Poesia em Movimento

Das memórias de Hamid Dabashi, sociólogo iraniano que fez morada em minha mesinha de cabeceira.

     “Nós assistíamos à Copa do Mundo em pequenos e raros aparelhos de televisão, em alguns poucos privilegiados lares e cafés, como cidadãos de um mundo que não era dividido por eixos de poder, mas definido pela criatividade e determinação de um jogador, uma bola e a glória de um gramado à sua frente.

     Um mundo em que a genialidade da engenharia alemã, a superioridade industrial britânica e a arrogância cultural francesa se curvavam humildemente em reverência à superioridade da poesia em movimento brasileira.”

(em “Iran, a People Interrupted”)

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Tem futebol também neste post. Para saber mais sobre o “estado das coisas” no Irã, sugiro ler (e ver!)  A Separação.

As “medalhonas”

Papo flagrado num corredor de supermercado. “(…) Daí eu falei que ela era parecida com a Mayara, sabe, aquela atleta? E ela me disse que são irmãs!”, o rapaz comenta com um amigo. “E ela me mostrou as fotos, e até uma mensagem dela prometendo a medalha!”

Faz todo o sentido:  o supermercado em questão fica pertinho de casa, pertinho da Sogipa, onde treina a judoca. A conversa foi no comecinho das Olimpíadas, dias antes de Mayara Aguiar agarrar seu bronze e deixar de ser apenas “aquela atleta”. Sabe?

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Ricky Martin avisou pelo Twitter que está viciado em Olimpíadas. Eu também. É um olho nos temas de casa, outro em qualquer competição que estiver passando pela TV. Sou fácil assim, altamente influenciável – e ser contagiada pelo espírito olímpico não faz mal, faz?

A cada quatro anos, durante duas semanas, entendo tudo de atletismo, conheço as regras do vôlei, sou capaz de avaliar com precisão um salto ornamental. E depois cerimônia de encerramento sofro, durante dias sofro de “síndrome de abstinência de Olimpíadas”.

Porque além do espetáculo da busca da perfeição que são, as competições têm exemplos de perseverança, persistência e de ousadia que sempre inspiram.

A luta da judoca Wojdan Shaherkani durou apenas um minuto e 22 segundos – fora do tatame a batalha é bem maior.

Ela e a atleta Sarah Attar foram as primeiras sauditas a competirem numa Olimpíada. Precisaram de uma autorização especial do rei, já que na Arábia Saudita mulheres são proibidas de praticar educação física nas escolas, de frequentar clubes ou eventos esportivos. (A judoca Shaherkani treina com o pai. Attar, especialista dos 800 metros, mora nos EUA onde é treinada por Joaquim Cruz, nosso medalhista de ouro que corria descalço no começo da carreira.) No entanto, o que muitos veem como um feito histórico foi encarado como um insulto ao Islã pelos conterrâneos mais radicais: nas redes sociais da Internet Wojdan e Sarah foram chamadas de “prostitutas das Olimpíadas”.

A façanha da norte-americana Gabrielle Douglas foi conquistar medalhas de ouro individual e por equipe na ginástica artística. O pecado dela foi não se preocupar tanto com o visual. Douglas, o “esquilo voador”, foi criticada via Twitter por não ter produzido o cabelo para a competição (ela fez uma singela colinha e  prendeu os fios mais rebeldes com tic-tacs). Sério, isso aconteceu, de fato aconteceu…

E em algum lugar do universo Renato Russo se indignaria: “O que é demais nunca é o bastante?”.

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Admiro a devoção dos atletas. Te falo de plano a longo prazo: dedicar uma vida inteira para definir a prova em questão de segundos, gramas, milímetros. A medalha de ouro do “homem mais forte das Olimpíadas”, o iraniano Behdad Salimikordasiabi, pesa 455 kg. Nos 200 metros borboleta, cinco milésimos de segundo separaram o sul-africano Chad Le Clos do segundo colocado, o Aquaman Michael Phelps.

Imagino o que eles pensam quando estão lá no pódio. Phelps, por exemplo. Ele, que chegou a instalar a cama dentro de uma câmara que simula a atmosfera de uma altitude elevada para melhorar sua performance. Phelps disse que tudo o que quer depois da missão cumprida é dormir. Como qualquer pessoa que não carrega o peso de 18 ouros e 22 pratas, ele quer dormir até tarde. Nada de treinar de madrugada!

Vibro com os persistentes. Como o jogador do vôlei masculino que não se intimida com o olhar fulminante do Bernardinho ao errar um saque ou um passe. Numa mesma nota, adoro a ousadia da líbero Fabí, do vôlei feminino, que busca a bola lá fora da quadra com o pé!

Admiro quem não joga a toalha. Quantos nãos o sul-africano Pistorius ouviu até chegar a Londres?

Admiro os determinados. Como o guri que um dia chegou para os pais e decretou: “Quero ser arremessador de martelo!”. Ou o que avisou: “Quando crescer serei um ginasta. E minha especialidade será argolas!”

