#amídianãomostra – um rap

Tu me dizes #amídianãomostra

A mídia não ouve, não vê

Só fala o que bem entender

Isso dói como uma paulada

#chateada

Penso nos colegas nas redações

Que viram noite, varam madrugadas

Em busca de fatos e n opiniões

Ponto e contraponto

Verso e reverso e inverso

Imparcialidade

Para que tu decidas a tua verdade

Que não é absoluta – apenas mais uma versão

Mas… não.

#amídianãomostra

Contar histórias,

Ou como disse o Geneton,

“Criar memórias”

Essa é minha paixão.

Eu sei que meu rap é tosco

Não sou Vinícius, Jobim ou Bosco

Mas várias versões eu busco

O contrário seria

Preguiça errado injusto

Ctrl+c

Ctrl+v

Como ignorar o beat

Das ruas e das redes

E ficar no auto-repeat?

Como ignorar a sede

de participação?

Como não ecoar o “prosumer”

Que hoje mais produz que consome

Informação?

Entrevistamos grevista motorista patrão

goleiro vazado

artilheiro premiado

doméstica lojista vítima e até ladrão –

tanta gente que num verso cabe não.

Por quantas ruas andei

quanta saliva gastei

a quanto amor renunciei

de quanta pedra e bomba de gás escapei

por causa da notícia?

(Até parei na mão da polícia…)

Mas… não.

#amídianãomostra

é a tua aposta

#prontofalei

Mas, ei!

Eu tô nessa pauta!

Vai ver que quando mostrei

Tu estavas em outro canal

Lendo outro jornal

Pulando Gal num Carnaval (ah, não! “isso faz mal!”)

Ou assistindo a um thriller policial

Pior cego é o que não quer ler

Pior surdo é o que não quer escutar

Me dizes #amídianãomostra

Soa tão “ontem”, tão infeliz

Pena que tu insistas

Em achar

Que eu, jornalista

Só vi a banda passar –

E nada fiz.

ativismo

Em Los Angeles, mostrando as manifestações contra as guerras do governo Bush

Marty & Eu

Para marcar os 40 anos da primeira chamada com um telefone celular eu escrevi um texto para a Zero Hora, contando sobre uma reportagem que fiz para a Globo News quando morava na Califórnia. Para ficar registrado, trouxe o texto para o blog. A propósito, o tema, anos mais tarde, viria a ter tudo a ver com a minha pesquisa de mestrado – as novas Tecnologias de Informação e Comunicação como ferramentas de ativismo político e social. Ah… “if I knew then what I know now…”

cooper e taniraHá alguns anos tive o privilégio (sim, é clichê mas foi mesmo um privilégio!) de conhecer Martin Cooper, o inventor do telefone celular. Foi uma daquelas coisas que só a vida de repórter faz por você… Eu era correspondente da Globo News em Los Angeles, e o entrevistei para um programa da emissora, o Ciência & Tecnologia.

A entrevista foi na sede da Dyna, empresa de desenvolvimento de tecnologia e serviços wireless que Cooper comanda jundo com a esposa, Arlene Harris. A empresa fica em Del Mar, no sul da Califórnia, a algumas quadras da praia e dos morros onde ele caminha todos os dias. Martin Cooper acredita somos seres “móveis”, feitos para explorar o mundo – nada de ficarmos presos esperando por uma ligação! Foi essa crença na mobilidade que o levou a inventar o telefone celular.

Lembro da decoração da empresa: o hall de entrada é um pequeno museu particular que retrata a evolução da telefonia de acordo com um ponto de vista privilegiado. Num local de destaque da sala de reuniões fica uma réplica do primeiro telefone celular, o “tijolão” inventado por Martin Cooper nos anos 70. Também me chamou a atenção a quantidade de cristais de quartzo espalhados pelas peças. Cooper me ensina que quase todo equipamento eletrônico tem algum componente de cristal, e faz questão de contar que algumas daquelas pedras eram de origem brasileira. … E depois de alguns minutos de amenidades eu já estava autorizada a chamá-lo pelo apelido, Marty.

Martin Cooper nasceu em Chicago, no estado de Illinois, numa família de imigrantes ucranianos. Ele estudou Engenharia Elétrica e serviu na Marinha norte-americana. Nos anos 60 foi contratado pela Motorola.

Cooper liderou a equipe da Motorola que desenvolveu o telefone celular. Na época a concorrente AT&T investia alto no projeto de um telefone para carros, o que para o cientista não resolvia a questão da mobilidade – pois continuaríamos confinados. “Decidimos enfrentar a AT&T, mas como chamar a atenção das pessoas? Resolvemos fazer uma demonstração que ofuscasse a concorrência: vamos criar um telefone verdadeiramente móvel! E foi o que fizemos”, lembrou Martin Cooper.

