#amídianãomostra – um rap

Tu me dizes #amídianãomostra

A mídia não ouve, não vê

Só fala o que bem entender

Isso dói como uma paulada

#chateada

Penso nos colegas nas redações

Que viram noite, varam madrugadas

Em busca de fatos e n opiniões

Ponto e contraponto

Verso e reverso e inverso

Imparcialidade

Para que tu decidas a tua verdade

Que não é absoluta – apenas mais uma versão

Mas… não.

#amídianãomostra

Contar histórias,

Ou como disse o Geneton,

“Criar memórias”

Essa é minha paixão.

Eu sei que meu rap é tosco

Não sou Vinícius, Jobim ou Bosco

Mas várias versões eu busco

O contrário seria

Preguiça errado injusto

Ctrl+c

Ctrl+v

Como ignorar o beat

Das ruas e das redes

E ficar no auto-repeat?

Como ignorar a sede

de participação?

Como não ecoar o “prosumer”

Que hoje mais produz que consome

Informação?

Entrevistamos grevista motorista patrão

goleiro vazado

artilheiro premiado

doméstica lojista vítima e até ladrão –

tanta gente que num verso cabe não.

Por quantas ruas andei

quanta saliva gastei

a quanto amor renunciei

de quanta pedra e bomba de gás escapei

por causa da notícia?

(Até parei na mão da polícia…)

Mas… não.

#amídianãomostra

é a tua aposta

#prontofalei

Mas, ei!

Eu tô nessa pauta!

Vai ver que quando mostrei

Tu estavas em outro canal

Lendo outro jornal

Pulando Gal num Carnaval (ah, não! “isso faz mal!”)

Ou assistindo a um thriller policial

Pior cego é o que não quer ler

Pior surdo é o que não quer escutar

Me dizes #amídianãomostra

Soa tão “ontem”, tão infeliz

Pena que tu insistas

Em achar

Que eu, jornalista

Só vi a banda passar –

E nada fiz.

ativismo

Em Los Angeles, mostrando as manifestações contra as guerras do governo Bush

Porto, alegre-se!

Me arrepiei.

Era fim de tarde e eu atravessava o centro da cidade para fazer a baldeação entre o trabalho e casa. Passaria pelo Mercado Público, como passei tantas vezes, e já estava certa de que sentiria falta daquele festival de cores e aromas e vozes que faz parte do local – interditado depois do incêndio da semana passada. Mas o que vi quando cheguei  lá me deixou arrepiada.

Era um cordão humano abraçando o Mercado Público. Eram pais e mães de santo dando suas bençãos, padeiros e açougueiros e peixeiros vestindo seus uniformes brancos de mãos dadas, gente que passava e parou para aplaudir o velho prédio amarelo. Uma cena linda, emocionante, que ajudou a apagar (um pouco) da tristeza que eu sentira um dia antes.

Na manhã de quinta-feira eu trabalhei na cobertura da greve geral. Acordei cedo para fazer uma ronda pelo centro da cidade. No caminho entre a rodoviária e a Praça da Matriz o que eu vi era um cenário desolador. Porto está triste.

São vidraças quebradas, fachadas de lojas e bancos protegidas com tapumes, paredes e monumentos pichados. Nem o velho Mercado escapou do spray de tinta: “polícia fascista”. Sim, com sc – o babaca tem bom português. A cidade está suja, pálida, desarrumada. Uma Porto nada alegre.

Conheço a sensação de participar de um protesto, de uma manifestação. Gastei muita sola de sapato nos tempos de estudante. E quando morei em Los Angeles também: gastei o pulmão gritando pelo fim da(s) guerra(s). Nos dois últimos anos gastei meus neurônios estudando um movimento “descentralizado e organizado pelas redes sociais”, o Movimento Verde que contestou as eleições presidenciais de 2009 no Irã. Bebi de teóricos que celebram como a Internet promove a “difusão do poder”: como mais atores sociais têm acesso ao poder que vem com as novas tecnologias de informação. Para o sociólogo espanhol Manuel Castells, é assim, pela Internet, que ativistas e sonhadores transformam “noites solitárias de ira em dias compartilhados de esperança”. Sei como é contagiante fazer parte de um coletivo e carregar uma bandeira, e sei da importância disso para nosso amadurecimento como cidadãos – online ou offline, nas redes ou nas ruas, tanto faz. Mas vamos combinar, nos últimos meses parece que vivemos numa democracia às avessas, numa (licença poética, tá?) ditadura da democracia.

Nesses tempos de exposição e debate facilitados pelas redes sociais da Internet passamos de bodoque a vidraça em questão de minutos. Ouse questionar o movimento “horizontal e anti-partidário”. Ouse preferir saber quem é o líder, qual é sua agenda e aonde vamos. Ouse dizer que gostas, e muito, de futebol! Ouse criticar quem bloqueia o trânsito impedindo o direito de ir e vir de quem não está muito a fim de “ir pra rua”. Ouse defender um governo democraticamente eleito – que durante muitos anos foi o bodoque.

E de repente em dia de manifestação impõe-se um toque de recolher. E de repente vemos vereadores sentando no chão para negociar os termos de uma ocupação. E vemos a Cidade Baixa, a cidade da boemia, fechando portas, guardando mesas, armando-se. Numa banca de revistas da Borges de Medeiros foi colocado um banner enorme com uma frase do hino nacional na parede externa em que normalmente há propaganda. Aposto que é a escolha entre declarar apoio ao movimento, ou servir de tela para pichadores como todas as outras bancas do centro.

