitando que a coisa virasse um . O cardápio simples está num quadro de giz: empanadas e tábuas de frios. Para tomar, cerveja ou fernet.

Em minutos, a casa lotou: estudantes, boêmios, músicos, alguns turistas como nós. O show começaria em breve – e que show!

Num palco junto à janela, Maricruz canta acompanhada por dois violões. O tango tem essa coisa dramática, visceral, que a voz grave de Maricruz interpreta com perfeição.

roberto

Depois da apresentação os músicos passam o chapéu: vale mais a pena do que qualquer pequena fortuna cobrada nas concorridas casas de espetáculo.

deA decoração já valeria a visita.

Sabe essa moda de decorar botecos com peças antigas? Pois é mais ou menos assim, só que lá o vintage, o antigo, é original. Assim como é verdadeira a poeira que cobre as garrafas acumuladas nas prateleiras que vão até o teto – aposto que ali tem poeira que entrou no boliche junto com Gardel.

Nessa viagem, “Lo de Roberto” foi o meu “jamón del medio”.

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Foi um esfoladinho bobo, achei que não ficaria cicatriz. Nem me preocupei em fazer um curativo decente – ah, eu tinha muito mais o que fazer naqueles dias! Olho para a pequena marca no meu joelho direito com carinho: ela virou minha passagem secreta para Buenos Aires.

PS: Para conhecer a Buenos Aires dos argentinos, visite o blog da jornalista Gisele Teixeira, que se encantó y por alla se quedó.

Não tem perdida

Fim de tarde, de volta a Porto Alegre, mortos de cansaço (mas de cansaço “dos bons”), estamos num dos nossos botecos preferidos para encerrar o fim de semana com uma bela cerveja artesanal. Pergunto pro garçom, um beer somelier, por que raios não tem Conti Bier no cardápio. “Conti!?!” ele reage surpreso, querendo contar como conheceu essa cerveja ralinha, aguadinha, espumosa. “Duvido que a tua história seja melhor que a nossa”, respondo. De fato, não era.

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Bastou seguir por um atalho equivocado e a viagem entre Porto Alegre e Cambará do Sul ficou uma hora mais longa. (Foi então que entendi o aperto por que passam os competidores do meu reality show favorito, “The Amazing Race”: é muito fácil se perder e se atrasar para a próxima tarefa, sobretudo no caso deles, viajando mundo afora.) Passava das 11 da noite quando chegamos à pousada. Janete, que dormia sentada nos esperando, avisa que dificilmente encontraríamos onde jantar. “Aqui tudo fecha às dez!” Decidimos arriscar.

Com todo o devido respeito a Cambará do Sul, lá não faz muita diferença se hospedar no campo ou na cidade… A algumas quadras da nossa pousada na “zona rural” já estávamos no centro. Nossa salvação estava do outro lado da igreja, em frente à praça: Pizza Retrô!

Móveis antigos, paredes coloridas, vitrola funcionando, uma coleção de discos, gente bacana e uma pizza fa-bu-lo-sa. Tinha tudo o que precisávamos, exceto… Exceto a cerveja. “Acabou nosso estoque”, disse o garçom, meio sem jeito. No problemo. Gringo pega emprestado dois cascos e vai no bar da esquina. O lugar era um inferninho onde só havia a tal Conti – um freezer lotado! Fazer o quê? Brindar, ao som de um vinil de Tina e Ike Turner, como se fosse a última birra dos Campos de Cima da Serra.

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No sábado de manhã os patos avisam que é hora do café – com pão de banana e doce de leite caseiros. Mate cevado, lá vamos nós conhecer o Cânion Itaimbezinho. São 18 km de estrada de chão até o Parque Nacional Aparados da Serra. Nele é possível fazer duas trilhas: a do Cotovelo e a do Vértice. Seguindo a recomendação de um guia local começamos pela mais longa, a do Cotovelo. São três horas de caminhada “round trip”.

Eu queria ter um mapa, um guia que mostrasse precisamente como chegar aonde, e que me desse informações enciclopédicas sobre o que eu estava vendo. Mas não tínhamos. No entanto, o percurso é bem sinalizado; uma trilha fácil, plana, cercada por samambaias e araucárias.

