Jamón del Medio

Tenho uma recordação bem particular daquele verão. É lembrança de um tombo em alguma esquina da Avenida Santa Fé, que eu levei enquanto caminhava, desatenta a todo o resto, admirando a arquitetura dos prédios que decoram os céus da capital argentina.

Era um fim de tarde, o começo do nosso passeio por Buenos Aires. Nosso primeiro destino foi a livraria El Ateneo, que funciona no antigo Teatro Grand Splendid. Lá onde antes havia assentos hoje há estantes de livros. O palco virou um café. Eu havia passado dias sonhando acordada em conhecer a El Ateneo!

El Ateneo

Gosto de cidades com rugas, de lugares que têm alguma história para contar. Nesse quesito Buenos Aires é um prato muito, muito farto – daí explica-se por que eu andava tropeçando pelas calles argentinas.

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Como em toda a cidade, em Buenos Aires há que se cumprir um roteiro obrigatório: Casa Rosada, Puerto Madero, La Boca, Recoleta, a Feria de San Telmo (onde me sinto como um pinto no lixo)… tortoni

É obrigatório comer churros no Café Tortoni!

No entanto, acho que para conhecer uma cidade é preciso experimentá-la como ela é no seu dia-a-dia.

Buenos Aires é linda e, como qualquer lugar deste mundão, fica ainda mais bela com a companhia certa. O que para mim significa ter alguma dose de “espírito aventureiro”.

Gringo descobriu que devíamos comprar um “Guía T” (“guia-te”, sacou?), um livrinho que tráz mapas das linhas de ônibus e de metrô. O guia de bolso colocou cidade na palma das nossas mãos, e assim nos sentimos quase porteños.

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Nos hospedamos no apartamento de Elisa y Carlos (alugado pela Internet) em Palermo, bairro onde morou Che Guevara e que ainda hoje é endereço de Charly García. (Sei disso não só por que havia lido em algum lugar, mas por que nosso anfitrião fez questão de nos mostrar onde mora o cantor. “Carlos”, aliás, virou apelido de todo argentino bacana que encontrávamos – como o motorista de ônibus que não nos deixou pagar passagem no dia de Natal.)

A região de Palermo é uma das mais transadas de Buenos Aires. Caminhando algumas quadras do ap chegávamos ao coração do Palermo Soho. Lá, nos fins de semana, praças como a Serrano são tomadas por feiras de artesanato; danceterias viram espaços coletivos para designers e estilistas. Uma moda que, dizem, surgiu com a recessão econômica de 2001, e que pegou.

A vizinhança era realmente um “problema”. As ruas (creio que seja assim por todo o país) são cheias de confeitarias com aquelas facturas e sandwiches de miga indecentemente exibidos nas vitrines. A-do-ro sandwich de miga, aquele de pão bem fininho, recheado com palmito, morrones, jamón, huevos duros… E na Argentina tem sandwich de miga triplo!

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A localização, perto de estações de metrô e pontos de ônibus, nos ajudou a planejar os passeios. Conhecemos áreas não tão charmosas da cidade nas nossas viagens em colectivos. Andamos na mais antiga linha de metrô da América do Sul, a linha A do subte.

subte

Comemos parrillada, milanesas, medialunas – e MUCHOS sandwiches de miga!

Ensinamos aos mozos (garçom, em espanhol) como é que a gente gosta de tomar cerveja: gelada, e não apenas “fría”. Foi engraçado ver a estranheza e até a inconveniência que causávamos ao pedir um balde de gelo para colocar a garrafa. Cerveza de litro, fría? Em pleno verão? Não dá, né?

A mais gelada que tomamos foi no El Querandí, onde assistimos a um show de tango. Mal sentamos à mesa e já fomos combinando com o mozo: guarda uma garrafa só pra gente, por favor, lá no fundo do freezer… ¿Vale? El Querandí fica no centro histórico da cidade, perto da Plaza de Mayo. O show é uma produção enxuta e tocante, que conta a história do tango desde o surgimento, no século XIX.

