Carta de Intenções para um veraneio sem fim de 15 dias

Quero escutar somente reggae. Sempre tive inveja de surfista que vive de mar, e mar e praia combinam com reggae, por isso sempre resisti ao reggae. Pois nestes dias, decreto, que não toque outro ritmo nesta casa! Apenas reggae.

Reggae e o som das ondas, que atravessa duas quadras e meia até chegar na minha janela. Venha som das ondas, junte-se ao vocal do Bob Marley e desacelere a batida do meu coração! Tudo que quero escutar é reggae, ondas, e o coro dos sapos, que cantam nos bueiros a uma quadra daqui.

Aliás, se eu entendesse de música, comporia um reggae com os sons da praia: o apito do salva-vidas, as matracas e cornetas dos vendedores ambulantes, o plac-plac do jogo do frescobol, o canto das gaivotas.

Qualquer compromisso com a razão está adiado. Farei apenas o que a vontade mandar, se o corpo permitir, em acordo com a chuva e o Sol.

Ah, o Sol… Quero madrugar: às seis e meia estarei acordada. (Isso se o corpo deixar, pois o despertador será amordaçado nestes dias.) Madrugar não para pegar o Vila Jardim 430 rumo ao centro de Porto Alegre (hein?), mas para ver o Sol nascer como um Cebion num mergulho em reverse do azul do Oceano Atlântico para o azul do céu. Serei uma das poucas que acordaram para estar ali, porque para tantos outros o espetáculo do Sol nascente é a dose saideira da noite. Been there, done that. Meu longo dia de verão começa agora.

Sol

Quando eu espiar na mala, que a minha maior dúvida seja se calço a chinelinha preta, a dourada, ou a preta com dourado. Aliás, sempre que possível andarei descalça.

Quando eu pisar na praia,  que o mar me derrube num abraço como quem revê a velha amiga depois de um longo tempo. Tu vês, eu e o mar temos um relacionamento de longa data… Fui feita no Rio de Janeiro, aprendi a engatinhar nas areias escaldantes de Copacabana. Amo o mar.

No metro e meio quadrado que tomarei como meu paraíso particular, vou me besuntar de bronzeador com fps negativo e me estender na canga bordada de areia. E virar croquete. Quero fechar os olhos e escutar o vento coçando o mar, causando aqueles arrepios no mar que a gente conhece como ondas.

Ah, as ondas… Quero apostar corridas até a água. Pularei sete ondas, e mais sete. E a cada mergulho afogarei raivas, resignações, energias ruins e ganharei poderes de Mulher Maravilha. Quero pegar jacarés do jeito que o pai me ensinou na minha infância carioca. Muitos! Ficarei com os joelhos e a barriga esfolados! E a cada jacaré terei a certeza de que aquela foi “a melhor de todas as ondas da minha vida”. Quero sentir o repuxo do mar num buraco onde não dou pé, quero que me falte fôlego, para depois ter a sensação de que me salvei. Quero sentir a queimadura de mãe d’água, para nunca mais ter que temê-la.

Quero salgar a alma, os ossos, os lábios, a pele.

Quero um cabelo impossível de desembaraçar, um quase-dreadlock.

Quero tirar fotografias mal-enquadradas, sem foco e sem filtro.

chapeu

Vou construir castelos de areia que uma onda atrevida ou uma criança alegre irão destruir. Vou catar conchinhas que dificilmente se transformarão em alguma imaginada peça de artesanato, assim como os palitos de paletas e picolés que virão para casa aos baldes.

concha

Quero milho cozido temperado com margarina, sal e grãos de areia. E jogar baralho e conversa fora e fazer do pessoal do guarda-Sol ao lado amigos eternos cujo nome ou rosto não lembrarei no momento em que sair da praia.

