Cadê teu voto?

Senti uma pontinha de ciúmes da caminhada que vi domingo pela manhã no Brique da Redenção.

Eu sei o quanto é gostoso participar de uma passeata, um protesto ou um comício com convicção – como as pessoas que seguiam aqueles candidatos. Sei como é bom fazer coro a palavras de ordem de rima pobre, acreditar piamente num projeto.

Fiquei enciumada porque nestas eleições municipais não tem ninguém que me desperte, assim, uma paixão avassaladora… Ninguém que, como em algumas eleições anteriores, me deixe louca de vontade de ficar rouca de gritar, ou sem pena de perder amigos temporariamente com meu lero-lero sobre ativismo cívico-político e tal. Mas isso não diminui meu entusiasmo.

Gosto de ver e escutar os programas do horário eleitoral gratuito – embora às vezes me canse a retórica piegas e o desfile de “candidatos” que não consigo definir se são oportunistas ou debochados mesmo.

Adoro discutir política no café da manhã ou numa mesa de bar como se entendêssemos profundamente do assunto. 😉

(Não sei se chega a ser preocupante, mas dia desses me peguei sussurrando no ouvido do namorado: “Gruda em mim que nem jingle de campanha”.)

 

Logo no início dessa campanha um movimento que apareceu nas redes sociais da Internet me chocou: era um movimento pela derrubada de cavaletes com a propaganda de candidatos. Em tempos de “mensalão” é totalmente compreensível que haja uma desilusão com nossos políticos. Mas achei a ideia simplesmente estúpida.

Ao invés de errar o alvo e sabotar o debate, não seria melhor escolher a urna como o local para resolver o problema com algum candidato ou partido? Aliás, podemos e devemos votar e protestar também com a carteira, com o controle remoto…

Também não entendi quando apareceu gente querendo banir a campanha das redes sociais. Quer um veículo mais clean e ecologicamente correto para discutir política? Não gostou? De-le-ta. Mas depois não venha querendo pregar o “Veta Dilma” ou reclamar que “esse é o Brasil”.

Não entendi por que querer excluir a discussão política da Internet, que hoje é uma extensão natural da nossa vida social. A pequena Isadora, ao criar uma página no Facebook para denunciar as péssimas condições da sua escola, demonstrou como o clique de um mouse nos faz poderosos. 

É apenas um exemplo.

Tenho estudado como a Internet e suas redes sociais se transformaram em ferramentas para o protagonismo político e mudaram as relações de poder. “No meio do século XX as pessoas temiam que os computadores e as comunicações da atual Revolução da Informática criassem um governo centralizador e controlador como o dramatizado na novela ‘1984’ de George Orwell”, diz Joseph Nye, um dos mestres das Relações Internacionais que moram na minha mesinha de cabeceira. “No entanto, ao contrário, com a redução do custo dos computadores e do tamanho dos aparelhos portáteis, o efeito descentralizador ultrapassou o poder centralizado”.

E isso mesmo dentro de Estados que lideram o ranking de “centralizadores”.

Foi via Internet que cidadãos de países árabes se mobilizaram para desestabilizar governos e derrubar ditadores e tentar reconstruir democraticamente sua história.

Blogs, Twitter, Facebook e YouTube foram instrumentais para a articulação do movimento que contestou as eleições presidenciais no Irã em 2009, um movimento conduzido pelas palavras de ordem “Cadê Meu Voto?”. Eu era correspondente da Globo News em Los Angeles, e lá cobri a repercussão do Movimento Verde entre os expatriados iranianos. Eles acompanhavam tudo, minuto a minuto, via redes sociais. Mais que conectar os iranianos, a Internet ajudou a mostrar para o mundo o que o governo certamente preferiria ocultar. (Aliás, “reconhecendo o papel que estamos desempenhando como uma ferramenta de comunicação no Irã”, como explicava o blog da empresa na época, o Twitter chegou a alterar uma manutenção rotineira que indisponibiliza o serviço durante algumas horas para evitar prejuízo aos manifestantes.)

 

Numa era de fronteiras estreitadas graças à tecnologia, que o drama de outros povos nos sirva, no mínimo, de estímulo para apreciar nossa democracia. Ainda há quem perca a liberdade, ou a vida, brigando pelo direito de escolher seus governantes – o voto, que no Brasil é consolidado.

Como nos conta a imagem da vovó fofa que peguei emprestada do Huffington Post.

No Afeganistão os eleitores têm o dedo indicador pintado para evitar fraude – evitar que se vote mais de uma vez. O problema é que os talibãs ainda têm problemas com a democracia e volta e meia cortam o dedo de quem votou. Para tentar coibir, intimidar, aterrorizar. Mesmo assim, correndo riscos, a vovó fofa foi às urnas!

Se der preguiça na hora de votar, lembra: tem muita gente mundo afora com ciúmes da gente.