Mas para experimentar o verdadeiro tango fomos a uma milonga! É onde os argentinos e aprendizes estrangeiros se encontram simplesmente para bailar. O lema do La Viruta, que fica na região de Palermo, é “entrás caminando… salis bailando”. Sim, eles fazem tudo parecer tão fácil…

Atravessamos a cidade para visitar o Museo Argentino de Ciencias Naturales Bernardino Rivadavia, que tem um riquíssimo acervo de fósseis. E aí foi a vez do Gringo virar um pinto no lixo no meio dos dinossauros.

dino

E atravessamos (eu correndo) as largas avenidas…

Conversando com taxistas ouvimos um comentário que já entrou para a nossa história – “o Grêmio é mais famoso que o Inter”…  E descobrimos o que significa a expressão “jamón del medio”, que é como os hermanos chamam “a cereja do bolo”, o melhor de tudo.

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Descobrimos El Boliche de Roberto ao procurar por um lugar que ficasse fora do roteiro turístico tradicional. E acho que não há nada mais genuinamente argentino que o balcão de madeira onde, conta a lenda, se debruçava Carlos Gardel. lo

O boliche é pequeníssimo. Chegamos cedo e nos acomodamos no bar – bebendo de uma garrafa de cerveja fría que o barman/mozo/cozinheiro/caixa voltava a guardar na geladeira após cada servida, evitando que a coisa virasse um . O cardápio simples está num quadro de giz: empanadas e tábuas de frios. Para tomar, cerveja ou fernet.

Em minutos, a casa lotou: estudantes, boêmios, músicos, alguns turistas como nós. O show começaria em breve – e que show!

Num palco junto à janela, Maricruz canta acompanhada por dois violões. O tango tem essa coisa dramática, visceral, que a voz grave de Maricruz interpreta com perfeição.

roberto

Depois da apresentação os músicos passam o chapéu: vale mais a pena do que qualquer pequena fortuna cobrada nas concorridas casas de espetáculo.

deA decoração já valeria a visita.

Sabe essa moda de decorar botecos com peças antigas? Pois é mais ou menos assim, só que lá o vintage, o antigo, é original. Assim como é verdadeira a poeira que cobre as garrafas acumuladas nas prateleiras que vão até o teto – aposto que ali tem poeira que entrou no boliche junto com Gardel.

Nessa viagem, “Lo de Roberto” foi o meu “jamón del medio”.

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Foi um esfoladinho bobo, achei que não ficaria cicatriz. Nem me preocupei em fazer um curativo decente – ah, eu tinha muito mais o que fazer naqueles dias! Olho para a pequena marca no meu joelho direito com carinho: ela virou minha passagem secreta para Buenos Aires.

PS: Para conhecer a Buenos Aires dos argentinos, visite o blog da jornalista Gisele Teixeira, que se encantó y por alla se quedó.

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Os muito chatos que me perdoem…

Noite dessas vimos o show “Cale-se: as Músicas Censuradas pela Ditadura Militar”. Bem como eu imaginava, é uma pequena aula sobre o cancioneiro proibido naqueles anos de chumbo.

“Tente Outra Vez” do Raul. Pode? Com frases tipo “você tem dois pés para cruzar a ponte” ou “tenha fé em Deus, tenha fé na vida”, mais parece um cântico religioso, não parece? Foi censurada.

E o Chico? Esse era o número um na lista de músicos mais frequentemente calados pelo regime militar. Mas que mal há em cantar “me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, um riacho de amor”? A censura não gostou nadinha desse assanhamento todo…

Também foi vetada pela ditadura a fofa “Severina Xique-Xique”, lembra? “Ele tá de olho é na butique dela…”

Mas o tempo passou, ufa… Censura? Nunca mais!

Jura?

Hoje em dia, mesmo em tempos de democracia, eleições diretas e afins, tenho a impressão de que vivemos sob uma nova espécie de censura, perigosíssima! É a ditadura do sem-graça, da chatice. Vivemos sob a mira das patrulhas do politicamente correto e, pior, do intelectualmente correto. (E em muitas ocasiões, hás de concordar comigo, os nossos censores somos nós mesmos…)

Eu não vejo BBB, nem A Fazenda. Não acho interessante. Parcece que os personagens se repetem ano após ano, passam os dias armando complôs e jogando cabelões e músculos de um lado para o outro. Sinceramente, não curto. Só para implicar, telefono pra quem eu sei que assiste bem na hora do programa pedindo papo ou intimando para uma “DR”.

