O Presente

Na casa grande da cidade pequena, que guarda tantos objetos de tantas histórias, os ponteiros de um velho despertador, daqueles barulhentos e de números grandes, ainda marcam três horas. Seria da tarde? Da madrugada?
Neste quarto preguiçoso pouco importa que horas são. Assim como no relógio velho, quebrado, sem corda, aqui o tempo… parou.
E o único som que escuto é o de páginas sendo viradas.
Uma, duas, três…

Te espio. Sinto uma ponta de ciúmes do livro que te dei de presente. Está apoiado sobre o teu peito, meu lugar favorito no mundo, e nele prestas toda a atenção – e aquela ruguinha espremida entre teus olhos fica mais profunda a cada página. Como hoje meu único compromisso é com o nada, mergulho neste instante. Faço o que aprendi com a Yoga: me concentro na pausa entre inspirar e expirar, onde há um espaço de quietude, de permanência.

Estou presente.
Esse momento é meu, é nosso. Não é para ser compartilhado, curtido, comentado. Não tem fotografia que registre. A lembrança dele será a música das páginas sendo viradas uma a uma.

Este é o dia de que tanto falaram, quando “tudo ficaria bem”.
Hoje não há pressa. O celular e seu alarme ficarão calados. Aqui só está permitido o som delicado das páginas de um livro sendo viradas.
Este é o dia que me prometeste. Ele não acabará com um longo abraço de despedida. Hoje não haverá palavras soltas sem resposta em espaços vazios.

Daqui a pouco aviso que acordei da siesta e te peço para me contar um pouco da história, o que farás com entusiasmo. Em seguida quero um beijo, viro pro lado, finjo que volto a dormir. Só para continuar escutando as páginas sendo viradas.

E enquanto isso a saudade morre, esquecida em algum canto do quarto.

reloj Agora escuta este som: “Follow You, Follow Me” com Genesis.

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Jamón del Medio

Tenho uma recordação bem particular daquele verão. É lembrança de um tombo em alguma esquina da Avenida Santa Fé, que eu levei enquanto caminhava, desatenta a todo o resto, admirando a arquitetura dos prédios que decoram os céus da capital argentina.

Era um fim de tarde, o começo do nosso passeio por Buenos Aires. Nosso primeiro destino foi a livraria El Ateneo, que funciona no antigo Teatro Grand Splendid. Lá onde antes havia assentos hoje há estantes de livros. O palco virou um café. Eu havia passado dias sonhando acordada em conhecer a El Ateneo!

El Ateneo

Gosto de cidades com rugas, de lugares que têm alguma história para contar. Nesse quesito Buenos Aires é um prato muito, muito farto – daí explica-se por que eu andava tropeçando pelas calles argentinas.

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Como em toda a cidade, em Buenos Aires há que se cumprir um roteiro obrigatório: Casa Rosada, Puerto Madero, La Boca, Recoleta, a Feria de San Telmo (onde me sinto como um pinto no lixo)… tortoni

É obrigatório comer churros no Café Tortoni!

No entanto, acho que para conhecer uma cidade é preciso experimentá-la como ela é no seu dia-a-dia.

Buenos Aires é linda e, como qualquer lugar deste mundão, fica ainda mais bela com a companhia certa. O que para mim significa ter alguma dose de “espírito aventureiro”.

Gringo descobriu que devíamos comprar um “Guía T” (“guia-te”, sacou?), um livrinho que tráz mapas das linhas de ônibus e de metrô. O guia de bolso colocou cidade na palma das nossas mãos, e assim nos sentimos quase porteños.

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Nos hospedamos no apartamento de Elisa y Carlos (alugado pela Internet) em Palermo, bairro onde morou Che Guevara e que ainda hoje é endereço de Charly García. (Sei disso não só por que havia lido em algum lugar, mas por que nosso anfitrião fez questão de nos mostrar onde mora o cantor. “Carlos”, aliás, virou apelido de todo argentino bacana que encontrávamos – como o motorista de ônibus que não nos deixou pagar passagem no dia de Natal.)

A região de Palermo é uma das mais transadas de Buenos Aires. Caminhando algumas quadras do ap chegávamos ao coração do Palermo Soho. Lá, nos fins de semana, praças como a Serrano são tomadas por feiras de artesanato; danceterias viram espaços coletivos para designers e estilistas. Uma moda que, dizem, surgiu com a recessão econômica de 2001, e que pegou.

