As Minas do Camaquã

Tá vendo aquela cruz? Vamos subir até lá.

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O Capricórnio que vive em mim com frequência cansa da cidade e me pede mato. Quer escalar um cerro ou morro. Meu pulmão asmático quer um ar cheirando a verde e de sabor gelado. O coração quer sentir um quê de medo diante do desconhecido e a alegria de experimentar algo novo.

Foi com essa lista de intenções na mochila que partimos para visitar as Minas do Camaquã. Fica no município de Caçapava do Sul, distante 320 km de Porto Alegre, incluindo uns últimos 30 km de chão batido. Eu, co-piloto, vinha de olho no caminho (em muito boas condições). E o Gringo insistia: “Da estrada cuido eu, olha para os lados. Vai procurando pelas Guaritas”.

As Guaritas são um conjunto de formações rochosas trabalhadas pela ação de ventos, chuvas e pelo curso de rios. Essa é a descrição de enciclopédia… Pois a paisagem que apareceu na janela não cabia nos olhos e não pode ser medida com palavras. Diz o Gringo que elas mudam de cor de acordo com a incidência do Sol. As conheci num tom rosado, numa tarde ensolarada, mas a única fotinho das Guaritas que eu bati foi num dia chuvoso…

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Não faz jus à beleza do local que está entre as Sete Maravilhas do Rio Grande do Sul (título dado pela Secretaria de Turismo).

Achei muito semelhante às formações que vi no Grand Canyon, no Arizona (EUA), que foi esculpido pela erosão do Rio Colorado.

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O Capricórnio em mim gosta mesmo de uma montanha… Chegando às Minas do Camaquã avistamos o Morro da Cruz. Dá para subir? Dá! Esse é o ponto de referência do vilarejo que um dia abrigou trabalhadores de uma mina de cobre, hoje desativada. A cruz foi colocada lá pelo empresário Baby Pignatari, ex-proprietário nas minas, para que ele identificasse a região quando se aproximava a bordo do seu avião particular.

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Ao pé do morro fica a Barragem João Dias, uma área de preservação ambiental. Para entrar é preciso retirar autorização com o pessoal da Minas Outdoor Sports, empresa que oferece uma série de atividades de ecoturismo e aventura. Do topo do Morro da Cruz, a 140 metros de altura, parte a “mega tirolesa” que tem mais de um km de extensão!

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Prefiro a tirolesa do Parque Moinhos de Vento, apesar da discriminação contra maiores de 12 anos…

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E depois da escalada, pausa para contemplar esta paisagem com cheiro verde e sabor gelado, bem como eu queria – e precisava.

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A subida do Morro da Cruz é livre, mas não é “para os fracos”. É uma caminhada de dificuldade média por um paredão bem íngreme. Uma corda na metade do trajeto dá apoio para passar por um pedregulho escorregadio.

IMG_20150502_130303951_HDRNo centro do vilarejo tem uma praça que abriga monumentos aos mineiros e o Cine Rodeio. Quem viveu os tempos áureos da mineração na região, lá pelos anos 70 a 80, conta que ali aconteciam festas e eventos grandiosos!

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Atualmente o Cine Rodeio está interditado – tomara que o restaurem e reabram logo… Para conhecer melhor essa história toda tem city tour que leva também às ruínas das minas (não fizemos por que o tempo emburrou).

Exploramos o local por conta própria, desbravando caminhos e transpondo obstáculos como num game da Lara Croft.

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Há muitas trilhas pela região e em algum momento sentimos a falta de um mapa que nos indicasse aonde ir. Se por um lado é bacana improvisar a aventura, acho que algumas oportunidades podem ser perdidas pela falta de orientação. Dilema parecido vivemos na nossa (inesquecível) viagem ao Itaimbezinho.

