Sem Receita

Que luxo ouvir um poema da boca do poeta! Da poetisa, no caso.

Foi o que vivi, dia desses, na Feira do Livro de Porto Alegre. Ouvi Alice Ruiz declamando “Sem Receita”. A inspiração não marca hora: Alice preparava um frango e narrava o passo-a-passo em voz alta quando percebeu que estava cozinhando um poema .

E o que sai da cozinha não é mesmo pura poesia?

Para minha chef favorita, a Maia.

Primeiro lenta e precisamente
Arranca-se a pele
Esse limite da matéria
Mas a das asas, melhor deixar
Pois se agarra à carne
Como se ainda fossem voar
As coxas soltas
Soltas e firmes
Devem ser abertas
E abertas vão estar
E o peito nu
Com sua carne branca
Nem lembrar
A proximidade do coração
Esse não!
Quem pode saber
Como se tempera o coração…

Limpa-se as vísceras
Reserva-se os miúdos
Pra acompanhar
Escolhe-se as ervas, espalha-se o sal
Acende-se o fogo, marca-se o tempo
E por fim de recheio
A inocente maçã
Que tão doce me deleita
Nos tirou do paraíso
E nos fez assim, sem receita.

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Do diário da motocicleta

O melhor da viagem não está necessariamente no destino. O destino pode ser apenas uma mera desculpa –  e o trajeto, o melhor motivo – para colocar os pés na estrada. Viajar de moto, eu aprendi com o Gringo, é assim.

Volta-e-meia ele me convida para um bate-e-volta. Na sexta de noite avisou: “Amanhã abrimos os olhos e vamos a Morro Reuter”. E eu, que não refugo uma aventura por nada neste mundo, topei na hora!

Morro Reuter fica a 60 km de Porto Alegre, seguindo pela BR 116 (faz parte da “Rota Romântica”). Nossa primeira parada para esticar as pernas e atiçar a vista é no Belvedere (no km 218), de onde enxergamos o Vale do Rio dos Sinos e a vizinha Dois Irmãos pequeninhos lá embaixo.

A estrada, a propósito, vai ficando cada vez mais sinuosa a essa altura (sem emoção, que graça teria?), mas é extremamente bem sinalizada e conservada.

No começo da tarde a siesta dos morro-reutenses foi sacudida pelo suave ronco da Trovoada – a moto do Gringo. A cidade pequena impressiona pelo capricho nas ruas e nas casas, uma boa amostra da qualidade de vida de que tanto se orgulha Morro Reuter. É dela um dos maiores índices de alfabetização do Brasil (98,4%, segundo a prefeitura), façanha celebrada pelo Obelisco de Livros, próximo ao pórtico de entrada.

O almoço é no Wolf, restaurante que fica num casarão estilo enxaimel e que serve um banquete de iguarias da culinária alemã.

Sopa de legumes, buffet de saladas e doces, dúzias de pratinhos quentes sobre a mesa e o garçom oferecendo diversos cortes de carne assada no forno a lenha (por onde começamos?), tudo preparado em panelas de ferro pela família do Heitor, que não gosta de ser chamado de “senhor”.

O restaurante só funciona sábado e domingo. Os outros dias Heitor dedica a “mosaiquear”. É que as paredes do imenso salão são cobertas de mosaicos feitos por ele.

A parada de ônibus em frente ao restaurante também é, uma obra de arte colorindo o  caminho.  

Heitor adora contar de onde vem a inspiração para cada desenho – um papo demorado com os moradores do local é uma das delícias de cada viagem, não é?

Seguimos pela zona rural de Morro Reuter, pela VRS 873.

Ganhamos a estrada, enquanto os vilarejos lá embaixo continuam perdendo tamanho. Enchemos os olhos de verde e de horizonte, e os pulmões com um ar cada vez mais geladinho.

Paramos no Edelweiss Atelier e pronto: achei mais um lugar onde eu poderia ficar para todo o sempre!

A casa construída no topo das montanhas tem um vale inteirinho como pátio. A artista plástica Lenira Siegle colocou umas mesinhas na varanda onde é possível fazer um happy hour. Com uma delicadeza très chic, mantas de lã descansam sobre as cadeiras pra aquecer a chegada da noite.

Lá dentro há um sem fim de belezinhas. Obras de arte (ela faz peças de madeira e terracota) dividem as prateleiras com antiguidades e objetos decorativos.