E tu, o que te motiva nestas eleições?

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“Human beings are members of a whole,
In creation of one essence and soul.
If one member is afflicted with pain,
Other members uneasy will remain.
If you have no sympathy for human pain,
The name of human you cannot retain.”

(Do poeta persa Saadi: seres humanos são parte de um todo; se um membro sofre os outros sentem a mesma dor. Está lá no prédio da ONU, em Nova York. Very fitting.)

☪☮e✡is✝

Nunca Más: os netos recuperados

Show do U2 não é simplesmente um show, é também um comício. As bandeiras que Bono Vox leva para o palco inquietam e chegam até a provocar uma certa dor na consciência pela pequena fortuna investida no ingresso – não seria melhor doar o dinheiro para uma das causas humanitárias abraçadas pela banda?

Buenos Aires, estádio do River Plate. Nos primeiros acordes de “One” Bono chama para o palco as Madres de la Plaza de Mayo. Emocionante? Sim, sin duda. As Madres, uma instituição da recente história da Argentina, haviam virado pop? Sim também, se necessário, pois toda exposição é benvinda. Pense bem: quantos ao meu redor, naquela multidão que lotava o River Plate, poderiam ser filhos dos jovens desaparecidos durante a ditadura militar, os netos procurados?

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“(…) Yo, hace viente años, dice: en el dia de mañana nuestros nietos serán adultos y van a buscarnos. (…) Ahora son hombres y mujeres que dudan, tocan el timbre y preguntan ‘seré nieto de ustedes? quiero saber’.”

O depoimento de Estela Carlotto, presidente da ong Abuelas de la Plaza de Mayo, sintetiza de que se trata o documentário “¿Quién soy yo?”, de Estela Bravo. É uma compilação de histórias comoventes como a de Horacio Pietragalla.

Ele cresceu como Cesar Castillo. Na adolescência passou a desconfiar que seria adotado – ele não percebia semelhanças, nem físicas nem de caráter, com os pais. Ao conhecer o trabalho das Abuelas começou a ligar os pontinhos: a mãe adotiva trabalhara como doméstica na casa de um militar, e isso era uma grande pista. Quando a namorada descobriu no site da ong a foto de uma jovem com um bebê, os dois parecidíssimos com Horacio, foram as dúvidas que desapareceram.

Horacio foi bater na porta das Abuelas. Depois de uma rápida mas precisa averiguação recebeu um título: “nieto recuperado numero 75”. Ele recuperou os laços familiares e ouviu histórias sobre seus pais. A mãe, Liliana Corti, foi assassinada pela repressão quando ele tinha cinco meses; do pai herdou o nome e os quase dois metros de altura.

A expressão “requinte de crueldade” pode ser clichê, mas não vejo outra forma de descrever o que a ditadura que castigou a Argentina entre 1976 e 1983 fez com os filhos dos prisioneiros políticos. Crianças foram sequestradas; bebês foram tomados das mães, presas, logo após o parto. Cerca de 500, todos entregues a um sistema de adoção clandestino.

A associação das Abuelas surgiu em 1978 dentro da organização das Madres de la Plaza de Mayo com o objetivo de localizar as crianças vitimadas pela repressão. Depois de anos batendo e porta em porta, peregrinando em busca de pistas sobre os filhos e os netos, hoje as abuelas são frequentemente surpreendidas por jovens que querem descobrir sua verdadeira origem, bem como um dia previu Estela de Carlotto. (Ela, a propósito, ainda procura pelo neto. O corpo da filha sequestrada em 1977, grávida de três meses, Estela conseguiu enterrar – “casi un privilegio”, leio numa reportagem sobre o caso.)

O Ministério da Justiça argentino atribui à Comisión Nacional por el Derecho a la Identidad (CoNaDI) a função de amparar o empenho das Abuelas. Se a investigação através de documentos não convence, os supostos nietos y nietas podem averiguar sua identidade consultando o Banco Nacional de Datos Genéticos (BNDG), que tem amostras de DNA de todas as famílias que buscam por seus desaparecidos (foi um exame assim que Horacio Pietragalla fez).

Tropecei no documentário “¿Quién soy yo?” depois de ler o blog da jornalista gaúcha Gisele Teixeira, que mora em Buenos Aires. No blog da Gisele soube das celebrações pela descoberta do “neto número 101”, e conheci tantas outras maneiras como os argentinos mantêm viva – embora cheia de remendos – essa dolorosa história.

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“Well, it’s too late, tonight, to drag the past out into the light.”

Assim cantava Bono Vox naquele distante mês de maio, no show em Buenos Aires. Atrás dele madres y abuelas andavam em círculos, repetindo no palco a coreografia que há mais de três décadas levam para a praça em frente ao palácio da presidência. Insistindo em contrariar a canção, teimando em iluminar o passado.