Uma dica de “onde comer” e “onde beber”: a lanchonete da Tia Lú. Lá tem pizza e massas de outro mundo e uma geladeira cheia da cerveja artesanal de Caçapava do Sul. (Parafraseando outros mineiros, os de BH, “aqui não tem mar mas tem bar”…)

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Como aperitivo e sobremesa somos servidos das histórias impagáveis de quem vive num local que às vezes não é tão pacato como se imagina um vilarejo no interior gaúcho…

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É que Caçapava do Sul é um polo de ufologia (como indica a imagem que roubartilhei na Internet). Em Minas do Camaquã dizem que há um portal que tráz visitantes de outros planetas, ou outras dimensões. Ouvimos alguns relatos instigantes de gente que teve algum contato imediato de algum grau com esses seres.

Agora, falando francamente… Ao olharmos para o céu estrelado numa noite de Lua (como a que vivemos nas Minas) é possível apostar que estejamos realmente sós por aqui? E esta paisagem que parece cenário de filme de ficção científica? E o metal minerado na região? Vai saber se ele é precioso não apenas para os terráqueos… Que me dizes, cosmonauta?

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I want to believe.

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Nos hospedamos na pousada do Minas Outdoor. Os quartos são bem aconchegantes e há uma boa área para convivência. Aproveitamos a varanda para fazer um dos nossos programas preferidos: jogar, rir, brincar.

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Tomamos conta do livro do Guigo, e levamos um xixi pela bagunça que fizemos no estojo dele, trocando lápis de cor e canetinhas de lugar. Tipo… foi mal…

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Viagem boa é aquela que te transforma, que rouba um pedaço de ti. Com os companheiros certos, viajar fortalece laços. Sempre digo que compartilhar descobertas e enfrentar juntos os perrengues da estrada é fundamental para um relacionamento.

Por isso essa pequena grande aventura me convenceu: sabe aquela história de “outra metade”? Parece cantada barata, expressão de rima fácil para canção boba… até encontrares a tua.

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No meu caso, uma outra metade mais um. 🙂

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Jamón del Medio

Tenho uma recordação bem particular daquele verão. É lembrança de um tombo em alguma esquina da Avenida Santa Fé, que eu levei enquanto caminhava, desatenta a todo o resto, admirando a arquitetura dos prédios que decoram os céus da capital argentina.

Era um fim de tarde, o começo do nosso passeio por Buenos Aires. Nosso primeiro destino foi a livraria El Ateneo, que funciona no antigo Teatro Grand Splendid. Lá onde antes havia assentos hoje há estantes de livros. O palco virou um café. Eu havia passado dias sonhando acordada em conhecer a El Ateneo!

El Ateneo

Gosto de cidades com rugas, de lugares que têm alguma história para contar. Nesse quesito Buenos Aires é um prato muito, muito farto – daí explica-se por que eu andava tropeçando pelas calles argentinas.

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Como em toda a cidade, em Buenos Aires há que se cumprir um roteiro obrigatório: Casa Rosada, Puerto Madero, La Boca, Recoleta, a Feria de San Telmo (onde me sinto como um pinto no lixo)… tortoni

É obrigatório comer churros no Café Tortoni!

No entanto, acho que para conhecer uma cidade é preciso experimentá-la como ela é no seu dia-a-dia.

Buenos Aires é linda e, como qualquer lugar deste mundão, fica ainda mais bela com a companhia certa. O que para mim significa ter alguma dose de “espírito aventureiro”.

Gringo descobriu que devíamos comprar um “Guía T” (“guia-te”, sacou?), um livrinho que tráz mapas das linhas de ônibus e de metrô. O guia de bolso colocou cidade na palma das nossas mãos, e assim nos sentimos quase porteños.

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Nos hospedamos no apartamento de Elisa y Carlos (alugado pela Internet) em Palermo, bairro onde morou Che Guevara e que ainda hoje é endereço de Charly García. (Sei disso não só por que havia lido em algum lugar, mas por que nosso anfitrião fez questão de nos mostrar onde mora o cantor. “Carlos”, aliás, virou apelido de todo argentino bacana que encontrávamos – como o motorista de ônibus que não nos deixou pagar passagem no dia de Natal.)