(Mas será que não dava para querer ser engenheiro, médico, ou ao menos um jogador de futebol ou de basquete?)

Admiro o pai que disse “Tá bom, filho”. E lá foi ele mesmo forjar argolas para o guri treinar. Fast forward para Londres 2012 e lá está Arthur Zanetti, recebendo um “ouro inédito para o Brasil”.

Vibro com quem lota as arenas desportivas e torce, torce fervorosamente por qualquer bandeira que lhe desperte simpatia. Assim como o amor, o esporte parece ser um idioma universal…

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O domínio de países como EUA e China nos Jogos Olímpicos pode ser resquício do tempo em que a guerra fria transbordava para o esporte. Lembra da briga entre os esteites, a (na época) União Soviética, Cuba? Mas nesses países os atletas se formam desde o berço, seja por iniciativa do Estado ou da família.

Quando estive na China fiquei admirada com o tamanhinho dos atletas, recrutados ainda bem criancinhas e levados para instituições que são um misto de escola/internato/centro de treinamento. Num país de um bilhão de habitantes, a chance de se destacar pelo esporte parece imperdível – além de ser encarada como um dever cívico.

Nos Estados Unidos ser bom em algum esporte garante uma bolsa de estudos nas caras universidades, e daí para se formar como um atleta é um pulo.

No U.S. Olympic Complex em Colorado Springs, Colorado

E há outro objetivo, além de manter a supremacia no quadro de medalhas: o esporte também é ferramenta diplomática.

Nos anos 70 os EUA mandaram jogadores de ping-pong para quebrar o gelo com o bloco comunista em partidas amistosas na China (o episódio está deliciosamente retratado no filme “Forrest Gump”). Nos anos 90 uma equipe de luta-livre norte-americana foi ao Irã para participar da Takhti Cup International; era uma tentativa dos então presidentes Clinton e Khatami de reaproximar os países, cujas relações estavam rompidas desde a Revoluçao Islâmica de 1979.

Mais recentemente, com o programa “SportsUnited”, o Departamento de Estado dos EUA tem levado treinadores e atletas para “fortalecer laços com outros países através do intercâmbio com jovens e crianças de comunidades carentes”. Mais ou menos o que o Brasil fez no Haiti em 2004 com o “Jogo da Paz”, só que num empenho constante.

(Mas não pense que eles estão com a vida ganha. Os jogos de Londres têm servido como “gancho” para n reportagens sobre as dificuldades financeiras dos atletas olímpicos norte-americanos.)

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Enquanto escrevo tem festa em Porto Alegre: os judocas Mayara Aguiar e Felipe Kitadai (também bronze) acabam de chegar de Londres e desfilam em carro aberto pela cidade. Tem festa para a “medalhinha” (ouvi, ouvi sim comentarista esportivo chamando o bronze de “medalhinha”). É “medalhona”, tá?

A treinadora Rosicleia Campos usou lágrimas para dizer mais ou menos isto: no país do futebol praticar qualquer outra modalidade é uma briga eterna pelo reconhecimento.

Para muitos atletas os desafios continuam depois da competição, além das quadras, pistas, piscinas. E isso não é “privilégio” dos “não-jogadores de futebol” brasileiros.

Admiro quem não se achica –  diante de seus competidores, ou dos obstáculos. Aplaudo quem não foge da briga, como o ciclista Magno Prado que remendou com alfinetes o zíper quebrado do único uniforme que tinha. (A imagem que correu o mundo me fala sobre o caráter do atleta. Deveria ser um “kick up the backside” para a potência emergente que está prestes a sediar Copa e Olimpíadas.)

Acho que o esporte é feito disso: de perseverança, de persistência e de ousadia. Ah, como eu queria, pela inspiração que ela traz, que a febre olímpica durasse mais. 😉

E tu? O espírito olímpico também te contagiou?

FUTEBOL = PERTENCER

Escrevo ainda sob o calor do “Dia do Fico” de D’Alessandro, da estréia do Internacional na Libertadores e da promessa de uma bela campanha no Gauchão.

Sério. Fiquei emocionada com a decisão do D’Ale. Os argumentos que a direção do clube usou para convencê-lo a ficar foram bons e sabe-se lá quantos cifrões formaram  a cereja do bolo. Mas é óbvio – e isso até gremistas com dor de cotovelo admitem – que contou também a possibilidade de se firmar como um líder para o time e, sobretudo, um herói para a torcida. Achei fofo el D’Ale comentando na coletiva após a proclamação do “fico” sobre o carinho que sente pelo Inter, desde a tia que prepara o lanche, ao tio que cuida do vestiário, ao porteiro.

Lembro quando Zico, lá no comecinho dos 80, decidiu ir jogar na Itália deixando toda a torcida do Flamengo desolada. Vi a notícia num desses telejornais tarde da noite, lembro das imagens de cariocas chorando e xingando. E xingando. Muito.

Não entendo muito mais sobre futebol do que entendia naquela época. No entanto, me arrisco a um palpite: futebol = pertencer.

Zico acabou voltando. Mais tarde migrou outra vez – só para voltar novamente… Deve ter sentido falta dessa sensação.