Gringo faz milagres com as camerinhas, mas acho que não tem fotografia que traduza a grandeza e a beleza do que nos aguardava no fim do caminho.

O nome vem do tupi-guarani: ita (pedra) e aimbé (afiada). Aqui o paredão tem 720 metros de altura – é como se estivéssemos no topo de um prédio de 240 andares. Lá embaixo enxergamos o Rio do Boi, que pertence a Santa Catarina. Dizem que a caminhada pelo rio, no interior do cânion, é inesquecível. Ficou na “to do list”.

A trilha do Vértice é a mais popular entre os turistas (são 50 mil visitantes por ano no Aparados da Serra). A caminhada dura cerca de uma hora e o que se vê, como as cachoeiras banhando os paredões, é digno de cartão postal.  

O passeio pela chamada “parte alta” do cânion pode ser feito em um turno.

Como ainda tínhamos muita tarde pela frente seguimos a dica da Janete, a dona da pousada, e fomos a Jaquirana.

A cidadezinha fica do lado de Cambará do Sul. Uma estrada de chão nos leva à Cachoeira dos Venâncios. É uma jóia escondida dentro de uma propriedade particular: o Rio Camisas desce por degraus imensos formando quatro quedas; cada uma delas é cercada por lajes que nos permitem ver as cascatas de um ângulo privilegiado.

E quando a gente pensa que já se maravilhou o suficiente, eis que surge o Tio Gripa! Ele fica sentadito, bebericando e tocando sua gaita num canto do Galpão Costaneira.

O restaurante serve comida tropeira num bufê de panelas de ferro. Feijão mexido, carne de panela, polenta, mandioca cozida “se desmanchando”. Jantar farto: estávamos “podendo”, depois de uma tarde com os pés na trilha. Comemos despacito, enganando o cansaço (um daqueles “cansaços dos bons”) para apreciar a música do Tio Gripa.

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O domingo começou cedinho, pois queríamos mais aventura antes da viagem de volta. Janete nos sugere visitar o Cânion Fortaleza. Ela mostra o caminho numa fotografia, uma vista aérea da cidade; anoto algumas instruções tipo dobra aqui, segue por tantos quilômetros de chão até ali… “Não tem perdida”, ela garante, “não tem perdida”. Então, tá bem…

Mate cevado, pão de banana na mochila, partimos confiando no caminho que vem sendo transmitido boca a boca por gerações. As dicas da Janete combinam com as do guarda na entrada do Parque Nacional da Serra Geral. Estaciona na porteira, caminha tantos metros, passa sobre a ponte, segue pela beira do rio. “Não tem perdida”, lembramos. E, de fato, não tinha.

O Cânion Fortaleza é mais intocado que o Itaimbezinho, mais “roots”, como diz o Gringo. Nada de placas indicando caminho. Nenhuma cerca te separa da beirinha do penhasco, que em alguns pontos chega a ter 900 metros! O movimento de turistas é menor, talvez pelo esforço que as trilhas exigem. Subimos pela Trilha do Mirante. Do topo, em dias claros, se avista o litoral. Passeamos entre as nuvens. Perdemos o fôlego, não por causa da escalada morro acima, mas por causa da imensidão da paisagem.

Ai, que coisa mais clichê se deter a pensar na vida num lugar desses! Mas o contrário seria absurdamente impossível…

Fortaleza, eu acho, é um nome mais que apropriado. O cânion me transmite constância, perenidade – e serenidade. A vida nele independe de resoluções da ONU, de altas em bolsas de valores, de alguma descoberta da ciência ou revolução industrial. (Queria, em certas horas, ter um cânion dentro de mim.)

A Trilha da Cachoeira do Tigre Preto é mais curta, mais acessível – mas com suas peculiaridades. Para enxergar a cachoeira é preciso atravessar o rio pulando pelo caminho improvisado nas pedras, a alguns metros da queda. Sem emoção, que graça tem?

A trilha acaba na Pedra do Segredo, como foram batizadas as duas rochas que se equilibram à sombra do paredão. (Observando as fotografias, mais tarde, juro que enxergo a silueta de um macaco nas pedras!) Insisto com o Gringo para matarmos a sede num riacho, pois uma vez ouvi que para voltar num local é preciso beber de sua água.