A vizinhança era realmente um “problema”. As ruas (creio que seja assim por todo o país) são cheias de confeitarias com aquelas facturas e sandwiches de miga indecentemente exibidos nas vitrines. A-do-ro sandwich de miga, aquele de pão bem fininho, recheado com palmito, morrones, jamón, huevos duros… E na Argentina tem sandwich de miga triplo!

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A localização, perto de estações de metrô e pontos de ônibus, nos ajudou a planejar os passeios. Conhecemos áreas não tão charmosas da cidade nas nossas viagens em colectivos. Andamos na mais antiga linha de metrô da América do Sul, a linha A do subte.

subte

Comemos parrillada, milanesas, medialunas – e MUCHOS sandwiches de miga!

Ensinamos aos mozos (garçom, em espanhol) como é que a gente gosta de tomar cerveja: gelada, e não apenas “fría”. Foi engraçado ver a estranheza e até a inconveniência que causávamos ao pedir um balde de gelo para colocar a garrafa. Cerveza de litro, fría? Em pleno verão? Não dá, né?

A mais gelada que tomamos foi no El Querandí, onde assistimos a um show de tango. Mal sentamos à mesa e já fomos combinando com o mozo: guarda uma garrafa só pra gente, por favor, lá no fundo do freezer… ¿Vale? El Querandí fica no centro histórico da cidade, perto da Plaza de Mayo. O show é uma produção enxuta e tocante, que conta a história do tango desde o surgimento, no século XIX.

Mas para experimentar o verdadeiro tango fomos a uma milonga! É onde os argentinos e aprendizes estrangeiros se encontram simplesmente para bailar. O lema do La Viruta, que fica na região de Palermo, é “entrás caminando… salis bailando”. Sim, eles fazem tudo parecer tão fácil…

Atravessamos a cidade para visitar o Museo Argentino de Ciencias Naturales Bernardino Rivadavia, que tem um riquíssimo acervo de fósseis. E aí foi a vez do Gringo virar um pinto no lixo no meio dos dinossauros.

dino

E atravessamos (eu correndo) as largas avenidas…

Conversando com taxistas ouvimos um comentário que já entrou para a nossa história – “o Grêmio é mais famoso que o Inter”…  E descobrimos o que significa a expressão “jamón del medio”, que é como os hermanos chamam “a cereja do bolo”, o melhor de tudo.

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Descobrimos El Boliche de Roberto ao procurar por um lugar que ficasse fora do roteiro turístico tradicional. E acho que não há nada mais genuinamente argentino que o balcão de madeira onde, conta a lenda, se debruçava Carlos Gardel. lo

O boliche é pequeníssimo. Chegamos cedo e nos acomodamos no bar – bebendo de uma garrafa de cerveja fría que o barman/mozo/cozinheiro/caixa voltava a guardar na geladeira após cada servida, evitando que a coisa virasse um . O cardápio simples está num quadro de giz: empanadas e tábuas de frios. Para tomar, cerveja ou fernet.

Em minutos, a casa lotou: estudantes, boêmios, músicos, alguns turistas como nós. O show começaria em breve – e que show!

Num palco junto à janela, Maricruz canta acompanhada por dois violões. O tango tem essa coisa dramática, visceral, que a voz grave de Maricruz interpreta com perfeição.

roberto

Depois da apresentação os músicos passam o chapéu: vale mais a pena do que qualquer pequena fortuna cobrada nas concorridas casas de espetáculo.

deA decoração já valeria a visita.

Sabe essa moda de decorar botecos com peças antigas? Pois é mais ou menos assim, só que lá o vintage, o antigo, é original. Assim como é verdadeira a poeira que cobre as garrafas acumuladas nas prateleiras que vão até o teto – aposto que ali tem poeira que entrou no boliche junto com Gardel.

Nessa viagem, “Lo de Roberto” foi o meu “jamón del medio”.

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Foi um esfoladinho bobo, achei que não ficaria cicatriz. Nem me preocupei em fazer um curativo decente – ah, eu tinha muito mais o que fazer naqueles dias! Olho para a pequena marca no meu joelho direito com carinho: ela virou minha passagem secreta para Buenos Aires.

PS: Para conhecer a Buenos Aires dos argentinos, visite o blog da jornalista Gisele Teixeira, que se encantó y por alla se quedó.

