Cadê teu voto?

Senti uma pontinha de ciúmes da caminhada que vi domingo pela manhã no Brique da Redenção.

Eu sei o quanto é gostoso participar de uma passeata, um protesto ou um comício com convicção – como as pessoas que seguiam aqueles candidatos. Sei como é bom fazer coro a palavras de ordem de rima pobre, acreditar piamente num projeto.

Fiquei enciumada porque nestas eleições municipais não tem ninguém que me desperte, assim, uma paixão avassaladora… Ninguém que, como em algumas eleições anteriores, me deixe louca de vontade de ficar rouca de gritar, ou sem pena de perder amigos temporariamente com meu lero-lero sobre ativismo cívico-político e tal. Mas isso não diminui meu entusiasmo.

Gosto de ver e escutar os programas do horário eleitoral gratuito – embora às vezes me canse a retórica piegas e o desfile de “candidatos” que não consigo definir se são oportunistas ou debochados mesmo.

Adoro discutir política no café da manhã ou numa mesa de bar como se entendêssemos profundamente do assunto. 😉

(Não sei se chega a ser preocupante, mas dia desses me peguei sussurrando no ouvido do namorado: “Gruda em mim que nem jingle de campanha”.)

 

Logo no início dessa campanha um movimento que apareceu nas redes sociais da Internet me chocou: era um movimento pela derrubada de cavaletes com a propaganda de candidatos. Em tempos de “mensalão” é totalmente compreensível que haja uma desilusão com nossos políticos. Mas achei a ideia simplesmente estúpida.

Ao invés de errar o alvo e sabotar o debate, não seria melhor escolher a urna como o local para resolver o problema com algum candidato ou partido? Aliás, podemos e devemos votar e protestar também com a carteira, com o controle remoto…

Também não entendi quando apareceu gente querendo banir a campanha das redes sociais. Quer um veículo mais clean e ecologicamente correto para discutir política? Não gostou? De-le-ta. Mas depois não venha querendo pregar o “Veta Dilma” ou reclamar que “esse é o Brasil”.

Não entendi por que querer excluir a discussão política da Internet, que hoje é uma extensão natural da nossa vida social. A pequena Isadora, ao criar uma página no Facebook para denunciar as péssimas condições da sua escola, demonstrou como o clique de um mouse nos faz poderosos. 

É apenas um exemplo.

Tenho estudado como a Internet e suas redes sociais se transformaram em ferramentas para o protagonismo político e mudaram as relações de poder. “No meio do século XX as pessoas temiam que os computadores e as comunicações da atual Revolução da Informática criassem um governo centralizador e controlador como o dramatizado na novela ‘1984’ de George Orwell”, diz Joseph Nye, um dos mestres das Relações Internacionais que moram na minha mesinha de cabeceira. “No entanto, ao contrário, com a redução do custo dos computadores e do tamanho dos aparelhos portáteis, o efeito descentralizador ultrapassou o poder centralizado”.

E isso mesmo dentro de Estados que lideram o ranking de “centralizadores”.

Foi via Internet que cidadãos de países árabes se mobilizaram para desestabilizar governos e derrubar ditadores e tentar reconstruir democraticamente sua história.

Blogs, Twitter, Facebook e YouTube foram instrumentais para a articulação do movimento que contestou as eleições presidenciais no Irã em 2009, um movimento conduzido pelas palavras de ordem “Cadê Meu Voto?”. Eu era correspondente da Globo News em Los Angeles, e lá cobri a repercussão do Movimento Verde entre os expatriados iranianos. Eles acompanhavam tudo, minuto a minuto, via redes sociais. Mais que conectar os iranianos, a Internet ajudou a mostrar para o mundo o que o governo certamente preferiria ocultar. (Aliás, “reconhecendo o papel que estamos desempenhando como uma ferramenta de comunicação no Irã”, como explicava o blog da empresa na época, o Twitter chegou a alterar uma manutenção rotineira que indisponibiliza o serviço durante algumas horas para evitar prejuízo aos manifestantes.)

 

Numa era de fronteiras estreitadas graças à tecnologia, que o drama de outros povos nos sirva, no mínimo, de estímulo para apreciar nossa democracia. Ainda há quem perca a liberdade, ou a vida, brigando pelo direito de escolher seus governantes – o voto, que no Brasil é consolidado.