A região de Palermo é uma das mais transadas de Buenos Aires. Caminhando algumas quadras do ap chegávamos ao coração do Palermo Soho. Lá, nos fins de semana, praças como a Serrano são tomadas por feiras de artesanato; danceterias viram espaços coletivos para designers e estilistas. Uma moda que, dizem, surgiu com a recessão econômica de 2001, e que pegou.

A vizinhança era realmente um “problema”. As ruas (creio que seja assim por todo o país) são cheias de confeitarias com aquelas facturas e sandwiches de miga indecentemente exibidos nas vitrines. A-do-ro sandwich de miga, aquele de pão bem fininho, recheado com palmito, morrones, jamón, huevos duros… E na Argentina tem sandwich de miga triplo!

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A localização, perto de estações de metrô e pontos de ônibus, nos ajudou a planejar os passeios. Conhecemos áreas não tão charmosas da cidade nas nossas viagens em colectivos. Andamos na mais antiga linha de metrô da América do Sul, a linha A do subte.

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Comemos parrillada, milanesas, medialunas – e MUCHOS sandwiches de miga!

Ensinamos aos mozos (garçom, em espanhol) como é que a gente gosta de tomar cerveja: gelada, e não apenas “fría”. Foi engraçado ver a estranheza e até a inconveniência que causávamos ao pedir um balde de gelo para colocar a garrafa. Cerveza de litro, fría? Em pleno verão? Não dá, né?

A mais gelada que tomamos foi no El Querandí, onde assistimos a um show de tango. Mal sentamos à mesa e já fomos combinando com o mozo: guarda uma garrafa só pra gente, por favor, lá no fundo do freezer… ¿Vale? El Querandí fica no centro histórico da cidade, perto da Plaza de Mayo. O show é uma produção enxuta e tocante, que conta a história do tango desde o surgimento, no século XIX.

Mas para experimentar o verdadeiro tango fomos a uma milonga! É onde os argentinos e aprendizes estrangeiros se encontram simplesmente para bailar. O lema do La Viruta, que fica na região de Palermo, é “entrás caminando… salis bailando”. Sim, eles fazem tudo parecer tão fácil…

Atravessamos a cidade para visitar o Museo Argentino de Ciencias Naturales Bernardino Rivadavia, que tem um riquíssimo acervo de fósseis. E aí foi a vez do Gringo virar um pinto no lixo no meio dos dinossauros.

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E atravessamos (eu correndo) as largas avenidas…

Conversando com taxistas ouvimos um comentário que já entrou para a nossa história – “o Grêmio é mais famoso que o Inter”…  E descobrimos o que significa a expressão “jamón del medio”, que é como os hermanos chamam “a cereja do bolo”, o melhor de tudo.

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Descobrimos El Boliche de Roberto ao procurar por um lugar que ficasse fora do roteiro turístico tradicional. E acho que não há nada mais genuinamente argentino que o balcão de madeira onde, conta a lenda, se debruçava Carlos Gardel. lo

O boliche é pequeníssimo. Chegamos cedo e nos acomodamos no bar – bebendo de uma garrafa de cerveja fría que o barman/mozo/cozinheiro/caixa voltava a guardar na geladeira após cada servida, evitando que a coisa virasse um . O cardápio simples está num quadro de giz: empanadas e tábuas de frios. Para tomar, cerveja ou fernet.

Em minutos, a casa lotou: estudantes, boêmios, músicos, alguns turistas como nós. O show começaria em breve – e que show!

Num palco junto à janela, Maricruz canta acompanhada por dois violões. O tango tem essa coisa dramática, visceral, que a voz grave de Maricruz interpreta com perfeição.

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Depois da apresentação os músicos passam o chapéu: vale mais a pena do que qualquer pequena fortuna cobrada nas concorridas casas de espetáculo.

deA decoração já valeria a visita.

Sabe essa moda de decorar botecos com peças antigas? Pois é mais ou menos assim, só que lá o vintage, o antigo, é original. Assim como é verdadeira a poeira que cobre as garrafas acumuladas nas prateleiras que vão até o teto – aposto que ali tem poeira que entrou no boliche junto com Gardel.