Da mesinha de cabeceira

          “Uma música de nove minutos e 159 versos torna-se o mais improvável hit radiofônico da história da indústria fonográfica brasileira. Ao narrar a paixão e morte de João de Santo Cristo em ‘Faroeste Caboclo’, saga conhecida da turma da Colina desde o início da década, Renato move montanhas. As rádios que tocam no início da noite as canções mais pedidas pelos ouvintes são obrigadas a tomar decisão drástica: cortam três músicas para acomodar ‘Faroeste’. Quanto faltam dez minutos para as sete da noite, não adianta girar o dial. É impossível desviar de Santo Cristo, Maria Lúcia, Pablo, Jeremias, luzes de Natal, generais de dez estrelas, lote 14, Winchester 22, sangue, perdão. Renato Russo é a voz do Brasil.”

(“Renato Russo, o Filho da Revolução”, de Carlos Marcelo)

Poesia em Movimento

Das memórias de Hamid Dabashi, sociólogo iraniano que fez morada em minha mesinha de cabeceira.

     “Nós assistíamos à Copa do Mundo em pequenos e raros aparelhos de televisão, em alguns poucos privilegiados lares e cafés, como cidadãos de um mundo que não era dividido por eixos de poder, mas definido pela criatividade e determinação de um jogador, uma bola e a glória de um gramado à sua frente.

     Um mundo em que a genialidade da engenharia alemã, a superioridade industrial britânica e a arrogância cultural francesa se curvavam humildemente em reverência à superioridade da poesia em movimento brasileira.”

(em “Iran, a People Interrupted”)

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Tem futebol também neste post. Para saber mais sobre o “estado das coisas” no Irã, sugiro ler (e ver!)  A Separação.

A contadora de histórias

Como eu ansiava, quando eu morava fora, por participar dos “Encontros com o Professor”! Recebia a programação da semana por e-mail e ficava doida para entrar numa máquina de teletransporte para estar em Porto Alegre nas quintas-feiras e ver Ruy Carlos Ostermann conversando com alguma personalidade da hora.

Agora basta atravessar a cidade, até a Cidade Baixa. As entrevistas são sempre interessantes (o Professor Ruy tem um dom que eu considero fundamental para um bom entrevistador, que é o de “saber ouvir”) e, de quebra, tem a canja musical que invariavelmente é um deleite.

Num desses “encontros” a estrela foi a encantadora Jane Tutikian, escritora que é patrona da Feira do Livro de Porto Alegre este ano. Conhecemos seus planos para a feira, aprendemos que tecnologia e literatura devem aprender a conviver (por A+B ela mostrou que o bom e velho livro impresso em papel ainda tem muitos anos pela frente), ouvimos que se há preguiça livresca entre os mais jovens a culpa é dos mais velhos. Mas o mais bacana foi saber como Jane Tutikian descobriu seu amor pelas letras.

Não era uma família nada abastada, a dela. O pai, diz Jane, era apaixonado pela escrita. Guardava o papel pardo que embrulhava o pão para escrever – e alguns desses escritos ela guarda até hoje. Na casa não havia livros. Mas a mãe, ela lembra, era uma ótima contadora de histórias. Foram essas “atitudes silenciosas”, como ela diz, atitudes talvez até despretensiosas, que ajudaram a semear nela a Jane escritora.

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Quero contar que eu também tive uma referência valiosa na minha infância. Em casa havia uma fartura de revistinhas, livros e os coloridos disquinhos. Mas também tínhamos nossa “contadora de histórias particular”, a Vó Aia. Ela cuidava da gente em algumas ocasiões enquanto o pai e a mãe aproveitavam as noites santanenses – nem bem os dois saíam de casa lá íamos nós para a cama de casal que parecia imensa, a vó espremida num canto.

Vó Aia tinha um repertório infinito de historinhas! Algumas eram daquelas bem tradicionais. Outras eu acho que ela inventava… E a cada conto ela plantava em mim essa sementinha.