Como nos conta a imagem da vovó fofa que peguei emprestada do Huffington Post.

No Afeganistão os eleitores têm o dedo indicador pintado para evitar fraude – evitar que se vote mais de uma vez. O problema é que os talibãs ainda têm problemas com a democracia e volta e meia cortam o dedo de quem votou. Para tentar coibir, intimidar, aterrorizar. Mesmo assim, correndo riscos, a vovó fofa foi às urnas!

Se der preguiça na hora de votar, lembra: tem muita gente mundo afora com ciúmes da gente.

E tu, o que te motiva nestas eleições?

As “medalhonas”

Papo flagrado num corredor de supermercado. “(…) Daí eu falei que ela era parecida com a Mayara, sabe, aquela atleta? E ela me disse que são irmãs!”, o rapaz comenta com um amigo. “E ela me mostrou as fotos, e até uma mensagem dela prometendo a medalha!”

Faz todo o sentido:  o supermercado em questão fica pertinho de casa, pertinho da Sogipa, onde treina a judoca. A conversa foi no comecinho das Olimpíadas, dias antes de Mayara Aguiar agarrar seu bronze e deixar de ser apenas “aquela atleta”. Sabe?

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Ricky Martin avisou pelo Twitter que está viciado em Olimpíadas. Eu também. É um olho nos temas de casa, outro em qualquer competição que estiver passando pela TV. Sou fácil assim, altamente influenciável – e ser contagiada pelo espírito olímpico não faz mal, faz?

A cada quatro anos, durante duas semanas, entendo tudo de atletismo, conheço as regras do vôlei, sou capaz de avaliar com precisão um salto ornamental. E depois cerimônia de encerramento sofro, durante dias sofro de “síndrome de abstinência de Olimpíadas”.

Porque além do espetáculo da busca da perfeição que são, as competições têm exemplos de perseverança, persistência e de ousadia que sempre inspiram.

A luta da judoca Wojdan Shaherkani durou apenas um minuto e 22 segundos – fora do tatame a batalha é bem maior.

Ela e a atleta Sarah Attar foram as primeiras sauditas a competirem numa Olimpíada. Precisaram de uma autorização especial do rei, já que na Arábia Saudita mulheres são proibidas de praticar educação física nas escolas, de frequentar clubes ou eventos esportivos. (A judoca Shaherkani treina com o pai. Attar, especialista dos 800 metros, mora nos EUA onde é treinada por Joaquim Cruz, nosso medalhista de ouro que corria descalço no começo da carreira.) No entanto, o que muitos veem como um feito histórico foi encarado como um insulto ao Islã pelos conterrâneos mais radicais: nas redes sociais da Internet Wojdan e Sarah foram chamadas de “prostitutas das Olimpíadas”.

A façanha da norte-americana Gabrielle Douglas foi conquistar medalhas de ouro individual e por equipe na ginástica artística. O pecado dela foi não se preocupar tanto com o visual. Douglas, o “esquilo voador”, foi criticada via Twitter por não ter produzido o cabelo para a competição (ela fez uma singela colinha e  prendeu os fios mais rebeldes com tic-tacs). Sério, isso aconteceu, de fato aconteceu…

E em algum lugar do universo Renato Russo se indignaria: “O que é demais nunca é o bastante?”.

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Admiro a devoção dos atletas. Te falo de plano a longo prazo: dedicar uma vida inteira para definir a prova em questão de segundos, gramas, milímetros. A medalha de ouro do “homem mais forte das Olimpíadas”, o iraniano Behdad Salimikordasiabi, pesa 455 kg. Nos 200 metros borboleta, cinco milésimos de segundo separaram o sul-africano Chad Le Clos do segundo colocado, o Aquaman Michael Phelps.

Imagino o que eles pensam quando estão lá no pódio. Phelps, por exemplo. Ele, que chegou a instalar a cama dentro de uma câmara que simula a atmosfera de uma altitude elevada para melhorar sua performance. Phelps disse que tudo o que quer depois da missão cumprida é dormir. Como qualquer pessoa que não carrega o peso de 18 ouros e 22 pratas, ele quer dormir até tarde. Nada de treinar de madrugada!

Vibro com os persistentes. Como o jogador do vôlei masculino que não se intimida com o olhar fulminante do Bernardinho ao errar um saque ou um passe. Numa mesma nota, adoro a ousadia da líbero Fabí, do vôlei feminino, que busca a bola lá fora da quadra com o pé!