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Não fosse pelo atraso na chegada em Cambará do Sul, nosso jantar naquela sexta-feira teria sido convencional. Com uma pizza unicamente delish (ainda volto para experimentar a de pinhão e a de strogonoff de charque), mas com a cervejinha comum de cada noite.

O Itaimbezinho é lindo, organizado, acessível. Talvez acessível demais… Vale a visita, é claro! Mas poucas sensações se comparam à de caminhar linda e solta pelo Cânion Fortaleza, de espiar lá na beirinha do penhasco e chegar quase até a porta do céu.

Deixo o Fortaleza me contradizendo. Não quero mapa, não quero um manual de instruções, não quero saber muito além daquilo que meus olhos vêem. Não tem perdida: às vezes o melhor da vida está escondido num caminho errado, numa viagem sem roteiro.

Sobre o tempo e sobre as coxas

Rapidinho, para que o final deste texto faça sentido.

Take for granted. É uma daquelas expressões idiomáticas super eficientes do inglês que dizem muito com poucas palavras. Busquei uma tradução objetiva – achei várias opções. Presumir. Considerar verdadeiro. Antecipar. Subestimar o valor. Dar por garantido. Significa algo ou alguém que presumimos ter para sempre, cujo valor só percebemos quando esse algo ou alguém nos falta.

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Foi muito estranho rever, pela internet, o prédio que chamei de “casa” nos meus últimos meses em Los Angeles. Pelo Google Earth pude refazer o mesmo caminho de tantas manhãs, até a esquina movimentada, passando pelo viaduto, pela mecânica. Na direção oeste, uns minutinhos mais e eu estaria na praia. Indo pro norte, em meia hora chegaria no trabalho. Estranho perceber que fiquei tanto tempo desgarrada. Como foi possível?

Durante a década e tanto em que fui imigrante tinha plena consciência de que me dividia em dois mundos: o dos esteites (da vida cotidiana), e o “universo paralelo” que passou a representar o Brasil (o mundo das celebrações, dos sabores, dos abraços e das saudades). É esse “portal” que meu irmão Yuri, expatriado para a Rússia, descobre agora.

Uma noite dessas vi um filme com a Tamara. A mocinha largava a pacata vida no interior para tentar a sorte em Los Angeles e tudo começava com aquela típica colagem de imagens dos cartões-postais da cidade. Maia me pergunta: “Não dá saudades?”.

Aliás, volta e meia me perguntam se já me adaptei à vida no Brasil. Não tem uma resposta simples, do tipo sim ou não.

Sinto falta de algumas coisas pequenas, mundanas: a meia-calça que não tem elástico apertando na cintura (e que não encontro aqui); meu colchão que nem era colchão mas uma mousse de esponja; as lojas de ponta de estoque com Calvin Klein a 50 dólares.

Também era uma delícia fazer compras no Trader Joe’s, um ícone da vida descolada e ainda hippie californiana. Para entender procurem no jutube o video “If I Made a Commercial for Trader Joe’s”, um passeio pelo mercado ao som de uma versão bem peculiar de “Águas de Março”.

Nesta época o Hollywood Bowl deve estar lotado toda a semana –a temporada de concertos de verão era meu programa favorito em L.A.! O Hollywood Bowl é um anfiteatro com capacidade para 17 mil pessoas, onde cantaram dos Beatles a Gal Costa. A gente levava piquenique e o veneno de sua escolha. Uma vez, empolgadíssimos num show do Jorge Benjor, eu e meu velho amigo Edu descemos e subimos as escadarias do anfiteatro carregando uma enorme bandeira do Brasil (minha canga, prá dizer a verdade, que aparece na foto ao lado com Papi e Mami no Bowl). Fiasco pouco, graça não tem.