Nessa viagem, “Lo de Roberto” foi o meu “jamón del medio”.

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Foi um esfoladinho bobo, achei que não ficaria cicatriz. Nem me preocupei em fazer um curativo decente – ah, eu tinha muito mais o que fazer naqueles dias! Olho para a pequena marca no meu joelho direito com carinho: ela virou minha passagem secreta para Buenos Aires.

PS: Para conhecer a Buenos Aires dos argentinos, visite o blog da jornalista Gisele Teixeira, que se encantó y por alla se quedó.

Os muito chatos que me perdoem…

Noite dessas vimos o show “Cale-se: as Músicas Censuradas pela Ditadura Militar”. Bem como eu imaginava, é uma pequena aula sobre o cancioneiro proibido naqueles anos de chumbo.

“Tente Outra Vez” do Raul. Pode? Com frases tipo “você tem dois pés para cruzar a ponte” ou “tenha fé em Deus, tenha fé na vida”, mais parece um cântico religioso, não parece? Foi censurada.

E o Chico? Esse era o número um na lista de músicos mais frequentemente calados pelo regime militar. Mas que mal há em cantar “me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, um riacho de amor”? A censura não gostou nadinha desse assanhamento todo…

Também foi vetada pela ditadura a fofa “Severina Xique-Xique”, lembra? “Ele tá de olho é na butique dela…”

Mas o tempo passou, ufa… Censura? Nunca mais!

Jura?

Hoje em dia, mesmo em tempos de democracia, eleições diretas e afins, tenho a impressão de que vivemos sob uma nova espécie de censura, perigosíssima! É a ditadura do sem-graça, da chatice. Vivemos sob a mira das patrulhas do politicamente correto e, pior, do intelectualmente correto. (E em muitas ocasiões, hás de concordar comigo, os nossos censores somos nós mesmos…)

Eu não vejo BBB, nem A Fazenda. Não acho interessante. Parcece que os personagens se repetem ano após ano, passam os dias armando complôs e jogando cabelões e músculos de um lado para o outro. Sinceramente, não curto. Só para implicar, telefono pra quem eu sei que assiste bem na hora do programa pedindo papo ou intimando para uma “DR”.

Mas eu dou uma espiadinha, sim. No mínimo para poder participar de alguma conversa. Ou por que às vezes de tão bizarro fica impossível não ver. Isso me define? Isso define as centenas de milhares de brasileiros que votam em uma eliminatória qualquer? Creio que não.

“E enquanto isso, você grita gol”, critica a patrulha. Grito gol, grito sim. Posso?

Pago imposto e pago minhas contas, cedo o lugar na fila, ando com lixo na mão até encontrar a lixeira, digo “por favor” e “muito obrigada”, xingo empresas públicas e privadas nas mídias sociais (e também elogio, quando merecedoras), leio Allende e García Márquez, voto bem mais pelo prazer que pela obrigação, visito o Votenaweb para acompanhar o desempenho dos meus representantes, uso cinto de segurança e respeito a faixa de pedestre.

“E enquanto isso, você pula Carnaval…” Eu vou atrás do trio elétrico, sim. Dá licença?

Participo de tuitaços e de campanhas da Anistia Internacional, sou doadora de sangue, não jogo óleo de cozinha na pia (guardo para reciclar, aliás reciclo todo meu lixo, sou uma serial recycler), dou “bom dia” para estranhos, cedo o banco no ônibus, fui “cara-pintada”, fiz bandejaço no RU, gastei a voz em passeatas contra as guerras no Iraque e no Afeganistão, ouço Beatles e rock progressivo.

Não tô querendo atestado de boa moça (tenho lá meus pecados, e não escondo meu desgosto por muita coisa que há por aí…). Mas pergunto: o fato de eu torcer pelo Inter, ver minha novelinha das seis, pular meu Carnaval, me faz uma pessoa alienada, manipulável?

Ou precisamos todos fazer um voto de tristeza, torcer o nariz pro Gangnam Style”, fingir que entendemos aquele filme “cabeça”, fazer um pacto com a chatice?