Da idéia inicial ao primeiro modelo foram apenas três meses de pesquisa. No laboratório da Dyna, Martin Cooper me mostrou uma réplica transparente do aparelho que deixa à mostra um aglomerado de fios, baterias, circuitos… milhares de componentes. Era o que o fazia tão pesado: o primeiro modelo tinha quase um quilo! A bateria não durava muito, mas ao invés de defeito o inventor Cooper vê nisso motivo para uma piada que só melhora com o tempo: “Ninguém aguentaria segurar o aparelho por mais que 20 minutos!”.

A primeira chamada, feita no dia 3 de abril de 1973, foi tão ousada quanto a ideia de criar um telefone móvel. Martin Cooper me contou que estava apresentando a invenção para um jornalista, no centro de Nova York, quando decidiu fazer o primeiro telefonema. E quem mais ele chamaria se não seus concorrentes na AT&T, que achavam que a Motorola não passava de “uma mosca no elefante”?

Marty ficou com a fama, mas não com a patente da invenção, que pertence à empresa.

Desde o “tijolão” pioneiro de 1973 muita coisa mudou.

Segundo a União Internacional de Telecomunicação (ITU, braço da ONU para as Tecnologias de Informação e Comunicação), há 6.8 bilhões de assinaturas de serviços de telefonia celular em todo o planeta, ou seja, quase um aparelho para cada habitante da Terra. Mais da metade desses aparelhos, 3.5 bilhões, estão na região da Ásia-Oceano Pacífico.

Hoje o telefone celular é ferramenta de ativismo, impede que abusos de direitos humanos e civis permaneçam ocultos ou impunes. Os protestos no Irã contra o resultado do pleito que garantiu o segundo mandato ao presidente Mahmoud Ahmadinejad são um exemplo. O observador mais atento das imagens captadas nas ruas iranianas durante aquele conturbado verão de 2009 perceberá que em cada cena há várias pessoas com o telefone celular na mão. No entanto, elas não necessariamente falavam ao telefone – elas registravam tudo o que ocorria com as câmeras dos celulares. Em locais onde a imprensa é proibida de trabalhar, o jornalismo “participativo” ou “cidadão”, exercido graças ao fácil acesso às mídias digitais, impede que crises políticas e humanitárias desapareçam da pauta.

Martin Cooper tem 84 anos mas mantém o entusiasmo de um guri que acaba de aprender a falar num telefone feito de lata e corda. Na época da nossa entrevista, Marty e a esposa Arlene trabalhavam no desenvolvimento de um aparelho batizado de Jitterbug, destinado ao consumidor da terceira idade. O aparelho tem um teclado maior, tela mais brilhante, o volume é mais alto e as funções bem mais simplificadas que nos modernos smartphones.

O telefone celular transformou a maneira como as pessoas se relacionam, diminuiu a barreira entre o que é público e o que é privado, e também acabou com as desculpas para não sermos localizados a qualquer hora, em qualquer lugar.

E se, por causa disso tudo, você ainda questiona se a invenção de Marty é mesmo uma benção ou se é uma maldição, reparto aqui uma lição que aprendi com ele. “A tecnologia móvel significa liberdade para você fazer o que quiser”, me disse Martin Cooper. “Se as pessoas decidem ser escravas do telefone, é opção delas. Eu nunca acordo no meio da noite para atender o meu.”

Os muito chatos que me perdoem…

Noite dessas vimos o show “Cale-se: as Músicas Censuradas pela Ditadura Militar”. Bem como eu imaginava, é uma pequena aula sobre o cancioneiro proibido naqueles anos de chumbo.

“Tente Outra Vez” do Raul. Pode? Com frases tipo “você tem dois pés para cruzar a ponte” ou “tenha fé em Deus, tenha fé na vida”, mais parece um cântico religioso, não parece? Foi censurada.

E o Chico? Esse era o número um na lista de músicos mais frequentemente calados pelo regime militar. Mas que mal há em cantar “me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, um riacho de amor”? A censura não gostou nadinha desse assanhamento todo…

Também foi vetada pela ditadura a fofa “Severina Xique-Xique”, lembra? “Ele tá de olho é na butique dela…”

Mas o tempo passou, ufa… Censura? Nunca mais!

Jura?