(Parêntese. Uma das desvantagens de viajar de motocicleta é que não dá para ter vontade de comprar nada… Ou seria isso uma vantagem? Outro “problema” é que na garupa, com o capacete, passo muito tempo só pensando, e não consigo decidir se isso é bom ou ruim.)

Morro Reuter é endereço de vários ateliers – há um roteiro pela VRS 873 batizado de Caminho das Artes. Totalmente compreensível, pois o cenário deslumbrante deve inspirar até as almas sem um pingo de talento.

A estrada sobe-e-desce cercada por casinhas dos tempos da colônia. E as casinhas são cercadas por gramados que mais parecem tapetes! É uma pintura com um colorido acentuado pelo Sol da primavera antecipada.

Depois de mais alguns quilômetros chegamos a São José do Herval. O Gringo, que conhece bem meu gosto por coisinhas antigas, acertou em cheio ao me levar no Armazém Kieling, a atração dessa localidade.

Homens discutindo futebol e bebendo cerveja. Cena comum em qualquer boteco deste Brasil, certo? Mas este não é um “boteco qualquer”.

O Kielings Haus funciona há gerações num casarão construído entre 1869 e 1879 (dizem que ninguém sabe a data ao certo). Baleiros enormes, armários de madeira de vão do teto ao chão, uma mesa para jogar bolão. Sabe aqueles bares da moda decorados com relíquias? Mais ou menos assim, só que no Kielings Haus tudo é original. Debruçados no balcão, os fregueses praguejavam contra Inter e Grêmio num misto de português com alemão, com um sotaque carregadíssimo!

Foi quando percebemos que o dia chegava ao fim –  mas o nosso roteiro, não… Viagem boa é mesmo assim, nos deixa cheios de “quero mais!”.

Se te entusiasmaste, o Grupo Turismo em Morro Reuter tem um guia com sugestões de programas bacanas e as atrações das redondezas – o mapa é uma graça, ilustrado com desenhos feitos por crianças da cidade.

Ah, falando em desenho… Trovoada vai virar arte! Gringo prometeu pro Heitor uma bela foto da moto, que servirá de modelo para um mosaico.

Boa desculpa para voltar lá. Como se fosse preciso mais alguma.

😉

PS: Para os aventureiros, nossa viagem aos cânions Itaimbezinho e Fortaleza está registrada neste texto. Uma viagem bem do tipo “quero mais!”.

Não tem perdida

Fim de tarde, de volta a Porto Alegre, mortos de cansaço (mas de cansaço “dos bons”), estamos num dos nossos botecos preferidos para encerrar o fim de semana com uma bela cerveja artesanal. Pergunto pro garçom, um beer somelier, por que raios não tem Conti Bier no cardápio. “Conti!?!” ele reage surpreso, querendo contar como conheceu essa cerveja ralinha, aguadinha, espumosa. “Duvido que a tua história seja melhor que a nossa”, respondo. De fato, não era.

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Bastou seguir por um atalho equivocado e a viagem entre Porto Alegre e Cambará do Sul ficou uma hora mais longa. (Foi então que entendi o aperto por que passam os competidores do meu reality show favorito, “The Amazing Race”: é muito fácil se perder e se atrasar para a próxima tarefa, sobretudo no caso deles, viajando mundo afora.) Passava das 11 da noite quando chegamos à pousada. Janete, que dormia sentada nos esperando, avisa que dificilmente encontraríamos onde jantar. “Aqui tudo fecha às dez!” Decidimos arriscar.

Com todo o devido respeito a Cambará do Sul, lá não faz muita diferença se hospedar no campo ou na cidade… A algumas quadras da nossa pousada na “zona rural” já estávamos no centro. Nossa salvação estava do outro lado da igreja, em frente à praça: Pizza Retrô!

Móveis antigos, paredes coloridas, vitrola funcionando, uma coleção de discos, gente bacana e uma pizza fa-bu-lo-sa. Tinha tudo o que precisávamos, exceto… Exceto a cerveja. “Acabou nosso estoque”, disse o garçom, meio sem jeito. No problemo. Gringo pega emprestado dois cascos e vai no bar da esquina. O lugar era um inferninho onde só havia a tal Conti – um freezer lotado! Fazer o quê? Brindar, ao som de um vinil de Tina e Ike Turner, como se fosse a última birra dos Campos de Cima da Serra.