Prefiro pensar que o que define uma pessoa, um cidadão, não são as horas passadas em frente à TV ou no estádio – embora o futebol, vamos combinar, seja um patrimônio, ferramenta da nossa diplomacia cultural e parte da nossa identidade, sim!

Prefiro pensar que o que define o meu país é o exército de trabalhadores voluntários, as reuniões do orçamento participativo, é o casal que devolve uma pequena fortuna encontrada na rua, a adoção de animaizinhos, ativistas como a Isadora, as caminhadas por justiça que lotaram as ruas gaúchas nas últimas semanas, as 594 vassouras na Esplanada dos Ministérios, os milhões de assinaturas nas petições do Avaaz (que ajudaram a empurrar, por exemplo, o “Veta, Dilma”).

E se no fim do dia quisermos simplesmente xingar o juiz e o vizinho, torcer pelo infeliz que foi parar no paredão ou na roça, vibrar com o beijo da novela, tem algo errado? Se no fim do dia quisermos fazer parte de um coletivo, de uma massa – sem ter que pensar muito, meeesmo – isso desvalida tudo o que fazemos, em outros momentos, por um mundo melhor?

Temos sua permissão pra sorrir?

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Vinícius de Moraes foi diplomata, durante 26 anos. Foi “aposentado compulsoriamente”, em 1968; seu comportamento boêmio, disseram, não condizia com a carreira pública. A ordem veio do Presidente Costa e Silva: “Demita-se esse vagabundo!”.  Contam que foi um golpe duro, pois o poetinha adorava o Itamaraty…

Mas, enfim, um favor foi feito à nossa música à nossa poesia.

Vinícius de Moraes, se vivo, faria cem anos. Imagino o que seria dele se repetisse, nos dias de hoje, a máxima “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Seria fuzilado pela patrulha do politicamente correto? Será que se sentiria compelido a dizer que “tudo não passou de um mal-entendido”?

E se ele “desse uma espiadinha” e, entre um copo e outro de uísque, debruçado no violão, desandasse a comentar sobre as beldades que desfilam na telinha do BBB? Cairia vítima da ditadura da tristeza, da sem-gracice, do intelectualmente correto? Ou mandaria tudo às favas?

Ah… Os muitos chatos que me perdoem, mas leveza é fundamental!

Habemus frango!

Tudo o que eu queria naquele sábado era um frango assado. Já tinha pintado o cenário na minha cabeça: iríamos “passar a tarde em Itapuã, ao Sol que arde em Itapuã, ouvindo o mar de Itapuã, falar de amor em Itapuã”, como diriam Vinícius e Toquinho. E também faríamos um piqueninque à sombra de Itapuã! O frango assado com farofa era irremediavelmente parte da minha fantasia, e o programa não seria completo sem eles.

Na sexta anterior fizera um calor pré-apocalíptico em Porto Alegre. A previsão para o sábado, então, era uma só: shopping com ar condicionado. Ou… a la playa! Mas eu não queria ir para uma praia, praia qualquer… O calor impiedoso era a desculpa perfeita para realizar o pequeno antigo sonho de conhecer a Itapuã daqui, o Parque Estadual de Itapuã.

Com a geladeira de isopor cheia de sanduíches e frutas, sucos e cervejas, nossa “excursão” partiu no finalzinho da manhã de sábado – éramos Edu e Ila e os pais dela, Gringo e eu. Itapuã fica distante uns 60 km de Porto Alegre, passando Viamão. Mas sabe como é, conversa daqui e dali e ninguém tratou de anotar direito o trajeto… Recorremos ao tradicional e infalível boca-a-boca, e assim chegaríamos.

Confesso: nunca desejei tanto me perder pelo caminho. Quanto mais voltas déssemos, maiores as chances de encontrar um local para comprar um frango assado honesto. Daqueles, de televisão de cachorro. Daqueles com a pele dourada. Daqueles cujo cheirinho tão gostoso deveria ser imitado num aromatizador de ambientes.