Mas eu dou uma espiadinha, sim. No mínimo para poder participar de alguma conversa. Ou por que às vezes de tão bizarro fica impossível não ver. Isso me define? Isso define as centenas de milhares de brasileiros que votam em uma eliminatória qualquer? Creio que não.

“E enquanto isso, você grita gol”, critica a patrulha. Grito gol, grito sim. Posso?

Pago imposto e pago minhas contas, cedo o lugar na fila, ando com lixo na mão até encontrar a lixeira, digo “por favor” e “muito obrigada”, xingo empresas públicas e privadas nas mídias sociais (e também elogio, quando merecedoras), leio Allende e García Márquez, voto bem mais pelo prazer que pela obrigação, visito o Votenaweb para acompanhar o desempenho dos meus representantes, uso cinto de segurança e respeito a faixa de pedestre.

“E enquanto isso, você pula Carnaval…” Eu vou atrás do trio elétrico, sim. Dá licença?

Participo de tuitaços e de campanhas da Anistia Internacional, sou doadora de sangue, não jogo óleo de cozinha na pia (guardo para reciclar, aliás reciclo todo meu lixo, sou uma serial recycler), dou “bom dia” para estranhos, cedo o banco no ônibus, fui “cara-pintada”, fiz bandejaço no RU, gastei a voz em passeatas contra as guerras no Iraque e no Afeganistão, ouço Beatles e rock progressivo.

Não tô querendo atestado de boa moça (tenho lá meus pecados, e não escondo meu desgosto por muita coisa que há por aí…). Mas pergunto: o fato de eu torcer pelo Inter, ver minha novelinha das seis, pular meu Carnaval, me faz uma pessoa alienada, manipulável?

Ou precisamos todos fazer um voto de tristeza, torcer o nariz pro Gangnam Style”, fingir que entendemos aquele filme “cabeça”, fazer um pacto com a chatice?

Prefiro pensar que o que define uma pessoa, um cidadão, não são as horas passadas em frente à TV ou no estádio – embora o futebol, vamos combinar, seja um patrimônio, ferramenta da nossa diplomacia cultural e parte da nossa identidade, sim!

Prefiro pensar que o que define o meu país é o exército de trabalhadores voluntários, as reuniões do orçamento participativo, é o casal que devolve uma pequena fortuna encontrada na rua, a adoção de animaizinhos, ativistas como a Isadora, as caminhadas por justiça que lotaram as ruas gaúchas nas últimas semanas, as 594 vassouras na Esplanada dos Ministérios, os milhões de assinaturas nas petições do Avaaz (que ajudaram a empurrar, por exemplo, o “Veta, Dilma”).

E se no fim do dia quisermos simplesmente xingar o juiz e o vizinho, torcer pelo infeliz que foi parar no paredão ou na roça, vibrar com o beijo da novela, tem algo errado? Se no fim do dia quisermos fazer parte de um coletivo, de uma massa – sem ter que pensar muito, meeesmo – isso desvalida tudo o que fazemos, em outros momentos, por um mundo melhor?

Temos sua permissão pra sorrir?

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Vinícius de Moraes foi diplomata, durante 26 anos. Foi “aposentado compulsoriamente”, em 1968; seu comportamento boêmio, disseram, não condizia com a carreira pública. A ordem veio do Presidente Costa e Silva: “Demita-se esse vagabundo!”.  Contam que foi um golpe duro, pois o poetinha adorava o Itamaraty…

Mas, enfim, um favor foi feito à nossa música à nossa poesia.

Vinícius de Moraes, se vivo, faria cem anos. Imagino o que seria dele se repetisse, nos dias de hoje, a máxima “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Seria fuzilado pela patrulha do politicamente correto? Será que se sentiria compelido a dizer que “tudo não passou de um mal-entendido”?