Notícias? Só quero saber de Macondo. Quero um affair de verão com Gabo. Quero sofrer do mal do esquecimento, que atingiu Macondo depois da praga da insônia, e só lembrar, talvez, do que não tem importância. (Aliás, nem lembro se o prefixo da linha Vila Jardim é 430, 433 ou 431.) Depois de me atualizar sobre as andanças de Arcádios e Aurelianos, vou “me enroscar como um gato no calor da tua axila”, como Gabo ensina, pois é hora da siesta, o que deveria ser lei em todas as estações, em todo o Universo.

Vou caminhar de mãos dadas pela praia no fim do dia e me encantar com a pescaria dos pássaros, que mais parece um tango bailado com as ondas.

fishing

gone

Vou admirar a absurda beleza da areia molhada espelhando aquele Gre-Nal que é o céu azul e avermelhado do anoitecer. Vou tentar fugir do mar… e deixar que ele me abrace mais uma vez. Mais um mergulho. E mais conchinhas. Vou resgatar algum peixe asfixiado pelo ar aqui de fora.

Quero achar que a vida pode ser mesmo um quase-milagre.

Farei uma prece para Jah, Iemanjá, Deus, Alá, Pachamama. Vou escutar reggae. Meu coração vai… de-sa-ce-le-rar.

Viverei quinze dias “de Itapuã”. Sem ontem, nem amanhã.

pedra

O mundo já acabou

Estás esperando pelo 21/12/2012 para “chutar o balde”? Espero que não.

O teu mundo, é bem verdade, já deve ter acabado.

Ao menos o meu já acabou. Várias vezes.

Quando a asma não me deixou ir no piquenique do colégio.

Quando Elvis Presley morreu meu mundo acabou e eu chorei tanto que achei que não sobrara lágrima alguma nesses olhos que Deus me deu e que a Terra não há de comer porque eu vou doar. Eu tinha seis anos.

Quando levei um fora do meu amor eterno da adolescência. Quando o telefone vermelho que ficava junto à porta verde da entrada lá de casa não tocou, o chão se abriu.

Quando aquelas pessoas amadas se foram… Essas notícias dolorosas chegam sempre com um sopro frio que sobe pela espinha e arrepia a nuca e amolece as pernas até que o chão se abre novamente – dessa vez com razão.

Meu mundo quase acabava cada vez que eu passava pelo setor de embarque do Salgado Filho. “Ligo quando chegar lá!” E abanava de longe, me fingindo de alegre.

Quando, às vezes sem querer, decepcionei. Detesto ser uma nuvem carregada no dia de alguém.

Quando me senti fracassada, só, encaixotando a mudança.

Quando não fui selecionada no concurso de Poemas no Ônibus e no Trem. Quando não consegui aquele emprego. Quando me senti rejeitada.

A cada desencontro, a cada perda, a cada desilusão.

Mas olha só, veja bem: cá estou. E tu aí, também. Depois de tantos apocalipses – alguns banais e cotidianos, uns inesperados e outros inevitáveis – recomeçamos. O nosso mundo acaba de vez em quando, pedacinhos dele acabam, para que ele possa se reinventar. Com arranhão aqui e ali, sobrevivemos aos “fins”.

(Eu sei… Não fui vítima de guerra, nem de miséria, tragédia ou doença. A vida tem sido leve.)

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“Quisiera saber tu nombre, tu lugar, tu dirección
si te han puesto teléfono, también tu numeración.

Te suplico que me avises si me vienes a buscar,
no es porque te tenga miedo, sólo me quiero arreglar.”

Demorou um bom tempo até eu descobrir que Charly García não estava esperando pela amada em Canción para mi Muerte. (E, puxa, quantas vezes, na adolescência, sonhei acordada escutando a música equivocada…)

Mas, é bem verdade, o grand finale não marca data e não é possível se “arreglar”, né? Tem, sim, como aprender com nossos apocalipses particulares para – depois dos recomeços – viver uma vida mais ou menos plena. Daí quando “ela” chegar tu reages assim, meio blasé: “Ah, tá na hora? Pera aí, deixa eu ajeitar o cabelo…”.

Eu aprendi algumas lições. E determinei algumas regras.