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No sábado de manhã os patos avisam que é hora do café – com pão de banana e doce de leite caseiros. Mate cevado, lá vamos nós conhecer o Cânion Itaimbezinho. São 18 km de estrada de chão até o Parque Nacional Aparados da Serra. Nele é possível fazer duas trilhas: a do Cotovelo e a do Vértice. Seguindo a recomendação de um guia local começamos pela mais longa, a do Cotovelo. São três horas de caminhada “round trip”.

Eu queria ter um mapa, um guia que mostrasse precisamente como chegar aonde, e que me desse informações enciclopédicas sobre o que eu estava vendo. Mas não tínhamos. No entanto, o percurso é bem sinalizado; uma trilha fácil, plana, cercada por samambaias e araucárias.

Gringo faz milagres com as camerinhas, mas acho que não tem fotografia que traduza a grandeza e a beleza do que nos aguardava no fim do caminho.

O nome vem do tupi-guarani: ita (pedra) e aimbé (afiada). Aqui o paredão tem 720 metros de altura – é como se estivéssemos no topo de um prédio de 240 andares. Lá embaixo enxergamos o Rio do Boi, que pertence a Santa Catarina. Dizem que a caminhada pelo rio, no interior do cânion, é inesquecível. Ficou na “to do list”.

A trilha do Vértice é a mais popular entre os turistas (são 50 mil visitantes por ano no Aparados da Serra). A caminhada dura cerca de uma hora e o que se vê, como as cachoeiras banhando os paredões, é digno de cartão postal.  

O passeio pela chamada “parte alta” do cânion pode ser feito em um turno.

Como ainda tínhamos muita tarde pela frente seguimos a dica da Janete, a dona da pousada, e fomos a Jaquirana.

A cidadezinha fica do lado de Cambará do Sul. Uma estrada de chão nos leva à Cachoeira dos Venâncios. É uma jóia escondida dentro de uma propriedade particular: o Rio Camisas desce por degraus imensos formando quatro quedas; cada uma delas é cercada por lajes que nos permitem ver as cascatas de um ângulo privilegiado.

E quando a gente pensa que já se maravilhou o suficiente, eis que surge o Tio Gripa! Ele fica sentadito, bebericando e tocando sua gaita num canto do Galpão Costaneira.

O restaurante serve comida tropeira num bufê de panelas de ferro. Feijão mexido, carne de panela, polenta, mandioca cozida “se desmanchando”. Jantar farto: estávamos “podendo”, depois de uma tarde com os pés na trilha. Comemos despacito, enganando o cansaço (um daqueles “cansaços dos bons”) para apreciar a música do Tio Gripa.

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O domingo começou cedinho, pois queríamos mais aventura antes da viagem de volta. Janete nos sugere visitar o Cânion Fortaleza. Ela mostra o caminho numa fotografia, uma vista aérea da cidade; anoto algumas instruções tipo dobra aqui, segue por tantos quilômetros de chão até ali… “Não tem perdida”, ela garante, “não tem perdida”. Então, tá bem…

Mate cevado, pão de banana na mochila, partimos confiando no caminho que vem sendo transmitido boca a boca por gerações. As dicas da Janete combinam com as do guarda na entrada do Parque Nacional da Serra Geral. Estaciona na porteira, caminha tantos metros, passa sobre a ponte, segue pela beira do rio. “Não tem perdida”, lembramos. E, de fato, não tinha.

O Cânion Fortaleza é mais intocado que o Itaimbezinho, mais “roots”, como diz o Gringo. Nada de placas indicando caminho. Nenhuma cerca te separa da beirinha do penhasco, que em alguns pontos chega a ter 900 metros! O movimento de turistas é menor, talvez pelo esforço que as trilhas exigem. Subimos pela Trilha do Mirante. Do topo, em dias claros, se avista o litoral. Passeamos entre as nuvens. Perdemos o fôlego, não por causa da escalada morro acima, mas por causa da imensidão da paisagem.

Ai, que coisa mais clichê se deter a pensar na vida num lugar desses! Mas o contrário seria absurdamente impossível…

Fortaleza, eu acho, é um nome mais que apropriado. O cânion me transmite constância, perenidade – e serenidade. A vida nele independe de resoluções da ONU, de altas em bolsas de valores, de alguma descoberta da ciência ou revolução industrial. (Queria, em certas horas, ter um cânion dentro de mim.)