E se ele “desse uma espiadinha” e, entre um copo e outro de uísque, debruçado no violão, desandasse a comentar sobre as beldades que desfilam na telinha do BBB? Cairia vítima da ditadura da tristeza, da sem-gracice, do intelectualmente correto? Ou mandaria tudo às favas?

Ah… Os muitos chatos que me perdoem, mas leveza é fundamental!

Da mesinha de cabeceira

          “Uma música de nove minutos e 159 versos torna-se o mais improvável hit radiofônico da história da indústria fonográfica brasileira. Ao narrar a paixão e morte de João de Santo Cristo em ‘Faroeste Caboclo’, saga conhecida da turma da Colina desde o início da década, Renato move montanhas. As rádios que tocam no início da noite as canções mais pedidas pelos ouvintes são obrigadas a tomar decisão drástica: cortam três músicas para acomodar ‘Faroeste’. Quanto faltam dez minutos para as sete da noite, não adianta girar o dial. É impossível desviar de Santo Cristo, Maria Lúcia, Pablo, Jeremias, luzes de Natal, generais de dez estrelas, lote 14, Winchester 22, sangue, perdão. Renato Russo é a voz do Brasil.”

(“Renato Russo, o Filho da Revolução”, de Carlos Marcelo)

Nunca Más: os netos recuperados

Show do U2 não é simplesmente um show, é também um comício. As bandeiras que Bono Vox leva para o palco inquietam e chegam até a provocar uma certa dor na consciência pela pequena fortuna investida no ingresso – não seria melhor doar o dinheiro para uma das causas humanitárias abraçadas pela banda?

Buenos Aires, estádio do River Plate. Nos primeiros acordes de “One” Bono chama para o palco as Madres de la Plaza de Mayo. Emocionante? Sim, sin duda. As Madres, uma instituição da recente história da Argentina, haviam virado pop? Sim também, se necessário, pois toda exposição é benvinda. Pense bem: quantos ao meu redor, naquela multidão que lotava o River Plate, poderiam ser filhos dos jovens desaparecidos durante a ditadura militar, os netos procurados?

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“(…) Yo, hace viente años, dice: en el dia de mañana nuestros nietos serán adultos y van a buscarnos. (…) Ahora son hombres y mujeres que dudan, tocan el timbre y preguntan ‘seré nieto de ustedes? quiero saber’.”

O depoimento de Estela Carlotto, presidente da ong Abuelas de la Plaza de Mayo, sintetiza de que se trata o documentário “¿Quién soy yo?”, de Estela Bravo. É uma compilação de histórias comoventes como a de Horacio Pietragalla.

Ele cresceu como Cesar Castillo. Na adolescência passou a desconfiar que seria adotado – ele não percebia semelhanças, nem físicas nem de caráter, com os pais. Ao conhecer o trabalho das Abuelas começou a ligar os pontinhos: a mãe adotiva trabalhara como doméstica na casa de um militar, e isso era uma grande pista. Quando a namorada descobriu no site da ong a foto de uma jovem com um bebê, os dois parecidíssimos com Horacio, foram as dúvidas que desapareceram.

Horacio foi bater na porta das Abuelas. Depois de uma rápida mas precisa averiguação recebeu um título: “nieto recuperado numero 75”. Ele recuperou os laços familiares e ouviu histórias sobre seus pais. A mãe, Liliana Corti, foi assassinada pela repressão quando ele tinha cinco meses; do pai herdou o nome e os quase dois metros de altura.

A expressão “requinte de crueldade” pode ser clichê, mas não vejo outra forma de descrever o que a ditadura que castigou a Argentina entre 1976 e 1983 fez com os filhos dos prisioneiros políticos. Crianças foram sequestradas; bebês foram tomados das mães, presas, logo após o parto. Cerca de 500, todos entregues a um sistema de adoção clandestino.

A associação das Abuelas surgiu em 1978 dentro da organização das Madres de la Plaza de Mayo com o objetivo de localizar as crianças vitimadas pela repressão. Depois de anos batendo e porta em porta, peregrinando em busca de pistas sobre os filhos e os netos, hoje as abuelas são frequentemente surpreendidas por jovens que querem descobrir sua verdadeira origem, bem como um dia previu Estela de Carlotto. (Ela, a propósito, ainda procura pelo neto. O corpo da filha sequestrada em 1977, grávida de três meses, Estela conseguiu enterrar – “casi un privilegio”, leio numa reportagem sobre o caso.)