Admiro quem não joga a toalha. Quantos nãos o sul-africano Pistorius ouviu até chegar a Londres?

Admiro os determinados. Como o guri que um dia chegou para os pais e decretou: “Quero ser arremessador de martelo!”. Ou o que avisou: “Quando crescer serei um ginasta. E minha especialidade será argolas!”

(Mas será que não dava para querer ser engenheiro, médico, ou ao menos um jogador de futebol ou de basquete?)

Admiro o pai que disse “Tá bom, filho”. E lá foi ele mesmo forjar argolas para o guri treinar. Fast forward para Londres 2012 e lá está Arthur Zanetti, recebendo um “ouro inédito para o Brasil”.

Vibro com quem lota as arenas desportivas e torce, torce fervorosamente por qualquer bandeira que lhe desperte simpatia. Assim como o amor, o esporte parece ser um idioma universal…

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O domínio de países como EUA e China nos Jogos Olímpicos pode ser resquício do tempo em que a guerra fria transbordava para o esporte. Lembra da briga entre os esteites, a (na época) União Soviética, Cuba? Mas nesses países os atletas se formam desde o berço, seja por iniciativa do Estado ou da família.

Quando estive na China fiquei admirada com o tamanhinho dos atletas, recrutados ainda bem criancinhas e levados para instituições que são um misto de escola/internato/centro de treinamento. Num país de um bilhão de habitantes, a chance de se destacar pelo esporte parece imperdível – além de ser encarada como um dever cívico.

Nos Estados Unidos ser bom em algum esporte garante uma bolsa de estudos nas caras universidades, e daí para se formar como um atleta é um pulo.

No U.S. Olympic Complex em Colorado Springs, Colorado

E há outro objetivo, além de manter a supremacia no quadro de medalhas: o esporte também é ferramenta diplomática.

Nos anos 70 os EUA mandaram jogadores de ping-pong para quebrar o gelo com o bloco comunista em partidas amistosas na China (o episódio está deliciosamente retratado no filme “Forrest Gump”). Nos anos 90 uma equipe de luta-livre norte-americana foi ao Irã para participar da Takhti Cup International; era uma tentativa dos então presidentes Clinton e Khatami de reaproximar os países, cujas relações estavam rompidas desde a Revoluçao Islâmica de 1979.

Mais recentemente, com o programa “SportsUnited”, o Departamento de Estado dos EUA tem levado treinadores e atletas para “fortalecer laços com outros países através do intercâmbio com jovens e crianças de comunidades carentes”. Mais ou menos o que o Brasil fez no Haiti em 2004 com o “Jogo da Paz”, só que num empenho constante.

(Mas não pense que eles estão com a vida ganha. Os jogos de Londres têm servido como “gancho” para n reportagens sobre as dificuldades financeiras dos atletas olímpicos norte-americanos.)

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Enquanto escrevo tem festa em Porto Alegre: os judocas Mayara Aguiar e Felipe Kitadai (também bronze) acabam de chegar de Londres e desfilam em carro aberto pela cidade. Tem festa para a “medalhinha” (ouvi, ouvi sim comentarista esportivo chamando o bronze de “medalhinha”). É “medalhona”, tá?

A treinadora Rosicleia Campos usou lágrimas para dizer mais ou menos isto: no país do futebol praticar qualquer outra modalidade é uma briga eterna pelo reconhecimento.

Para muitos atletas os desafios continuam depois da competição, além das quadras, pistas, piscinas. E isso não é “privilégio” dos “não-jogadores de futebol” brasileiros.

Admiro quem não se achica –  diante de seus competidores, ou dos obstáculos. Aplaudo quem não foge da briga, como o ciclista Magno Prado que remendou com alfinetes o zíper quebrado do único uniforme que tinha. (A imagem que correu o mundo me fala sobre o caráter do atleta. Deveria ser um “kick up the backside” para a potência emergente que está prestes a sediar Copa e Olimpíadas.)

Acho que o esporte é feito disso: de perseverança, de persistência e de ousadia. Ah, como eu queria, pela inspiração que ela traz, que a febre olímpica durasse mais. 😉

E tu? O espírito olímpico também te contagiou?