Hoje em dia, mesmo em tempos de democracia, eleições diretas e afins, tenho a impressão de que vivemos sob uma nova espécie de censura, perigosíssima! É a ditadura do sem-graça, da chatice. Vivemos sob a mira das patrulhas do politicamente correto e, pior, do intelectualmente correto. (E em muitas ocasiões, hás de concordar comigo, os nossos censores somos nós mesmos…)

Eu não vejo BBB, nem A Fazenda. Não acho interessante. Parcece que os personagens se repetem ano após ano, passam os dias armando complôs e jogando cabelões e músculos de um lado para o outro. Sinceramente, não curto. Só para implicar, telefono pra quem eu sei que assiste bem na hora do programa pedindo papo ou intimando para uma “DR”.

Mas eu dou uma espiadinha, sim. No mínimo para poder participar de alguma conversa. Ou por que às vezes de tão bizarro fica impossível não ver. Isso me define? Isso define as centenas de milhares de brasileiros que votam em uma eliminatória qualquer? Creio que não.

“E enquanto isso, você grita gol”, critica a patrulha. Grito gol, grito sim. Posso?

Pago imposto e pago minhas contas, cedo o lugar na fila, ando com lixo na mão até encontrar a lixeira, digo “por favor” e “muito obrigada”, xingo empresas públicas e privadas nas mídias sociais (e também elogio, quando merecedoras), leio Allende e García Márquez, voto bem mais pelo prazer que pela obrigação, visito o Votenaweb para acompanhar o desempenho dos meus representantes, uso cinto de segurança e respeito a faixa de pedestre.

“E enquanto isso, você pula Carnaval…” Eu vou atrás do trio elétrico, sim. Dá licença?

Participo de tuitaços e de campanhas da Anistia Internacional, sou doadora de sangue, não jogo óleo de cozinha na pia (guardo para reciclar, aliás reciclo todo meu lixo, sou uma serial recycler), dou “bom dia” para estranhos, cedo o banco no ônibus, fui “cara-pintada”, fiz bandejaço no RU, gastei a voz em passeatas contra as guerras no Iraque e no Afeganistão, ouço Beatles e rock progressivo.

Não tô querendo atestado de boa moça (tenho lá meus pecados, e não escondo meu desgosto por muita coisa que há por aí…). Mas pergunto: o fato de eu torcer pelo Inter, ver minha novelinha das seis, pular meu Carnaval, me faz uma pessoa alienada, manipulável?

Ou precisamos todos fazer um voto de tristeza, torcer o nariz pro Gangnam Style”, fingir que entendemos aquele filme “cabeça”, fazer um pacto com a chatice?

Prefiro pensar que o que define uma pessoa, um cidadão, não são as horas passadas em frente à TV ou no estádio – embora o futebol, vamos combinar, seja um patrimônio, ferramenta da nossa diplomacia cultural e parte da nossa identidade, sim!

Prefiro pensar que o que define o meu país é o exército de trabalhadores voluntários, as reuniões do orçamento participativo, é o casal que devolve uma pequena fortuna encontrada na rua, a adoção de animaizinhos, ativistas como a Isadora, as caminhadas por justiça que lotaram as ruas gaúchas nas últimas semanas, as 594 vassouras na Esplanada dos Ministérios, os milhões de assinaturas nas petições do Avaaz (que ajudaram a empurrar, por exemplo, o “Veta, Dilma”).

E se no fim do dia quisermos simplesmente xingar o juiz e o vizinho, torcer pelo infeliz que foi parar no paredão ou na roça, vibrar com o beijo da novela, tem algo errado? Se no fim do dia quisermos fazer parte de um coletivo, de uma massa – sem ter que pensar muito, meeesmo – isso desvalida tudo o que fazemos, em outros momentos, por um mundo melhor?

Temos sua permissão pra sorrir?

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Vinícius de Moraes foi diplomata, durante 26 anos. Foi “aposentado compulsoriamente”, em 1968; seu comportamento boêmio, disseram, não condizia com a carreira pública. A ordem veio do Presidente Costa e Silva: “Demita-se esse vagabundo!”.  Contam que foi um golpe duro, pois o poetinha adorava o Itamaraty…

Mas, enfim, um favor foi feito à nossa música à nossa poesia.

Vinícius de Moraes, se vivo, faria cem anos. Imagino o que seria dele se repetisse, nos dias de hoje, a máxima “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Seria fuzilado pela patrulha do politicamente correto? Será que se sentiria compelido a dizer que “tudo não passou de um mal-entendido”?

E se ele “desse uma espiadinha” e, entre um copo e outro de uísque, debruçado no violão, desandasse a comentar sobre as beldades que desfilam na telinha do BBB? Cairia vítima da ditadura da tristeza, da sem-gracice, do intelectualmente correto? Ou mandaria tudo às favas?