O Ministério da Justiça argentino atribui à Comisión Nacional por el Derecho a la Identidad (CoNaDI) a função de amparar o empenho das Abuelas. Se a investigação através de documentos não convence, os supostos nietos y nietas podem averiguar sua identidade consultando o Banco Nacional de Datos Genéticos (BNDG), que tem amostras de DNA de todas as famílias que buscam por seus desaparecidos (foi um exame assim que Horacio Pietragalla fez).

Tropecei no documentário “¿Quién soy yo?” depois de ler o blog da jornalista gaúcha Gisele Teixeira, que mora em Buenos Aires. No blog da Gisele soube das celebrações pela descoberta do “neto número 101”, e conheci tantas outras maneiras como os argentinos mantêm viva – embora cheia de remendos – essa dolorosa história.

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“Well, it’s too late, tonight, to drag the past out into the light.”

Assim cantava Bono Vox naquele distante mês de maio, no show em Buenos Aires. Atrás dele madres y abuelas andavam em círculos, repetindo no palco a coreografia que há mais de três décadas levam para a praça em frente ao palácio da presidência. Insistindo em contrariar a canção, teimando em iluminar o passado.

Something…

Something in the way she moves
Attracts me like no other lover
Something in the way she woos me

I don’t want to leave her now
You know I believe and how

Somewhere in her smile she knows
That I don’t need no other lover
Something in her style that shows me

I don’t want to leave her now
You know I believe and how

You’re asking me will my love grow
I don’t know, I don’t know
You stick around now it may show
I don’t know, I don’t know

Something in the way she knows
And all I have to do is think of her
Something in the things she shows me

I don’t want to leave her now
You know I believe and how

(George Harrison)

É o meu Beatle favorito.

Durante algum tempo The Long and Winding Road (Paul McCartney) foi minha canção predileta dos Beatles. (Parêntese: muito do que eu sei de inglês aprendi com eles.) Mas quando entendi a poesia de Harrison em SomethingWhile My Guitar Gently Weeps e Here Comes the Sun… I fell in love.

Há, no mínimo, dez motivos para admirar George Harrison, “the quiet one”.

Eu queria ser uma casa na praia

Não, esse título não está errado. Eu quis mesmo dizer que queria “ser” e não “ter” uma casa na praia – como faria sentido. Então explique-se, Tanira!

É que numa noite dessas tocou no rádio uma música linda… Era “The Planets Bend Between Us”, da banda irlandesa Snow Patrol. Com versos do tipo “vamos correr até a beira do mar, e eu vou gritar desde a Irlanda para que possam escutar nos Estados Unidos que é tudo por você… é tudo por você!”.

Fui pesquisar que musa teria merecido a linda homenagem do vocalist Gary Lightbody. Pois não é que o cara a compôs pensando em sua casa no litoral irlandês? “Há algo especial em estar na praia no inverno, sozinho, sob a chuva, gritando ao vento”, ele justificou. Vai entender…

“Something”, de George Harrison, é uma das mais belas da discografia dos Beatles na minha opinião. Há quem diga que a música foi feita para Patty Boyd (ex de Harrison, que também teria inspirado “Layla” e “Wonderful Tonight” do Eric Clapton). Alguns beatlemaníacos têm outras versões sobre a inspiração de George Harrison, versões menos românticas que vão de Krishna a Ray Charles. “Something” é a segunda música mais gravada da banda – só perde para “Yesterday”.

Uma curiosidade: a segunda frase de “Something”, “attracts me like no other lover” (“me atrai como nenhuma outra amante”), foi definida aos 45 do segundo tempo, quando os Beatles já estavam no estúdio para gravar. A versão de trabalho dizia “attracts me like a cauliflower”, ou “me atrai como uma couve-flor” – claro, o legume vinha sendo usado para estabelecer o ritmo.

É mesmo cheio de mistérios e vazio de regras o processo criativo.