A Trilha da Cachoeira do Tigre Preto é mais curta, mais acessível – mas com suas peculiaridades. Para enxergar a cachoeira é preciso atravessar o rio pulando pelo caminho improvisado nas pedras, a alguns metros da queda. Sem emoção, que graça tem?

A trilha acaba na Pedra do Segredo, como foram batizadas as duas rochas que se equilibram à sombra do paredão. (Observando as fotografias, mais tarde, juro que enxergo a silueta de um macaco nas pedras!) Insisto com o Gringo para matarmos a sede num riacho, pois uma vez ouvi que para voltar num local é preciso beber de sua água.

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Não fosse pelo atraso na chegada em Cambará do Sul, nosso jantar naquela sexta-feira teria sido convencional. Com uma pizza unicamente delish (ainda volto para experimentar a de pinhão e a de strogonoff de charque), mas com a cervejinha comum de cada noite.

O Itaimbezinho é lindo, organizado, acessível. Talvez acessível demais… Vale a visita, é claro! Mas poucas sensações se comparam à de caminhar linda e solta pelo Cânion Fortaleza, de espiar lá na beirinha do penhasco e chegar quase até a porta do céu.

Deixo o Fortaleza me contradizendo. Não quero mapa, não quero um manual de instruções, não quero saber muito além daquilo que meus olhos vêem. Não tem perdida: às vezes o melhor da vida está escondido num caminho errado, numa viagem sem roteiro.

Sobre o tempo e sobre as coxas

Rapidinho, para que o final deste texto faça sentido.

Take for granted. É uma daquelas expressões idiomáticas super eficientes do inglês que dizem muito com poucas palavras. Busquei uma tradução objetiva – achei várias opções. Presumir. Considerar verdadeiro. Antecipar. Subestimar o valor. Dar por garantido. Significa algo ou alguém que presumimos ter para sempre, cujo valor só percebemos quando esse algo ou alguém nos falta.

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Foi muito estranho rever, pela internet, o prédio que chamei de “casa” nos meus últimos meses em Los Angeles. Pelo Google Earth pude refazer o mesmo caminho de tantas manhãs, até a esquina movimentada, passando pelo viaduto, pela mecânica. Na direção oeste, uns minutinhos mais e eu estaria na praia. Indo pro norte, em meia hora chegaria no trabalho. Estranho perceber que fiquei tanto tempo desgarrada. Como foi possível?

Durante a década e tanto em que fui imigrante tinha plena consciência de que me dividia em dois mundos: o dos esteites (da vida cotidiana), e o “universo paralelo” que passou a representar o Brasil (o mundo das celebrações, dos sabores, dos abraços e das saudades). É esse “portal” que meu irmão Yuri, expatriado para a Rússia, descobre agora.

Uma noite dessas vi um filme com a Tamara. A mocinha largava a pacata vida no interior para tentar a sorte em Los Angeles e tudo começava com aquela típica colagem de imagens dos cartões-postais da cidade. Maia me pergunta: “Não dá saudades?”.

Aliás, volta e meia me perguntam se já me adaptei à vida no Brasil. Não tem uma resposta simples, do tipo sim ou não.

Sinto falta de algumas coisas pequenas, mundanas: a meia-calça que não tem elástico apertando na cintura (e que não encontro aqui); meu colchão que nem era colchão mas uma mousse de esponja; as lojas de ponta de estoque com Calvin Klein a 50 dólares.

Também era uma delícia fazer compras no Trader Joe’s, um ícone da vida descolada e ainda hippie californiana. Para entender procurem no jutube o video “If I Made a Commercial for Trader Joe’s”, um passeio pelo mercado ao som de uma versão bem peculiar de “Águas de Março”.

Nesta época o Hollywood Bowl deve estar lotado toda a semana –a temporada de concertos de verão era meu programa favorito em L.A.! O Hollywood Bowl é um anfiteatro com capacidade para 17 mil pessoas, onde cantaram dos Beatles a Gal Costa. A gente levava piquenique e o veneno de sua escolha. Uma vez, empolgadíssimos num show do Jorge Benjor, eu e meu velho amigo Edu descemos e subimos as escadarias do anfiteatro carregando uma enorme bandeira do Brasil (minha canga, prá dizer a verdade, que aparece na foto ao lado com Papi e Mami no Bowl). Fiasco pouco, graça não tem.