Farofada na praia sem frango assado com farofa é uma heresia, não é?habemus frango assado

Depois de algumas tentativas frustradas… Habemus frango! Encontramos o nosso frango assado num boteco uns 15 km antes de chegar ao parque. Ele veio acompanhado por uma polentinha de casquinha crocante e recheio molinho. No mercadinho em frente conseguimos farofa. Viva!

Ser bem feliz às vezes é bem simples.

O Parque Estadual de Itapuã é uma área protegida pelo governo desde 1991. É uma jóia! É lá que o Lago (ou o “rio”) Guaíba encontra a Lagoa dos Patos, um encontro outrora sinalizado pelo Farol de Itapuã – uma linda construção de 1860 que a gente só pode ver de longe, longe…

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Dizem que nos morros do parque ocorreram batalhas da Revolução Farroupilha, e muito sobre a história e sobre os pequenos habitantes do local a gente aprende numa belíssima exposição de artefatos e fotografias no Centro de Visitantes.

A visitação é bem controlada, com limite de 350 pessoas por dia. Sábia medida.

Fomos à Praia da Pedreira, que estava aberta naquele fim de semana. A infra é ótima: estacionamento, banheiros limpos, churrasqueira, vigilância. Agendando, é possível fazer caminhadas guiadas pelas trilhas.

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Nos acomodamos debaixo de algumas árvores e aquela ideia de paraíso se materializou. A água estava uma delícia, uma “piscina” com ondinhas leves e tranquilas e temperatura perfeita! De dentro d’água, olhando para o parque, imagino como seria a visão de um náufrago que chega a uma ilha deserta e encontra aquela vegetação exuberante.

Com o frango, a polenta e a farofa o programa estava completo. Deliciosamente completo!

Foi uma tarde maravilhosa, “sem ontem, nem amanhã”.

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O Parque Estadual de Itapuã foi uma das lindezas que vi em 2012. Um ano que me deixa marcas…

(Faça uma pausa. Imagine os primeiros acordes de um tango. Esse será o fundo musical para a leitura dos próximos parágrafos.)

Como lembrança de 2012 tenho um “ferimento de batalha” conquistado numa esquina de Buenos Aires.

Eu atravessava uma rua e, como de costume, olhava para cima, mais preocupada em admirar a beleza da arquitetura da capital argentina do que em evitar ser atropelada por um afoito motorista porteño. Pois quem me atropelou foi o meio-fio, que correu imprudentemente em minha direção! E em segundos lá estava eu de joelhos no chão…

Lembrarei da viagem sempre que eu olhar para a cicatriz… Lembrarei dos nossos tangos, milongas, migas y medialunas.

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Por isso, se eu fosse resumir o que desejo em 2013, para mim e para você, seria isso: frango assado e joelho esfolado. (Tá, o joelho esfolado pode ser apenas no sentido figurativo…)

Simples assim.

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A reinvenção dos artistas

Nem a enxurrada de prêmios, nem a recomendação de amigos, nem a curiosidade. Nada, nada me tirava a preguiça de ver O Artista – um filme mudo, em preto e branco, ambientado no final dos anos 20. Nem mesmo o dever de quem aprecia cinema… Ou o calor saariano que obriga a procurarmos abrigo em ambientes com ar condicionado. O argumento incontestável veio no artigo de Alberto Dines, que li no Observatório da Imprensa: o filme trata da necessidade de se reinventar.

O Artista em questão é o galã George Valentin (Jean Dujardin), que resiste à chegada do som ao cinema. Repetindo o mestre Dines, essa é uma metáfora sobre o desafio que artes e artistas (e eu diria o mesmo para todo tipo de profissão) enfrentam quando suas formas de expressão ou suas ferramentas de trabalho são ameaçadas ou consideradas ultrapassadas.