FUTEBOL = PERTENCER

Escrevo ainda sob o calor do “Dia do Fico” de D’Alessandro, da estréia do Internacional na Libertadores e da promessa de uma bela campanha no Gauchão.

Sério. Fiquei emocionada com a decisão do D’Ale. Os argumentos que a direção do clube usou para convencê-lo a ficar foram bons e sabe-se lá quantos cifrões formaram  a cereja do bolo. Mas é óbvio – e isso até gremistas com dor de cotovelo admitem – que contou também a possibilidade de se firmar como um líder para o time e, sobretudo, um herói para a torcida. Achei fofo el D’Ale comentando na coletiva após a proclamação do “fico” sobre o carinho que sente pelo Inter, desde a tia que prepara o lanche, ao tio que cuida do vestiário, ao porteiro.

Lembro quando Zico, lá no comecinho dos 80, decidiu ir jogar na Itália deixando toda a torcida do Flamengo desolada. Vi a notícia num desses telejornais tarde da noite, lembro das imagens de cariocas chorando e xingando. E xingando. Muito.

Não entendo muito mais sobre futebol do que entendia naquela época. No entanto, me arrisco a um palpite: futebol = pertencer.

Zico acabou voltando. Mais tarde migrou outra vez – só para voltar novamente… Deve ter sentido falta dessa sensação.

Na China, que contratou animadores de torcida para alegrar as multidões nos estádios nas últimas Olimpíadas, será que o D’Ale conseguiria “pertencer”? (Dica: não se surpreenda se a China continuar tentando importar nossos craques… Fique de olho, hein? Na Alfa tem um belo artigo sobre por que é melhor viver sob o império norte-americano que sob um império chinês.)

Eu pertenço à nação colorada desde pequeninha. Nunca esquecerei de uma tardinha em que o pai nos levou para comemorar uma vitória do Inter na esquina de casa, abanando guardanapos vermelhos para os carros que passavam em festa. (A Maia estava junto mas o empenho não colou com ela, que se bandeou pros lados do tricolor…)

Não sou do bloco dos doentes ou fanáticos. Até torço pelo Grêmio se for para garantir um clássico em final de campeonato, ou se o adversário deles for um time carioca ou paulista.

Mas visto minha camisa com orgulho! Mesmo quando isso implica em acordar de manhã cedinho para o registro de uma porção da torcida desgarrada comemorando o centenário do clube em Los Angeles.

Ser brasileiro, quem mora fora sabe, é um ótimo cartão de visitas e isso se deve muito ao futebol. Não importa o quanto o legado de FHC e a administração de Lula tenham mudado a imagem do país lá fora, Brasil ainda é = Bossa Nova, Carnaval, café e Pelés, Romários, Ronaldos…

Nossa torcida se globalizou. Fiquei surpresa e orgulhosa ao ver a camisa 10 da seleção espalhada pelas lojinhas de um bazar em Marrakech durante a Copa do Mundo de 2006.

Aliás, imprescindível levar na mala um estoque de presentinhos verdes e amarelos nessas viagens de produção. Impressionante como essa gentileza abre portas! (É o que na seara das relações internacionais se chama de soft power: a habilidade de persuadir os outros a fazerem o que você quer que eles façam, através de atração e recompensas.)

Recém-chegada nos esteites, se eu avistasse alguém vestindo a inconfundível camisa da seleção corria para abraçar! Queria tocar, beijar, falar português, dar um balãozinho na saudade…

Imigrante brasileiro que se preze coloca o filho em escolinha de futebol (muitas dirigidas por jogadores veteranos daqui). É uma maneira de ensinar o idioma, a ginga e quem sabe conquistar uma bolsa de estudos numa universidade americana. Comunidade brasileira que se preze tem a bendita pelada do fim do dia ou da semana. Apesar do festival de baixarias que rola em campo (afinal os jogadores são de diferentes estados ou de times rivais), a pelada funciona como um boca-a-boca de anúncios classificados: dá para arrumar emprego, vaga em apartamento, um carro usado.

Os Estados Unidos também tentam, meio que em vão, popularizar o futebol por lá. Desde os anos 70, quando o Cosmos levou o Pelé. Em LA o Galaxy investiu alto e contratou David Beckham. Fui a uma partida pronta para torcer para os gringos do Galaxy, mas acabei migrando para a arquibancada do Chivas USA, que é uma equipe com raízes latinas, com uma hinchada mais caliente e genuína.