A vida nos esteites tem algumas facilidades que a gente bem podia copiar. Para alugar um apartamento basta escolher o local onde você quer morar e negociar com o manager (uma espécie de zelador/síndico). Com documentação à mão, um cheque-fiança ou um bom credit score dá prá fazer a mudança no mesmo dia! Não tem essa peregrinação de ir na imobiliária-pegar chave-visitar o apartamento-voltar na imobiliária…

Lá qualquer deslize dói no bolso. Exemplo: nos meus primeiros dias em L.A. fui a um parque, lindo, perto de casa. Na área de piquenique tinha uma festa de aniversário de latinos com direito a piñata, carne assada, futebol. Pensei com meus botões, cheia de pré-conceitos: “Imagina a bagunça que vão deixar”. Horas mais tarde, nem um palito no chão! Experimenta descuidar de um bem público (grifo no público, no que é seu e meu) para ver quanto custa…

É estranho como funciona nosso cérebro. Volta e meia sinto como um curto-circuito e por um milissegundo tenho a impressão que ando pelas ruas de Los Angeles, em função de alguma das tarefas a que estava acostumada. Me pergunto por onde anda o carrinho que me acompanhou durante tantos anos, um hondinha preto super assediado (encontrava muitos bilhetes no pára-brisa, “If you want to sell this car call me”). Será que o hibiscus e a floribunda continuam florindo?

Mentiria se dissesse que não fui feliz, e é chato perceber que talvez eu nunca mais veja algumas pessoas que cruzaram meu caminho por lá. Mas trocaria, como fiz, tudo isso pela oportunidade de voltar. Num milissegundo.

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“Fritura a essa hora?”, ele me olha incrédulo, sabendo da minha eterna briga contra a balança. Era manhã cedo e tomávamos café num bar à beira da estrada. Eu continuei saboreando a coxinha. Concentradíssima.

Depois da longa década em que o jejum de coxinhas de galinha era quebrado somente uma ou duas vezes por ano estou empenhada em experimentar to-das. É um dos meus quitutes preferidos.

A vida no Brasil tem alguns luxos inimitáveis. Como passar na padaria da esquina e comprar uma coxinha, uma empadinha de “massa podre”, ou um pãozinho “recém-saído”.

Pedir palpite na frente do espelho: “Tô bem assim?”. Poder ligar prás amigas e combinar um mate ou um chopp para daqui a quinze minutos é um privilégio! É bom, muito bom, voltar a “pertencer”.

Colocar um “capaz” em qualquer lugar da frase, com qualquer conotação, e não precisar traduzir. Sério. Essa “tradução” dá um trabalho…

Aqui tem área de serviço nos apartamentos! Com tanque! E varal! É um luxo, sabia?

Tem o cafezinho na sala de espera, ou depois das refeições.

Fico encantada com a gentileza das pessoas, e com a modernidade de muitos serviços. Como as máquinas para passar cartão que te trazem na mesa nos restaurantes. Fui no Correio: senha para ser chamada, cadeiras para esperar, e um atendimento eficientíssimo. Para recarregar o cartão Tri, do transporte público, vou ao imenso saguão de um prédio histórico no centro de Porto Alegre, encaro uma fila que é longa mas sou recebida com um sorriso ao som de uma música lounge, e entro-e-saio em menos de cinco minutos!

Agora posso subir num ônibus e ir torcer pelo meu time no Beira-Rio. Algumas horas a bordo de outro ônibus e posso passear pela Avenida Agraciada, que é meu programa favorito na fronteira (na foto, Maia, Yuri e eu em Rivera).

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É estranho como funciona nosso cérebro. Volta e meia sinto como um curto-circuito e por um milissegundo tenho a impressão que devo aproveitar para devorar logo aquela feijoada, dar uma derradeira voltinha no Brique da Redenção… E então lembro que não há urgência. Que o Brasil não é mais apenas meu “universo paralelo”. Me sobra tempo para descobrir onde estão as melhores coxinhas de galinha.

Já descobri o que não deveria ter descoberto: que no “burguesão” no Campus do Vale da UFRGS (onde estudo) tem buffet de salgadinhos durante o café da tarde. Uma tentação assim deveria ser proibida! A coxinha, dessas tamanho coquetel, é delish

Provei a do Natalício, que dizem ser “a melhor da cidade”. Muito barulho por nada: grande, seca, pelo tamanho merecia mais catupiry no recheio.