Denunciando aqui a minha idade: terminei da faculdade sabendo como diagramar um jornal com primor! Redigia numa lauda na máquina de escrever; distribuía o texto em colunas precisamente medidas com régua de paica; compunha títulos e subtítulos com letrinhas adesivas a la Kalkitos. Hoje posto neste blog em minutos…

Quando comecei a carreira na TV ouvia loucas histórias sobre os tempos em que telejornalismo era feito como cinema, portanto necessário revelar filme para colocar a notícia no ar – para desespero dos produtores; para a alegria dos cardiologistas. Fiz parte das equipes de reportagens que carregavam aqueles VT’s enormes (um tipo de videocassete) acoplados às câmeras. Aprendi a editar com o sistema Betacam: a gente revisava a gravação numa máquina, selecionava os trechos que valiam e copiava para outra fita, em outra máquina. Saber editar nesse “sistema linear”, acreditem, me garantiu emprego no exterior. Mas em seguida chegaram às redações a edição por computador (“não-linear”) e as câmeras digitais. Tão mais rápido e eficiente… Como ninguém havia pensado nisso antes? Bora aprender tudo de novo. Outra vez.

Dominar os softwares de computer-aided design ou CAD ou AutoCAD, que geram projetos em duas ou três dimensões, é um pré-requisito para um engenheiro como o Gringo – que me levou ao cinema igualmente seduzido pelo argumento infalível de Alberto Dines. Mas quantas plantas de obras já foram desenhadas com lápis e papel?

Parece que os avanços da tecnologia acompanham a chegada de cada nova geração ao mercado, ameaçando com obsolência quem já atingia certa senioridade e estabilidade em seu emprego – não importando a área de atuação. Atualize-se, aprenda, reinvente-se, ou “abra o caminho para o novo”.

E isso não se limita ao trabalho. Experimente enviar notícias para aquele amigo distante através de carta e esperar que a resposta venha pelo correio “convencional”. Uma boa vida de ermitão para você, meu bem.

O Artista convida a essa reflexão.

O Artista é obrigatório porque nos tira da zona de conforto, como bem observou o Gringo. Estimula uma outra forma de compreender um filme; exige prestar atenção nos detalhes, já que a informação não é oferecida numa bandeja. “A nostalgia pode ser revolucionária”, decreta Dines. E por isso é também uma aula de roteiro.

Creio que uma deficiência constante nos filmes é o excesso de informação colocado na boca dos personagens por roteiristas preguiçosos. No cinema mudo a escassez de diálogos exige criatividade para contar a história usando outros recursos narrativos como os objetos da cena, ou as expressões dos atores. E aqui deixo meu aplauso para atriz Berenice Bejo, que dá vida a Peppy Miller, “a nova cara do cinema falado”. Preste atenção no seu “solo” no camarim de George Valentin, um pequeno luxo de roteiro e interpretação.

É o tipo de história que você carrega consigo depois que sai do cinema. Não que seja necessário uma sessão de terapia em grupo para dar sentido ao drama de George Valentin – a saber, nem de graça vejo filmes que desdenham do espectador, cheios de símbolos e metáforas que só o diretor entende.

Dines acertou em cheio. “Não se trata de um drama particular dentro de um ofício – neste caso o título seria O Ator. A ideia era transcender a crise produzida pela introdução do som no cinema e gerar uma provocação válida para qualquer gênero artístico quando ultrapassado pelo progresso tecnológico.”

O trunfo do bom cinema é proporcionar a identificação do público com os personagens. A necessidade de reinvenção é constante, fascina, assombra e angustia ao mesmo tempo. Assim, todos somos um pouco “artistas”.

A Separação

A confissão: por pouco não deixei a sala de cinema antes do fim de A Separação.

Mas não foi por não estar gostando (a saber, minha tolerância para filme chato é curta, ou eu durmo ou fast-forwardo…). Pelo contrário! Quando percebi que a história começava a acabar decidi que preferia não saber qual seria o destino dos personagens.

Na tela o casal da separação em questão, cada um num canto, magistralmente distanciados pelos elementos de cena. E eu torcendo: “Termina logo, termina logo!”.