Ouvir o . Nunca dormir emburrada. Resolver as pendências por aqui pois dizem que a fila para voltar e acertar os conflitos de vidas passadas é maior que a do SUS. Na dúvida, ultrapassar (na vida, não no trânsito…). Acreditar em pequenos milagres. Acreditar nos grandes encontros. Apreciar o agora.

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Estás esperando pelo 21/12/2012 para “chutar o balde”? Espero, sinceramente, que não.

Espero que não precises de um evento catastrófico para decidir fazer a vida valer a pena.

O teu grand finale, lembra disso, não vai marcar data.

Driving Miss Lebedeff (uma confissão)

Comecei bem minha carreira no exterior, comecei mentindo na entrevista de emprego. “Sabe dirigir?” Respondi que sim, prontamente.

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Era uma meia mentira. A parte verdade é que eu soubera sim, um dia, dirigir. Tirei minha Carteira Nacional de Habilitação, ansiosa como todo jovem, quando fiz 18. Muito pneu gastei na Avenida Sarandi, pilotando a Elba dourada MH 4445 do pai carregadinha de gurias!

Mas depois, quando vim morar em Porto Alegre há alguns muitos anos, decidi que não queria mais dirigir. Decidi que ou eu viveria em cidades com transporte público eficiente e abundante, ou seria phoderosa o suficiente para ter um motorista particular (“Baby you can drive my car”, cantam Lennon e McCartney). Dizia que “preferia guardar dinheiro e andar de ônibus mundo afora do que investir num carro e ficar numa cidade apenas”. E assim deletei o programa “dirigir” do meu hard drive…

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Só que em Los Angeles, meu endereço durante mais de dez anos, é impossível viver a pé… Para tentar resolver a minha questão de mobilidade aluguei um apartamento a poucas quadras do trabalho e comprei uma bicicleta. Fortaleci o pulmão e fiquei com as pernas lin-dís-si-mas de tanto pedalar pra cima e pra baixo! Com um n de outras mentiras, explicava por que o carro que a empresa me oferecera até eu me instalar continuava ganhando poeira na garagem do prédio. Demorava uma eternidade para fazer qualquer programinha diferente: de casa até a praia eram umas duas horas de ônibus.

Cheguei à conclusão que se não voltasse a dirigir estaria condenada a ficar confinada nos subúrbios californianos. E não era uma questão de mobilidade apenas: a driver’s license norte-americana é um documento de identidade, usada para tudo! Vencida, voltei para a auto-escola.

Meu instrutor era um russo. Ele tinha um bigode farto e um sotaque forte e o vocabulário de imigrante bem menor que o tamanho da vontade de falar inglês. Mas era o suficiente para me ensinar a dirigir pelas largas avenidas do San Fernando Valley…

Fiz também um cursinho para enfrentar o trânsito com tranquilidade. Aprendi alguns truques como cantarolar bem alto e imaginar o carro envolto numa bolha de ar cor-de-rosa para me proteger em situações de desespero. (Ui. Como é que me atrevo a contar isso?)

Depois de conquistar a driver’s license o passo seguinte foi comprar um carro (o que me ajudaria a construir minha credit history, ou meu perfil de boa consumidora). Escolhi um hatch preto com câmbio automático e direção hidráulica.

Ele me acompanhava ao trabalho e à praia (guarda-sol e cadeirinha sempre no porta-malas!), me conduzia aos distantes sets de filmagens, me levava para passear nos horários dos meus programas de rádio favoritos (especiais sobre The Beatles ou programas da National Public Radio como This American Life e Wait, Wait, Don’t Tell Me!).

E assim eu e meu hatchzinho fomos felizes para sempre durante mais de uma linda década!

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Flash-forward e cá estou eu novamente em Porto Alegre. Cidade das lotações, do cartão TRI, e também do catamarã e das bicicletas! Quem precisa dirigir? Em plena era do desenvolvimento sustentável, por que aderir à massa de veículos com um único passageiro se é tão fácil embarcar num meio de transporte coletivo?