No entanto, nada se compara a ver um jogo num templo do futebol brasileiro, mais precisamente num estádio localizado à beira-rio…

É um privilégio.

Enquanto isso, em outro cantinho do planeta há quem corra grandes riscos em nome do futebol. É o caso das iranianas. Elas são proibidas pelas rigorosas leis islâmicas de frequentar espaços predominantemente masculinos – mesmo assim, insistem em pertencer. O belíssimo e singelo “Fora do Jogo” (Offside, de 2006) de Jafar Panahi narra a saga de mulheres iranianas que se disfarçam de homens para entrar no Estádio Azadi. Ironicamente, azadi significa liberdade em persa.

(Parêntese: em inglês offside se refere à regra do impedimento. Ironicamente, hoje é o cineasta Panahi que tem sua liberdade tolhida. Ele está impedido de sair do Irã e de trabalhar durante 20 anos, acusado de agir contra a segurança nacional e fazer propaganda contra o regime.)

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Tem um personagem que não pertence a ninguém nessa história. É a bola.

Não entendo por que garotos de todas as idades gastam saliva descrevendo (talento que só eles têm) com detalhes precisos, cinematográficos até, os gols que pensam que marcaram. Habilidade do artilheiro? Falha do goleiro? Comentaristas, técnicos, jogadores teorizam sobre a origem do gol. E esquecem que quem manda é ela… Ela é dona da sua vontade. Para virar um craque o cara tem que saber encantá-la.

E a prova está aqui: o genial Carlos Drummond de Andrade torcendo pela vitória na Copa de 70.

Bolinha minha, meu amigo redondo, suplico-te: não deixes a Copa ficar com a Britânia ou outra qualquer nação que dela não precisa como precisamos nós. Faze o seguinte: se nossos atletas não derem tudo que têm obrigação de dar, assume por ti mesma o ataque, vai em frente e, sozinha, ganha para nós, esse terceiro campeonato.

Em tempo: “my two cents” sobre a visita de Obama

É uma expressão idiomática do inglês. “My two cents” dá um valor modesto a uma opinião sobre um assunto polêmico. Pois aqui vão os meus “dois centavos” sobre a visita do Presidente Barack Obama ao Brasil.

Começando pelo fim. Cobertura ao vivo da despedida dos Obama. Assim que o Air Force One decola o prefeito e o governador do Rio de Janeiro se apressam em desfiar elogios à família. “Eles adoraram, querem voltar logo, vêm para a Copa, o Carnaval, para as Olimpíadas.” Oba, oba! Mas… peraí? Não era um Presidente empenhando em reter para seu país o status de potência incontestável numa visita oficial à primeira Presidenta de uma potência emergente?

Entenda-se que com frequência o Presidente Obama é chamado pela imprensa americana de “Charmer in Chief”. E foi o que ele fez no Rio: arriscou no português, citou Jorge Benjor, pediu a benção ao Cristo Redentor, encantou. No entanto, por trás desse charme todo havia um plano que o Cebolinha consideraria “infalível”: aqui começava a campanha para a reeleição.

Essa não foi simplesmente uma visita de cortesia à Presidenta (denta porque ela mesmo disse que assim quer ser chamada) Dilma Rousseff. É só ver no site da Casa Branca o pronunciamento que Obama grava semanalmente. Lá no weekly address do dia 19 de março estava claro: a missão no Brasil e na América Latina era aumentar as exportações norte-americanas, acelerar o crescimento econômico do país .

“O mercado e a economia da América Latina estão crescendo rapidamente”, disse Obama, “e com isso cresce a demanda por produtos e serviços. Quero me empenhar para que esses produtos e serviços tenham origem nos Estados Unidos”. Segundo o Presidente Obama, cada bilhão de dólares em exportações significam cinco mil vagas de trabalho. “Em 2010 as exportações para o Brasil garantiram 250 mil empregos nos Estados Unidos”, exemplificou. E é tudo o que os americanos querem: trabalhar.

Com duas guerras sem fim e índices de desemprego históricos, Barack Obama herdou da dinastia Bush um pepino de Itu. É de se admirar que ele queira continuar no posto. Mas até 2012 é necessário recuperar a economia, e esse caminho passa pela América  Latina, pelo Brasil.