A obra de Asghar Farhadi  (ele escreveu, produziu e dirigiu) me lembra filmes como O Banheiro do Papa (baseado em hilários e comoventes fatos reais), O Visitante (um conto sobre imigração ilegal que elevou o eterno coadjuvante Richard Jenkins ao status de estrela da hora), e o argentino Um Conto Chinês (com o imprescindível Ricardo Darín). São histórias singelas, humanas, com personagens que instigam algum sentimento – seja piedade ou raiva.

Histórias assim, eu creio, superam de longe qualquer avanço em CGI.

O filme narra o drama de Simin, que quer deixar o Irã em busca de um futuro menos conturbado e por isso quer se separar de Nader que, por motivos louváveis, não pretende ir embora. Seria simples se eles não dependessem de uma autorização do governo para dissolver o casamento. E se as pequenas decisões não tivessem consequências tão graves lá na frente. Em A Separação ninguém é totalmente culpado, ou totalmente inocente o tempo todo. E o espectador (eu, ao menos…) se vê trocando de lado a cada sequência.

Farhadi filma segundo o peculiar manual do cinema iraniano: é um gênero quase documental, que usa ambientes reais como locações e transeuntes como figurantes. Em entrevista ao The Guardian, ele disse que essa abordagem permite que os espectadores descubram o filme por si e evita que o cineasta imponha seu ponto de vista.

Asghar Farhadi, seu elenco e equipe já devem estar com os braços cansados de tanto arrecadarem troféus mundo afora. São prêmios de associações de críticos, prêmios de júri popular, em festivais pequenos e em festivais de renome como o de Berlim.

Ao receber o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ele fez um discurso elegante. “Muitos iranianos em todo o mundo estão nos assistindo e eu imagino que devam estar felizes, não apenas por causa de um prêmio importante. Em tempos de guerra, de intimidação e de agressões entre políticos o nome de seu país é mencionado aqui através de sua gloriosa cultura, que está escondida sob uma poeira política.”

E é verdade, escondido sob uma densa poeira política está o cinema persa.

Como a cerimônia só foi assistida no Irã por quem tem satélite, no dia seguinte a agência de notícias estatal Farsi se encarregou colocar palavras na boca de Farhadi. Segundo a Farsi, ele disse: “Eu orgulhosamente ofereço este prêmio ao povo do meu país que, apesar de todas as tensões e hostilidades entre o Irã e o Ocidente em relação ao programa nuclear iraniano, respeitam todas culturas e civilizações”.

O cineasta realmente terminou o discurso com uma homenagem ao seu povo, mas não fez qualquer menção ao programa nuclear. Percebendo que não teria como sustentar a farsa por muito tempo o governo acabou publicando uma nova versão da reportagem. A façanha, porém, ficou devidamente registrada pelos blogueiros iranianos.

Enquanto tenta usar o sucesso de A Separação em benefício próprio, a ditadura Ahmadinejad continua calando seus artistas. O próprio Asghar Farhadi teve a licença para filmar cassada por declarar publicamente sua solidariedade ao colega Jafar Panahi (condenado a seis anos de prisão e a 20 anos sem trabalhar como diretor). A Casa de Cinema, a mais importante associação independente de cineastas do Irã, foi ordenada a encerrar suas atividades pelo Ministério de Cultura e de Orientação Islâmica. A perseguição é parte da incessante campanha para reprimir o movimento de oposição ao regime.

Escrevo ciente de que falar do Irã exige tolerância e um certo distanciamento dos “filtros ocidentais”. No entanto, isso não significa isentar o país de sua responsabilidade com as convenções internacionais, sobretudo no que diz respeito à promoção e defesa dos direitos humanos.

Mesmo sem qualquer pretensão de promover um debate político ou sociológico, Asghar Farhadi abre uma janela para uma cultura rica, para uma nação cheia de contradições (e qual não o é?) e involuntariamente devolve para a pauta a repressão que impera por lá.

Uma vez ouvi que Coldplay é uma banda que todo mundo adora odiar, e que ninguém admite curtir.

O Oscar é mais ou menos assim. O pessoal adora criticar, torce o nariz, mas fica de olho! Se o selo de aprovação de Hollywood era só o que te faltava para assistir A Separação… Corre lá!