Além disso o transporte coletivo é uma infinita fonte de inspiração para quem escreve. Aprendi em cursos de roteiro e de redação criativa a colar no dia-a-dia da cidade para captar diálogos coloquiais e o comportamento das pessoas.

(Foi andando de ônibus pelo Rio de Janeiro que o vocalista da Legião Urbana teve a inspiração para escrever “Central do Brasil”, tema instrumental do álbum “Dois”. É o que eu descubro no viciante “Renato Russo, O Filho da Revolução”, do jornalista Carlos Marcelo. Descubro também que Renato Russo não dirigia…)

Tentei resistir bravamente, pero… Várias circunstâncias e alguns argumentos inquestionáveis me convenceram que eu teria que tirar o mofo daquela carteira de motorista vencida há tempos. Sim, eu reaprendi a dirigir no exterior, mas nunca mais tocara num volante aqui no Brasil. O Detran (que, a propósito, tem um ótimo serviço de atendimento ao público seja via email ou telefone) me informa que para renová-la seria necessário fazer tudo de novo outra vez.

Levo minha documentação a um Centro de Formação de Condutores (que nome pomposo!). E levo um susto: uma carteira de habilitação custa muito, muito caro. De saída, uns 200 reais em taxas! (E eu que vinha namorando um par de botas cor de vinho pensei seriamente que continuar a pé, com as lindas botas cor de vinho, seria um melhor negócio que pagar uma fortuna pela carteira de motorista…)

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No exame psicotécnico nos pedem para desenhar um boneco. Lembro daquelas regrinhas básicas para disfarçar sua loucura: desenhe todos os membros, rostinho completo com olhos-boca-e-nariz, desenhe o chão. Descrevo a cena e digo que o bonequinho está feliz pois é um dia frio, mas ensolarado!

A examinadora me pergunta o que acho do trânsito hoje em dia. Lembro do aniversário de Paul McCartney (que recém completara 70) e da música “Live and Let Die”. É isso aí: cada um por si, nada de camaradagem ou tolerância, carros demais nas ruas, na contramão do progresso sustentável. (Mas será que não dava para aproveitar o ensejo e discutir minhas outras neuras, penso eu?) E com esse eco-discurso fui dispensada rapidinho… Aprovada. Ufa.

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Pela terceira vez na vida frequento um curso teórico de direção. A professora, ciente do quão chato é aquele conteúdo todo, encarna várias personagens: a cúmplice, a fofoqueira, a carrasca. Sempre ilustra as aulas de direção defensiva com vídeos a que nunca assisti, pois tinham cenas horrendas de acidentes que só me levariam a desistir de dirigir definitivamente. Gosto das aulas de primeiros-socorros. Aprendi que se uma vítima de acidente estiver pegando fogo é preciso impedi-la de sair correndo, derrubá-la se necessário, jogar areia ou bater nela de alguma maneira para apagar as chamas. Colocar sal na ferida, né?

Estudo os livrinhos durante semanas – um exagero! Termino a prova teórica em 10 minutos. Saio do prédio na Voluntários muito p comigo mesma, braba porque por duas questões não gabaritei.

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É hora de retomar as aulas práticas. Não por exigência do processo de renovação (eu poderia pular direto para a prova prática), mas eu queria refrescar a memória. Conto pro instrutor que já soubera dirigir e que antigamente estacionava como poucos e que quem sabe…

Mas quem disse que eu me entendo com esse carro? Acho que sou capaz de dissertar sobre a regra do impedimento no futebol com mais facilidade que fazer a transição entre embreagem e acelerador! Pra que complicar tanto a vida? Por que o câmbio automático não é padrão?

Chego em casa e faço o que toda mulher normal faria… devoro um bolo de chocolate na frente da TV.