A vida nos esteites tem algumas facilidades que a gente bem podia copiar. Para alugar um apartamento basta escolher o local onde você quer morar e negociar com o manager (uma espécie de zelador/síndico). Com documentação à mão, um cheque-fiança ou um bom credit score dá prá fazer a mudança no mesmo dia! Não tem essa peregrinação de ir na imobiliária-pegar chave-visitar o apartamento-voltar na imobiliária…

Lá qualquer deslize dói no bolso. Exemplo: nos meus primeiros dias em L.A. fui a um parque, lindo, perto de casa. Na área de piquenique tinha uma festa de aniversário de latinos com direito a piñata, carne assada, futebol. Pensei com meus botões, cheia de pré-conceitos: “Imagina a bagunça que vão deixar”. Horas mais tarde, nem um palito no chão! Experimenta descuidar de um bem público (grifo no público, no que é seu e meu) para ver quanto custa…

É estranho como funciona nosso cérebro. Volta e meia sinto como um curto-circuito e por um milissegundo tenho a impressão que ando pelas ruas de Los Angeles, em função de alguma das tarefas a que estava acostumada. Me pergunto por onde anda o carrinho que me acompanhou durante tantos anos, um hondinha preto super assediado (encontrava muitos bilhetes no pára-brisa, “If you want to sell this car call me”). Será que o hibiscus e a floribunda continuam florindo?

Mentiria se dissesse que não fui feliz, e é chato perceber que talvez eu nunca mais veja algumas pessoas que cruzaram meu caminho por lá. Mas trocaria, como fiz, tudo isso pela oportunidade de voltar. Num milissegundo.

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“Fritura a essa hora?”, ele me olha incrédulo, sabendo da minha eterna briga contra a balança. Era manhã cedo e tomávamos café num bar à beira da estrada. Eu continuei saboreando a coxinha. Concentradíssima.

Depois da longa década em que o jejum de coxinhas de galinha era quebrado somente uma ou duas vezes por ano estou empenhada em experimentar to-das. É um dos meus quitutes preferidos.

A vida no Brasil tem alguns luxos inimitáveis. Como passar na padaria da esquina e comprar uma coxinha, uma empadinha de “massa podre”, ou um pãozinho “recém-saído”.

Pedir palpite na frente do espelho: “Tô bem assim?”. Poder ligar prás amigas e combinar um mate ou um chopp para daqui a quinze minutos é um privilégio! É bom, muito bom, voltar a “pertencer”.

Colocar um “capaz” em qualquer lugar da frase, com qualquer conotação, e não precisar traduzir. Sério. Essa “tradução” dá um trabalho…

Aqui tem área de serviço nos apartamentos! Com tanque! E varal! É um luxo, sabia?

Tem o cafezinho na sala de espera, ou depois das refeições.

Fico encantada com a gentileza das pessoas, e com a modernidade de muitos serviços. Como as máquinas para passar cartão que te trazem na mesa nos restaurantes. Fui no Correio: senha para ser chamada, cadeiras para esperar, e um atendimento eficientíssimo. Para recarregar o cartão Tri, do transporte público, vou ao imenso saguão de um prédio histórico no centro de Porto Alegre, encaro uma fila que é longa mas sou recebida com um sorriso ao som de uma música lounge, e entro-e-saio em menos de cinco minutos!

Agora posso subir num ônibus e ir torcer pelo meu time no Beira-Rio. Algumas horas a bordo de outro ônibus e posso passear pela Avenida Agraciada, que é meu programa favorito na fronteira (na foto, Maia, Yuri e eu em Rivera).

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É estranho como funciona nosso cérebro. Volta e meia sinto como um curto-circuito e por um milissegundo tenho a impressão que devo aproveitar para devorar logo aquela feijoada, dar uma derradeira voltinha no Brique da Redenção… E então lembro que não há urgência. Que o Brasil não é mais apenas meu “universo paralelo”. Me sobra tempo para descobrir onde estão as melhores coxinhas de galinha.

Já descobri o que não deveria ter descoberto: que no “burguesão” no Campus do Vale da UFRGS (onde estudo) tem buffet de salgadinhos durante o café da tarde. Uma tentação assim deveria ser proibida! A coxinha, dessas tamanho coquetel, é delish

Provei a do Natalício, que dizem ser “a melhor da cidade”. Muito barulho por nada: grande, seca, pelo tamanho merecia mais catupiry no recheio.

O top do ranking continua com a da Casa da Cucas, em Barra do Ribeiro, com massa feita de batata.

E assim os sabores e os abraços que eu costumava take for granted voltam a fazer parte da vida. Às vezes parece que nunca saí daqui. Às vezes vejo que ainda falta reaprender muito. Como lembra o título deste blog, o caminho para casa é longo.