Sim, o movimento levantou questões importantes; como usuária do transporte público assino embaixo de muitas delas. A “pressão das ruas” obteve resultados admiráveis! Mas também deixou um rastro de discórdia e destruição.

#prontofalei

Quer saber? O incêndio no Mercado não foi causado por um curto-circuito.

Em sua Teoria Ator-Rede o filósofo Bruno Latour sustenta que como objetos fazem parte das nossas interações, eles assumem um caráter de protagonistas também. Caso do Mercado Público. Ele se transformou em um ser, um ser vivo de tanta vida que passa lá dentro. Por isso resolveu cuspir fogo. Por um longo momento naquela noite de sábado Porto Alegre se uniu e torceu para que aguentassem firme aquelas paredes – que não foram feitas para serem manchadas, mas para serem queridas.

O Mercado só quis chamar a atenção. A cidade precisava de um abraço, precisava se abraçar.

Foi nisso que eu pensei hoje.

Um pequeno tesouro

Minha Olivetti Lettera 82.

Ela me acompanhou durante toda a faculdade de jornalismo.

Pensando nas muitas madrugadas que passamos juntas, sem direito a “Delete” ou “Ctrl+c” e “Ctrl+v”, chego à conclusão que um diploma conquistado antes da Revolução da Internet deveria valer o dobro…

E num desses domingos encontrei uma igualzinha à venda no Brique da Redenção. Quanto? 50 reais.

Eu, feliz proprietária de uma quase antiguidade!

Da fabriqueta de memórias

Conversar com estudantes de jornalismo é sempre um prazer. Acredito no intercâmbio entre a academia e o mercado: para os futuros jornalistas é inspiração; para os profissionais, reciclagem.

Um exemplo. Depois que voltei a estudar descobri a importância da metodologia de pesquisa. Um repórter, eu acho, tem que deixar a redação com um conjunto de hipóteses – a pauta não pode ser encarada como uma “tese” a ser comprovada.

Como em toda profissão, quando nos graduamos somos como uma pedrinha bruta. Pedrinhas bonitinhas, diplomadas, mas brutas, que somente serão lapidadas com os solavancos do dia-a-dia. (Na reportagem sobram solavancos!) Anos de estrada nos ajudam a criar um “manual de redação particular”, de onde saem algumas lições que gosto de lembrar nessas conversas.

Preparando uma palestra sobre o telejornalismo na era da Internet encontrei uma citação genial do genial Geneton Moraes Neto (um repórter que sabe OUVIR). “Fazer jornalismo pode ser simples: é ver, ouvir e passar adiante – da maneira mais fiel e mais interessante possível. Ou seja: produzir memória”, ele diz.

Fazer jornalismo é produzir memória. Gosto dessa definição pois creio que toda obra implica numa co-autoria entre quem a produz e quem a aprecia. Eu escrevo com uma intenção, você interpreta à sua maneira. Além disso, de nada valeria escrever um poema, fazer uma reportagem, pintar um quadro ou compor uma canção se não fosse para dividir com alguém. Certo?

Num “mundo perfeito” você encontra bons parceiros para uma obra. É o caso de uma reportagem costumo apresentar nas escolas de jornalismo, uma das mais bacanas que já fiz. Uma obra composta a dez mãos.

O personagem é o físico Eduardo Couto e Silva, radicado nos Estados Unidos há mais de duas décadas. Ele trabalha num laboratório da Universidade de Stanford, no norte da Califórnia, onde integra a equipe que monitora o Telescópio Espacial Fermi, que Eduardo ajudou a construir. Contamos sua história no Planeta Brasil, programa que retrata a vida dos brasileiros no exterior (TV Globo Internacional).

Eduardo, meu entrevistado, se empenha em tornar compreensível a ciência e a tecnologia que envolvem seu ofício. Além disso, diverte com casos como os desafios de lidar com uma equipe internacional (“O japonês nunca diz não!”).

É o tipo de entrevistado dos sonhos! Ele me ofereceu inúmeras informações e recursos para escrever um bom texto.

O cinegrafista Alan Hernandez é um dos mais talentosos que conheço. O uruguayo é do tipo que se integra verdadeiramente na pauta, bolando um roteiro de gravação com takes precisos e variados.

Tinha outro Eduardo envolvido na operação, o Canto Machado, editor do programa. É um velho e grande companheiro de trabalho. Sua paixão pela astronomia e sua sensibilidade musical deixaram a matéria interessante e dinâmica.

O “quinto par de mãos” dessa composição é você, que pode ver a reportagem aqui.

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Outro aspecto muito positivo desses convites é que cada bate-papo me leva a n reflexões. Se me perguntam o que não pode faltar para um jornalista respondo: bom humor e um rolo de fita adesiva. Sempre.

Revendo essa reportagem me chama atenção o fato de que o trabalho do físico Eduardo demora uns 50 a 100 anos para ter resultado. Um período de tempo im-pen-sá-vel para uma repórter acostumada com deadlines apertados e respostas imediatas.

Também percebo inúmeras mudanças que eu poderia fazer para melhorá-la (como a entonação do off, por exemplo). É que a gente nunca acaba uma obra: a gente simplesmente desiste.

Pois acaba um deadline e lá vem outro. E vem outra pauta e suas hipóteses. E novos solavancos. E as lições que, com sorte, poderemos dividir.