O top do ranking continua com a da Casa da Cucas, em Barra do Ribeiro, com massa feita de batata.

E assim os sabores e os abraços que eu costumava take for granted voltam a fazer parte da vida. Às vezes parece que nunca saí daqui. Às vezes vejo que ainda falta reaprender muito. Como lembra o título deste blog, o caminho para casa é longo.

As melhores receitas do planeta

Tô roubando a frase que o Cesar Augusto usou numa reportagem. “Não sei se isso diminui ou aumenta a saudade.” Ele se referia à música, eu me refiro a tudo.

Lembro da minha felicidade, com alguns meses de Estados Unidos, ao encontrar um vidro de palmito no supermercado. E que ginástica que a gente fazia para tentar imitar os sabores do Brasil! Prá fazer pastel? Usa a massa de rolinho primavera dos chineses! Erva mate? Tenta a argentina. Requeijão? Tem nos mercadinhos israelenses, bem parecido.

Pros recém-chegados, as “noites brasileiras” em algum bar da cidade servem como alento e desabafatório. É onde a gente encontra gente que está no mesmo barco. O primeiro contato de quem se conhece lá fora parece prosa de presidiário: há quanto tempo tá aqui, tá aqui por quê, quanto falta prá sair…

Mas migrar é como enfiar o pé numa areia movediça (“um dia eu volto, ano que vem eu volto”, são as promessas que mais se escuta), e em seguida quem mora fora tem que ser mais agressivo na reinvenção do seu cotidiano. Meus pais perceberam isso: todo mês aparecia uma generosa caixa dos Correios do Brasil, recheada de bombons, temperinhos, sabonetes, calcinhas e notícias. Notícias em bilhetes, fotos, revistas e jornais. Naquela época a internet ainda engatinhava, e que alegria era tomar um chimarrão no fim de semana folheando recortes da Zero Hora…  Exagero? Tinha gente que alugava fitas VHS com capítulos de novelas!

Em mais de uma década lá fora vi as coisas evoluindo pros imigrantes, o comércio da saudade crescendo. Passei a frequentar um mercado latino que tinha corredores decorados com bandeiras de países. Productos brasileños acá – centroamericanos allá. Ficou mais fácil encontrar raridades: se quiser picanha é só pedir pro açougueiro que ele corta, e tem queijo catupiry, creme de leite, café de verdade (vamos combinar, os americanos tomam “chafé”),  forminhas pra docinhos, azeite de dendê, pequi em conserva.

Pequi em conserva? Sim, pequi é iguaria que os goianos não vivem sem. Outro privilégio de viver no exterior é conhecer um Brasil que eu provavelmente não conheceria se tivesse ficado por estes pagos. Na produção e reportagem do “Planeta Brasil”, programa sobre brasileiros no exterior, abracei gente e experimentei quitutes de todo o país. O Frango com Pequi é uma delícia! Saboreado ao som de uma moda de viola, como foi durante a reportagem numa casa ao norte de San Francisco, então… Ganhei alguns quilos sem culpa. Em cada casa de imigrante nossa equipe era sempre esperada com esse carinho gastronômico, do pão de queijo ao carreteiro à tapioca ao doce de jaca em conserva.

A verdade é que não sei se isso facilita ou dificulta a adaptação ao outro país, se alivia a saudade e a distância ou só aumenta a vontade de estar em casa. Na dúvida, sempre dei um jeito de engrossar meu livro de receitas.

Quando nos receberam para contar sua história de amor em San Diego (sul da Califórnia), Beto e Márcia prepararam um café da manhã de dar inveja a qualquer hotel cinco estrelas. Lá provei o Bolo de Banana com Chocolate – que leva um pouco da Bahia prá qualquer canto do planeta.

4 ovos
1 xícara (chá) de azeite
6 bananas nanicas
2 xícara (chá) farinha de rosca
1 colher (sopa) fermento em pó
2 xícara (chá) de açúcar
1 xícara (chá) achocolatado em pó
1 colher (chá) de canela em pó

Bater tudo no liquidificador; colocar a massa numa forma untada com azeite e uma mistura de canela com açúcar. Forno por 45 minutos.