Por isso, antes de comemorar qualquer boa impressão causada pelo país a Obama e vice-versa,  é importante que fique claro: para os Estados Unidos o Brasil é um “parceiro estratégico” e não um aliado. Citando um texto da Folha de São Paulo, “em diplomatiquês, há uma distância continental entre os termos aliado e parceiro”. Portanto, contar com o apoio dos EUA para algumas ambições brasileiras como uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU… not so fast. Agora, abrir as portas para mais produtos made in USA, aí são outros quinhentos.

Resta saber como a administração Rousseff vai reagir à nova investida norte-americana, e se uma renovada agenda seria efetivamente bilateral, promovendo crescimento mútuo.

Do lado de cá do tabuleiro, a impressão que eu tenho é que a política externa brasileira está sempre baseada em quanto e como apoiar ou se acomodar à política dos Estados Unidos. Um breve passeio pela nossa história oferece alguns exemplos.

Resumidamente. Getúlio Vargas negociou com o presidente americano Franklin Roosevelt o envio de tropas para lutar na Segunda Guerra Mundial. Em troca, receberíamos uma série de benefícios e investimentos numa condição especial de aliado dos Estados Unidos. A promessa, dizem os livros, nunca foi cumprida. A tal “relação especial” era apenas um mito, o Brasil um ator dócil nesse cenário em que toda nossa produção era adequada à necessidade norte-americana.

Pulando alguns capítulos, os anos JK ecoaram o pensamento do então Ministro das Relações Exteriores Horácio Lafer: “O mundo tem mais do que dois pontos cardeais”. O objetivo era uma reorientação multilateral. A administração de Kubitschek buscava recursos nos EUA e na Europa para implementar seu projeto desenvolvimentista, enquanto moldava novos acordos econômicos e políticos na América Latina.

Jânio Quadros instaurou sua Política Externa Independente e até “ousou”, apoiando a Revolução Cubana, condecorando Che Guevara, aproximando-se da China e da União Soviética. Deu no que deu. Operação Brother Sam, golpe militar, e anos de subserviência. “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, disse o chanceler do Marechal Castelo Branco.

Curiosamente foi também um general, Ernesto Geisel, que deu passos inovadores nos anos 70. Sua administração libertou o Brasil do alinhamento automático com os EUA dos regimes militares anteriores. Geisel reatou com a China, começou a construir Itaipu, ampliou laços com países europeus e africanos.

Dependendo da leitura, FHC é herói ou vilão. Ele consolidou a abertura econômica do Brasil, mas para isso adotou regras ditadas pelo FMI e pelo BID, o chamado Consenso de Washington. Um preço caro. Sua administração entra na chamada “década bilateral”, em que o desenvolvimento se dá pela “aceitação”. Um fenômeno que o próprio FHC criticaria mais tarde, denunciando “os efeitos nefastos da globalização assimétrica” e propondo uma globalização solidária.

Lula apostou no desenvolvimento pela reciprocidade. Seu plano de governo visava trabalhar na redução da vulnerabilidade externa, exportar mais, e criar um forte mercado interno de consumo. A América  Latina passou a ser a prioridade da política externa. Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores, pregava a queda do muro norte-sul que “separa os ricos dos pobres”. “A aproximação com países em desenvolvimento complementa e enriquece as relações tradicionais com os países desenvolvidos”, disse Amorim.

Notadamente, a administração Lula levou o Brasil a integrar o BRIC, bloco que, segundo o próprio governo norte-americano (em relatórios da CIA), deve tomar conta da economia nas próximas décadas. Com sua política multilateral, selou alianças com potências médias e nações emergentes.

O governo Lula usou a estratégia que todo mundo que namora conhece bem. Depois de anos de menosprezo e submissão, decidiu paquerar em outra freguesia, procurar outros parceiros. Mostrou seu valor, e passou a se fazer de “difícil”. Afinal, a fila anda…  Obama percebeu o filézão que os EUA estavam deixando escapar e decidiu “pedir pra voltar”. Por isso a urgência de visitar o Brasil. Com todo seu charme…

(Sim, é com esse raciocínio sofisticado que eu pretendo cursar o Mestrado em Relações Internacionais na UFRGS.)

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Esses são meus “two cents”, minha modesta opinião. E você, como percebeu as diversas encarnações da política externa brasileira até agora? Alguma mudança chegou a doer no bolso, por exemplo?