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Passo semanas oscilando do pânico ao êxtase: cada dia de aula começa com desânimo; cada manobra executada corretamente me dá alegria. Meia dúzia de regrinhas me ajudam a estacionar com primor, como antigamente! Vou me acostumando com a embreagem. Fico orgulhosa de mim mesma ao dirigir pela Cidade Baixa – que eu conheço como a palma da mão, de tanto que a percorri a pé.

No entanto, às vezes a ansiedade toma conta e erro tudo e o pobre do carro engasga e morre. No meio da rua. Lindo, né?

Além disso as aulas são totalmente direcionadas para a aprovação no exame prático. Eu não aprendo necessariamente a dirigir; aprendo o suficiente para convencer o examinador que eu sei dirigir. Era época dos Jogos Olímpicos e me sentia como uma atleta, como se cada movimento meu fosse avaliado microscopicamente, como se cada manobra desastrada me distanciasse do pódio. “No dia da prova isso te custaria três pontos!”

(Minha apreensão tem fundamento, pois segundo o Detran seis em cada dez candidatos a uma carteira de motorista são reprovados nessa etapa.)

E o instrutor? Ele tinha momentos de grande incentivador, meu José Roberto Guimarães; outros de impaciência, meu Bernardinho.

As provas são realizadas num bairro residencial, com pouco movimento (os poucos carros circulando por lá são de auto-escola) e sem as ladeiras porto-alegrenses que tanto apavoram. É lá que tomo uma das minhas últimas aulas práticas – de rendimento um tanto duvidoso.

Depois da aula, de volta ao centro da cidade, faço o que toda mulher normal faria… entro na primeira igreja que encontro pelo caminho e, como nunca e sem vergonha alguma, choro.

Piripaque dos bons. A pressão de ter que ser “aprovada” num mesmo processo pela terceira vez é grande. Entenda: a brincadeira de recomeçar às vezes cansa.

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Decido me dar um tempo. Quem sabe esperar que inventem uma maneira de alimentar meu cérebro com programas à la Matrix?

Até que mais um daqueles argumentos incontestáveis se apresenta e eu reconheço que preciso, de uma vez por todas, recuperar minha carteira de motorista. Resolvo virar mocinha e parar com esse mi-mi-mi todo. Vou encarar esse processo com olhos de aventura e novidade!

Ligo pro CFC, agendo mais uma aula. “E, por favor, pode marcar a prova também? Para esta semana, tá?” Até eu me assusto com minha determinação!

Me surpreendo também porque mesmo com o hiato de semanas não esqueci do que havia reaprendido: libera a embreagem devagar, cuida o espelho, gira toda a direção antes de movimentar o carro novamente… “Perfeito!”

A Tati não gosta muito quando digo isso, mas acho que tenho mais sorte que juízo. Eis a prova.

Eu treinava na baliza quando o instrutor vem com uma novidade, que ele soube através de outro instrutor que estava por ali, que mudou tudo num instante. Não é que nesse meio tempo, durante essas semanas em que resolvi “me dar um tempo”, o Detran baixou uma portaria isentando motoristas com carteira vencida há mais de década (meu caso) do exame prático? Teoricamente eu já estaria devidamente “habilitada”. Novamente. Pela terceira vez na vida.

Sabe assim, alívio?

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A linda da Carteira Nacional de Habilitação me foi entregue algumas semanas depois. (Podiam ter me avisado que aquela fotografia que eu tirei numa manhã de janeiro no CFC, com vestido de alcinha e o cabelo penteado pelo vento, iria pro documento. Ao menos estou bronzeada.)

Um esclarecimento se faz urgentíssimo: não sou, assim, um perigo constante no volante. Dirijo direitinho até, eu juro! Eu treino muito no videogame – joguinhos de corrida são os meus preferidos! E treino também como co-piloto em viagens (a-do-ro uma estrada!).