Na China, que contratou animadores de torcida para alegrar as multidões nos estádios nas últimas Olimpíadas, será que o D’Ale conseguiria “pertencer”? (Dica: não se surpreenda se a China continuar tentando importar nossos craques… Fique de olho, hein? Na Alfa tem um belo artigo sobre por que é melhor viver sob o império norte-americano que sob um império chinês.)

Eu pertenço à nação colorada desde pequeninha. Nunca esquecerei de uma tardinha em que o pai nos levou para comemorar uma vitória do Inter na esquina de casa, abanando guardanapos vermelhos para os carros que passavam em festa. (A Maia estava junto mas o empenho não colou com ela, que se bandeou pros lados do tricolor…)

Não sou do bloco dos doentes ou fanáticos. Até torço pelo Grêmio se for para garantir um clássico em final de campeonato, ou se o adversário deles for um time carioca ou paulista.

Mas visto minha camisa com orgulho! Mesmo quando isso implica em acordar de manhã cedinho para o registro de uma porção da torcida desgarrada comemorando o centenário do clube em Los Angeles.

Ser brasileiro, quem mora fora sabe, é um ótimo cartão de visitas e isso se deve muito ao futebol. Não importa o quanto o legado de FHC e a administração de Lula tenham mudado a imagem do país lá fora, Brasil ainda é = Bossa Nova, Carnaval, café e Pelés, Romários, Ronaldos…

Nossa torcida se globalizou. Fiquei surpresa e orgulhosa ao ver a camisa 10 da seleção espalhada pelas lojinhas de um bazar em Marrakech durante a Copa do Mundo de 2006.

Aliás, imprescindível levar na mala um estoque de presentinhos verdes e amarelos nessas viagens de produção. Impressionante como essa gentileza abre portas! (É o que na seara das relações internacionais se chama de soft power: a habilidade de persuadir os outros a fazerem o que você quer que eles façam, através de atração e recompensas.)

Recém-chegada nos esteites, se eu avistasse alguém vestindo a inconfundível camisa da seleção corria para abraçar! Queria tocar, beijar, falar português, dar um balãozinho na saudade…

Imigrante brasileiro que se preze coloca o filho em escolinha de futebol (muitas dirigidas por jogadores veteranos daqui). É uma maneira de ensinar o idioma, a ginga e quem sabe conquistar uma bolsa de estudos numa universidade americana. Comunidade brasileira que se preze tem a bendita pelada do fim do dia ou da semana. Apesar do festival de baixarias que rola em campo (afinal os jogadores são de diferentes estados ou de times rivais), a pelada funciona como um boca-a-boca de anúncios classificados: dá para arrumar emprego, vaga em apartamento, um carro usado.

Os Estados Unidos também tentam, meio que em vão, popularizar o futebol por lá. Desde os anos 70, quando o Cosmos levou o Pelé. Em LA o Galaxy investiu alto e contratou David Beckham. Fui a uma partida pronta para torcer para os gringos do Galaxy, mas acabei migrando para a arquibancada do Chivas USA, que é uma equipe com raízes latinas, com uma hinchada mais caliente e genuína.

No entanto, nada se compara a ver um jogo num templo do futebol brasileiro, mais precisamente num estádio localizado à beira-rio…

É um privilégio.

Enquanto isso, em outro cantinho do planeta há quem corra grandes riscos em nome do futebol. É o caso das iranianas. Elas são proibidas pelas rigorosas leis islâmicas de frequentar espaços predominantemente masculinos – mesmo assim, insistem em pertencer. O belíssimo e singelo “Fora do Jogo” (Offside, de 2006) de Jafar Panahi narra a saga de mulheres iranianas que se disfarçam de homens para entrar no Estádio Azadi. Ironicamente, azadi significa liberdade em persa.

(Parêntese: em inglês offside se refere à regra do impedimento. Ironicamente, hoje é o cineasta Panahi que tem sua liberdade tolhida. Ele está impedido de sair do Irã e de trabalhar durante 20 anos, acusado de agir contra a segurança nacional e fazer propaganda contra o regime.)

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Tem um personagem que não pertence a ninguém nessa história. É a bola.

Não entendo por que garotos de todas as idades gastam saliva descrevendo (talento que só eles têm) com detalhes precisos, cinematográficos até, os gols que pensam que marcaram. Habilidade do artilheiro? Falha do goleiro? Comentaristas, técnicos, jogadores teorizam sobre a origem do gol. E esquecem que quem manda é ela… Ela é dona da sua vontade. Para virar um craque o cara tem que saber encantá-la.

E a prova está aqui: o genial Carlos Drummond de Andrade torcendo pela vitória na Copa de 70.

Bolinha minha, meu amigo redondo, suplico-te: não deixes a Copa ficar com a Britânia ou outra qualquer nação que dela não precisa como precisamos nós. Faze o seguinte: se nossos atletas não derem tudo que têm obrigação de dar, assume por ti mesma o ataque, vai em frente e, sozinha, ganha para nós, esse terceiro campeonato.