E o Chico? Como nascem aqueles versos que me ajudam a me entender como “mulher”? Versos como “futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber com o amor que eu um dia deixei pra você”. Alguns segredos dos bastidores buarqueanos estão em “Histórias de Canções”, livro do curador do site oficial do artista.

Uma pérola que encontrei na “rede” relata como Chico Buarque e Vinícius de Moraes compuseram “Valsinha”. Foi nos anos 70. Como moravam longe a parceria foi viabilizada através de cartas. Elas estão publicadas no livro “Achados”, de Caique Botkay. Como eu acho que é parte valiosa do nosso patrimônio, tomo a liberdade de copiar aqui alguns trechos. Deleitem-se!

De Vinícius para Chico: “Chiquérrimo, Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. (…) Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa Hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha?”

De Chico para Vinícius: “Caro poeta, Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. (…) Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.”

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Ideias, ideias, ideias…

Elas podem surgir do nada, ou se esconder quando a gente mais precisa. (As que vêm em reuniões de pauta promovidas em mesas de bar são as melhores! Incríveis idéias, a esmagadora maioria jamais implementada.)

A dica, repetida em vários cursos de roteiro e redação criativa que fiz, é andar com olhos abertos e ouvidos atentos – e sempre com um caderninho à mão. O caderninho serve para anotar a reclamação na fila do mercado, ou a conversa no ônibus. É chover no molhado lembrar que jornalista tem que estar sempre tirando a febre das ruas, saber o que angustia a comunidade em que vive. No entanto, quando a tarefa é escrever para ficção, esses elementos do cotidiano são importantes na composição de personagens e diálogos coloquiais. (Andar de ônibus em busca de inspiração… Aí está uma ótima desculpa para não renovar a carteira de motorista!)

Algumas ideias evaporam, outras persistem, se acomodam em alguma gaveta da memória. “A Cidade dos Telhados de Vidro” é um conto com um toque de realismo mágico, que trata do assassinato de um padre numa cidade do interior. O pároco foi mandado desta para melhor junto com todos os segredos inconfessáveis que ouvia em seu confessionário. Já leu? Acho que não, pois ele ronda minha cabeça há anos… E as personagens vivem por aí, à espreita enquanto durmo, querendo sair da minha imaginação e entrar no papel.

Às vezes sai como um cupse, às vezes é um parto. Assim é a gênese de um texto para mim. Na rotina das redações é difícil dar à luz a textos sempre fluídos e bem “amarrados”, pois existe um fator complicador muy amigo dos jornalistas chamado deadline, que é o prazo para veicular a reportagem. Claro, a pauta e os entrevistados podem ajudar. Ou atrapalhar tudo…

Luxo dos luxos é poder deixar o texto de lado um dia ou dois antes do fechamento. Se afastar da criatura e ler mais tarde, com um olho diferente. Amadurecer um raciocínio. Acrescentar uma informação que cause impacto.

Esses dias Dona Inspiração veio do nada e me fez pensar sobre o amor apesar de. Esse aí eu rascunhei e fiquei namorando durante dias, mudando uma palavrinha aqui, outra vírgula ali, porque eu queria que ficasse redondinho.

“A gente nunca acaba uma obra, a gente desiste.” A frase que diz mais ou menos isso é atribuída ao cineasta George Lucas. Gosto de beber dessas fontes, é alentador saber que os grandes também sofrem das dores do parto criativo.

Para encerrar, uma lição do mestre Gabriel García Márquez, em “Como Contar um Conto”.

“Eu nunca torno a ler meus livros depois de editados, com medo de encontrar defeitos que tenham passado despercebidos. Quando vejo a quantidade de exemplares vendidos e as maravilhas que os críticos dizem, dá medo descobrir que estão todos enganados, críticos e leitores, e que o livro, na verdade, é uma merda. (…) Essa dose de insegurança é terrível, mas ao mesmo tempo necessária, para fazer algo que valha a pena. Os arrogantes, que sabem tudo, que nunca têm dúvidas, acabam dando tanta cabeçada que morrem disso.”

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E tu? O que ou quem te inspira?