E como gostava de ler, a minha avó. No quarto dela havia um vão entre a parede e o armário onde guardavam malas e caixas. E ali ficava também sua biblioteca secreta: eram dezenas e dezenas, talvez centenas, de romances de ascensorista tipo Barbara Cartland, casos apimentados e amores impossíveis! Aquelas páginas recheadas de galãs de peito nu e mocinhas de cabelos esvoaçantes permitiam à Vó Aia aventuras que sua vida não teve. (Só nunca entendi por que ela nos tirou, eu e Tati, na metade da sessão de “A Lagoa Azul” no Cine Colombo …)

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De volta a Porto Alegre, e a uma linda lição de Jane Tutikian. O que a leva, ela pergunta, a dedicar horas e dias e meses de sua vida na frente de um computador, escrevendo? Mergulhada num mundo de fantasia enquanto a vida “de verdade” acontece lá fora? É que esse tempo não é perdido. “O tempo, para o escritor, se recupera cada vez que o leitor abre um livro e lê uma linha. O leitor é generoso, ele devolve o tempo para o escritor”, filosofa Jane.

Tá vendo como teria valido a pena atravessar o continente por causa dos “encontros” do Professor Ruy?

Eu queria ser uma casa na praia

Não, esse título não está errado. Eu quis mesmo dizer que queria “ser” e não “ter” uma casa na praia – como faria sentido. Então explique-se, Tanira!

É que numa noite dessas tocou no rádio uma música linda… Era “The Planets Bend Between Us”, da banda irlandesa Snow Patrol. Com versos do tipo “vamos correr até a beira do mar, e eu vou gritar desde a Irlanda para que possam escutar nos Estados Unidos que é tudo por você… é tudo por você!”.

Fui pesquisar que musa teria merecido a linda homenagem do vocalist Gary Lightbody. Pois não é que o cara a compôs pensando em sua casa no litoral irlandês? “Há algo especial em estar na praia no inverno, sozinho, sob a chuva, gritando ao vento”, ele justificou. Vai entender…

“Something”, de George Harrison, é uma das mais belas da discografia dos Beatles na minha opinião. Há quem diga que a música foi feita para Patty Boyd (ex de Harrison, que também teria inspirado “Layla” e “Wonderful Tonight” do Eric Clapton). Alguns beatlemaníacos têm outras versões sobre a inspiração de George Harrison, versões menos românticas que vão de Krishna a Ray Charles. “Something” é a segunda música mais gravada da banda – só perde para “Yesterday”.

Uma curiosidade: a segunda frase de “Something”, “attracts me like no other lover” (“me atrai como nenhuma outra amante”), foi definida aos 45 do segundo tempo, quando os Beatles já estavam no estúdio para gravar. A versão de trabalho dizia “attracts me like a cauliflower”, ou “me atrai como uma couve-flor” – claro, o legume vinha sendo usado para estabelecer o ritmo.

É mesmo cheio de mistérios e vazio de regras o processo criativo.

E o Chico? Como nascem aqueles versos que me ajudam a me entender como “mulher”? Versos como “futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber com o amor que eu um dia deixei pra você”. Alguns segredos dos bastidores buarqueanos estão em “Histórias de Canções”, livro do curador do site oficial do artista.

Uma pérola que encontrei na “rede” relata como Chico Buarque e Vinícius de Moraes compuseram “Valsinha”. Foi nos anos 70. Como moravam longe a parceria foi viabilizada através de cartas. Elas estão publicadas no livro “Achados”, de Caique Botkay. Como eu acho que é parte valiosa do nosso patrimônio, tomo a liberdade de copiar aqui alguns trechos. Deleitem-se!

De Vinícius para Chico: “Chiquérrimo, Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. (…) Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa Hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha?”

De Chico para Vinícius: “Caro poeta, Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. (…) Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.”

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Ideias, ideias, ideias…

Elas podem surgir do nada, ou se esconder quando a gente mais precisa. (As que vêm em reuniões de pauta promovidas em mesas de bar são as melhores! Incríveis idéias, a esmagadora maioria jamais implementada.)

A dica, repetida em vários cursos de roteiro e redação criativa que fiz, é andar com olhos abertos e ouvidos atentos – e sempre com um caderninho à mão. O caderninho serve para anotar a reclamação na fila do mercado, ou a conversa no ônibus. É chover no molhado lembrar que jornalista tem que estar sempre tirando a febre das ruas, saber o que angustia a comunidade em que vive. No entanto, quando a tarefa é escrever para ficção, esses elementos do cotidiano são importantes na composição de personagens e diálogos coloquiais. (Andar de ônibus em busca de inspiração… Aí está uma ótima desculpa para não renovar a carteira de motorista!)