Vai entender… (Eu já desisti ;))

A reinvenção dos artistas

Nem a enxurrada de prêmios, nem a recomendação de amigos, nem a curiosidade. Nada, nada me tirava a preguiça de ver O Artista – um filme mudo, em preto e branco, ambientado no final dos anos 20. Nem mesmo o dever de quem aprecia cinema… Ou o calor saariano que obriga a procurarmos abrigo em ambientes com ar condicionado. O argumento incontestável veio no artigo de Alberto Dines, que li no Observatório da Imprensa: o filme trata da necessidade de se reinventar.

O Artista em questão é o galã George Valentin (Jean Dujardin), que resiste à chegada do som ao cinema. Repetindo o mestre Dines, essa é uma metáfora sobre o desafio que artes e artistas (e eu diria o mesmo para todo tipo de profissão) enfrentam quando suas formas de expressão ou suas ferramentas de trabalho são ameaçadas ou consideradas ultrapassadas.

Denunciando aqui a minha idade: terminei da faculdade sabendo como diagramar um jornal com primor! Redigia numa lauda na máquina de escrever; distribuía o texto em colunas precisamente medidas com régua de paica; compunha títulos e subtítulos com letrinhas adesivas a la Kalkitos. Hoje posto neste blog em minutos…

Quando comecei a carreira na TV ouvia loucas histórias sobre os tempos em que telejornalismo era feito como cinema, portanto necessário revelar filme para colocar a notícia no ar – para desespero dos produtores; para a alegria dos cardiologistas. Fiz parte das equipes de reportagens que carregavam aqueles VT’s enormes (um tipo de videocassete) acoplados às câmeras. Aprendi a editar com o sistema Betacam: a gente revisava a gravação numa máquina, selecionava os trechos que valiam e copiava para outra fita, em outra máquina. Saber editar nesse “sistema linear”, acreditem, me garantiu emprego no exterior. Mas em seguida chegaram às redações a edição por computador (“não-linear”) e as câmeras digitais. Tão mais rápido e eficiente… Como ninguém havia pensado nisso antes? Bora aprender tudo de novo. Outra vez.

Dominar os softwares de computer-aided design ou CAD ou AutoCAD, que geram projetos em duas ou três dimensões, é um pré-requisito para um engenheiro como o Gringo – que me levou ao cinema igualmente seduzido pelo argumento infalível de Alberto Dines. Mas quantas plantas de obras já foram desenhadas com lápis e papel?

Parece que os avanços da tecnologia acompanham a chegada de cada nova geração ao mercado, ameaçando com obsolência quem já atingia certa senioridade e estabilidade em seu emprego – não importando a área de atuação. Atualize-se, aprenda, reinvente-se, ou “abra o caminho para o novo”.

E isso não se limita ao trabalho. Experimente enviar notícias para aquele amigo distante através de carta e esperar que a resposta venha pelo correio “convencional”. Uma boa vida de ermitão para você, meu bem.

O Artista convida a essa reflexão.

O Artista é obrigatório porque nos tira da zona de conforto, como bem observou o Gringo. Estimula uma outra forma de compreender um filme; exige prestar atenção nos detalhes, já que a informação não é oferecida numa bandeja. “A nostalgia pode ser revolucionária”, decreta Dines. E por isso é também uma aula de roteiro.

Creio que uma deficiência constante nos filmes é o excesso de informação colocado na boca dos personagens por roteiristas preguiçosos. No cinema mudo a escassez de diálogos exige criatividade para contar a história usando outros recursos narrativos como os objetos da cena, ou as expressões dos atores. E aqui deixo meu aplauso para atriz Berenice Bejo, que dá vida a Peppy Miller, “a nova cara do cinema falado”. Preste atenção no seu “solo” no camarim de George Valentin, um pequeno luxo de roteiro e interpretação.

É o tipo de história que você carrega consigo depois que sai do cinema. Não que seja necessário uma sessão de terapia em grupo para dar sentido ao drama de George Valentin – a saber, nem de graça vejo filmes que desdenham do espectador, cheios de símbolos e metáforas que só o diretor entende.

Dines acertou em cheio. “Não se trata de um drama particular dentro de um ofício – neste caso o título seria O Ator. A ideia era transcender a crise produzida pela introdução do som no cinema e gerar uma provocação válida para qualquer gênero artístico quando ultrapassado pelo progresso tecnológico.”

O trunfo do bom cinema é proporcionar a identificação do público com os personagens. A necessidade de reinvenção é constante, fascina, assombra e angustia ao mesmo tempo. Assim, todos somos um pouco “artistas”.

O Ano da Deschatificação

É inevitável, nesta época, pensar no fim. Fim do ano, no mínimo. Ou, em se tratando de 2012, fim de tudo se o tal calendário dos Maias estiver correto.

Incrível como o tempo acelera à medida em que os nossos anos vão passando. E quando percebemos, o ano termina… Então, depois de pensar no fim chega o momento de celebrar o começo. Porque esse é o ciclo da vida, não é?

Teve ano em que comecei a comemorar a virada às seis da tarde; morava em Los Angeles e decidimos brindar o Ano Novo de cada país. O problema é que o fuso horário da Califórnia é um dos últimos do planeta! Quando bateu a meia-noite lá já estava cansada, com frio, de camisola (nova, claro!) e de ressaca, jurando que nunca mais passaria Réveillon ao norte da linha do Equador.

Daqui a alguns dias vou tomar banho de sal grosso e mel, vestir calcinha nova, comer lentilha. Eu “creo en las brujas, y que las hay, las hay” e adoro esses rituais. Tomarei um chopp saideiro e farei uma lista de resoluções (a qual inclui, entra-ano-e-sai-ano, escovar os dentes antes de dormir mesmo que a preguiça impere e que seja delicioso sonhar com gosto de chocolate na boca). Vou ganhar um kit com incenso e amuletos com um mantra que repetirei com fé durante os primeiros dias do ano, para depois esquecer.

E vou agradecer, que bom, bem mais que pedir.

Teve um ano que foi tão próspero (em todos os sentidos) que na virada pedi que nada mudasse – e os meses seguintes foram cheios de solavancos. Às vezes a vida dá uns beliscões, que servem ou para mostrar que é preciso redefinir o rumo, ou para lembrar que quem e o que a gente tem é tudo de que precisamos. É preciso aprender a compreender a vida, conversar com ela.

Teve ano em que nada pedi e – ah! – quanta coisa ganhei! Foi o caso de 2011.

Esse ano que termina foi de “reinvenção”. No meu balancete, o saldo da memória encerra  bem mais rechonchudo que o da conta bancária.

Aprendi algumas lições. Por exemplo, “o importante da vida é poder voltar”, frase dita pelo pai do ex-vice-presidente José Alencar. Eu interpreto assim: o importante é deixar portas abertas e, sobretudo, braços abertos para poder começar e recomeçar seja qual for o caminho pelo qual a vida te levar.

No ano que inicia tenho que estar determinada a ser disciplinada, e só eu sei o quanto! Uma motivação para isso me apareceu na revista Lola. Livra-me dos boicotes e adiamentos que eu mesma me imponho”, li num artigo da revista. “Disciplina é liberdade”, cantou Renato Russo. Livra-me da procrastinação, Senhor Roteirista Lá De Cima!

O texto da Lola, muito apropriado para esta época de promessas e planos, continuava assim: “Assombra-me, Senhor! Não permita que eu me afaste do que me identifica, que eu me esqueça do que me alegra, ou cale o que me traduz”.

O que me remete ao que ouvi numa entrevista na Globo News: o verbo “deschatificar”. Esse será meu lema.

Se 2011 foi um ano de reinvenção, 2012 será o da deschatificação. Que eu interpreto assim: dramatizar menos. Sem deixar de me empenhar por quem ou o que realmente importa, me levar menos a sério.

No Ano Novo, como sempre, não quero resposta, nem receita para tudo – porque a perfeição é entediante… E se depois de agradecer decidisse pedir, pediria (mais) surpresas (boas…) e inspiração.

Ah, e que os Maias estejam re-don-da-men-te enganados. 😉