Algumas ideias evaporam, outras persistem, se acomodam em alguma gaveta da memória. “A Cidade dos Telhados de Vidro” é um conto com um toque de realismo mágico, que trata do assassinato de um padre numa cidade do interior. O pároco foi mandado desta para melhor junto com todos os segredos inconfessáveis que ouvia em seu confessionário. Já leu? Acho que não, pois ele ronda minha cabeça há anos… E as personagens vivem por aí, à espreita enquanto durmo, querendo sair da minha imaginação e entrar no papel.

Às vezes sai como um cupse, às vezes é um parto. Assim é a gênese de um texto para mim. Na rotina das redações é difícil dar à luz a textos sempre fluídos e bem “amarrados”, pois existe um fator complicador muy amigo dos jornalistas chamado deadline, que é o prazo para veicular a reportagem. Claro, a pauta e os entrevistados podem ajudar. Ou atrapalhar tudo…

Luxo dos luxos é poder deixar o texto de lado um dia ou dois antes do fechamento. Se afastar da criatura e ler mais tarde, com um olho diferente. Amadurecer um raciocínio. Acrescentar uma informação que cause impacto.

Esses dias Dona Inspiração veio do nada e me fez pensar sobre o amor apesar de. Esse aí eu rascunhei e fiquei namorando durante dias, mudando uma palavrinha aqui, outra vírgula ali, porque eu queria que ficasse redondinho.

“A gente nunca acaba uma obra, a gente desiste.” A frase que diz mais ou menos isso é atribuída ao cineasta George Lucas. Gosto de beber dessas fontes, é alentador saber que os grandes também sofrem das dores do parto criativo.

Para encerrar, uma lição do mestre Gabriel García Márquez, em “Como Contar um Conto”.

“Eu nunca torno a ler meus livros depois de editados, com medo de encontrar defeitos que tenham passado despercebidos. Quando vejo a quantidade de exemplares vendidos e as maravilhas que os críticos dizem, dá medo descobrir que estão todos enganados, críticos e leitores, e que o livro, na verdade, é uma merda. (…) Essa dose de insegurança é terrível, mas ao mesmo tempo necessária, para fazer algo que valha a pena. Os arrogantes, que sabem tudo, que nunca têm dúvidas, acabam dando tanta cabeçada que morrem disso.”

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E tu? O que ou quem te inspira?

Garrafas ao Mar

Prefácio de Isabel Allende para “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano: “Escrever um livro – me diz Galeano – é como colocar uma mensagem dentro de uma garrafa e atirá-la ao mar. A possibilidade de que alguém a recolha e leia é sempre remota”.

Gostei dessa analogia. Escrevo porque é catártico, libertador, terapêutico. Escrevo prá não esquecer. E então lanço minhas “garrafas” neste mar cibernético… A propósito, viva a era do copyleft! Viva essa biblioteca, essa banca de revistas virtual que é a internet!

É o que me permite reproduzir aqui, texto reproduzido no blog do escritor Luís Augusto Fischer, “Dez motivos para blogar”:

1. Você pode (quase) tudo. Quando faltar inspiração, escreva uma lista de dez motivos para fazer alguma coisa. No final, acabará se divertindo.    

2. É bom ter audiência, mesmo sem fazer idéia de quem são os leitores. Você apenas precisa aprender a lidar com essa relação meio íntima com leitores tão anônimos.

3. Com o tempo você percebe que sobrevive sem comentários. Segundo as estatísticas, apenas 1% dos leitores deixa um. Então pare de implorar pelos comentários dos amigos.

4. Blogar ajuda a organizar as idéias, exercitar a escrita e você ainda corre o risco de escrever algo realmente  bom.

5. Amigos distantes, ou distanciados, se sentem próximos ao ler o seu blog. Você só se expõe se, e o quanto, quiser.

6. Você está deixando um registro histórico, da sua vida ou da sua época, embora isso pareça uma grande pretensão agora.

7. O fato de blog não dar dinheiro não é motivo para parar. Pense bem: você realmente não começou porque havia essa possibilidade.

8. Provavelmente você terá mais leitores do que se publicar um livro.

9. Você pode terminar uma lista de dez com nove itens e nenhum editor vai chamar a sua atenção.

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Agora, da série “Poemas no Ônibus e no Trem” da Prefeitura de Porto Alegre, para inspirar seu dia:

“Ela me olha com olhos de rapina e sedução – abutre debruçado sobre a carcaça que me resta. E diz que é paixão.” (“Espreita”, José Carlos Aragão)