Ah… Os muitos chatos que me perdoem, mas leveza é fundamental!

Da fabriqueta de memórias

Conversar com estudantes de jornalismo é sempre um prazer. Acredito no intercâmbio entre a academia e o mercado: para os futuros jornalistas é inspiração; para os profissionais, reciclagem.

Um exemplo. Depois que voltei a estudar descobri a importância da metodologia de pesquisa. Um repórter, eu acho, tem que deixar a redação com um conjunto de hipóteses – a pauta não pode ser encarada como uma “tese” a ser comprovada.

Como em toda profissão, quando nos graduamos somos como uma pedrinha bruta. Pedrinhas bonitinhas, diplomadas, mas brutas, que somente serão lapidadas com os solavancos do dia-a-dia. (Na reportagem sobram solavancos!) Anos de estrada nos ajudam a criar um “manual de redação particular”, de onde saem algumas lições que gosto de lembrar nessas conversas.

Preparando uma palestra sobre o telejornalismo na era da Internet encontrei uma citação genial do genial Geneton Moraes Neto (um repórter que sabe OUVIR). “Fazer jornalismo pode ser simples: é ver, ouvir e passar adiante – da maneira mais fiel e mais interessante possível. Ou seja: produzir memória”, ele diz.

Fazer jornalismo é produzir memória. Gosto dessa definição pois creio que toda obra implica numa co-autoria entre quem a produz e quem a aprecia. Eu escrevo com uma intenção, você interpreta à sua maneira. Além disso, de nada valeria escrever um poema, fazer uma reportagem, pintar um quadro ou compor uma canção se não fosse para dividir com alguém. Certo?

Num “mundo perfeito” você encontra bons parceiros para uma obra. É o caso de uma reportagem costumo apresentar nas escolas de jornalismo, uma das mais bacanas que já fiz. Uma obra composta a dez mãos.

O personagem é o físico Eduardo Couto e Silva, radicado nos Estados Unidos há mais de duas décadas. Ele trabalha num laboratório da Universidade de Stanford, no norte da Califórnia, onde integra a equipe que monitora o Telescópio Espacial Fermi, que Eduardo ajudou a construir. Contamos sua história no Planeta Brasil, programa que retrata a vida dos brasileiros no exterior (TV Globo Internacional).

Eduardo, meu entrevistado, se empenha em tornar compreensível a ciência e a tecnologia que envolvem seu ofício. Além disso, diverte com casos como os desafios de lidar com uma equipe internacional (“O japonês nunca diz não!”).

É o tipo de entrevistado dos sonhos! Ele me ofereceu inúmeras informações e recursos para escrever um bom texto.

O cinegrafista Alan Hernandez é um dos mais talentosos que conheço. O uruguayo é do tipo que se integra verdadeiramente na pauta, bolando um roteiro de gravação com takes precisos e variados.

Tinha outro Eduardo envolvido na operação, o Canto Machado, editor do programa. É um velho e grande companheiro de trabalho. Sua paixão pela astronomia e sua sensibilidade musical deixaram a matéria interessante e dinâmica.

O “quinto par de mãos” dessa composição é você, que pode ver a reportagem aqui.

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Outro aspecto muito positivo desses convites é que cada bate-papo me leva a n reflexões. Se me perguntam o que não pode faltar para um jornalista respondo: bom humor e um rolo de fita adesiva. Sempre.

Revendo essa reportagem me chama atenção o fato de que o trabalho do físico Eduardo demora uns 50 a 100 anos para ter resultado. Um período de tempo im-pen-sá-vel para uma repórter acostumada com deadlines apertados e respostas imediatas.

Também percebo inúmeras mudanças que eu poderia fazer para melhorá-la (como a entonação do off, por exemplo). É que a gente nunca acaba uma obra: a gente simplesmente desiste.

Pois acaba um deadline e lá vem outro. E vem outra pauta e suas hipóteses. E novos solavancos. E as lições que, com sorte, poderemos dividir.

A reinvenção dos artistas

Nem a enxurrada de prêmios, nem a recomendação de amigos, nem a curiosidade. Nada, nada me tirava a preguiça de ver O Artista – um filme mudo, em preto e branco, ambientado no final dos anos 20. Nem mesmo o dever de quem aprecia cinema… Ou o calor saariano que obriga a procurarmos abrigo em ambientes com ar condicionado. O argumento incontestável veio no artigo de Alberto Dines, que li no Observatório da Imprensa: o filme trata da necessidade de se reinventar.

O Artista em questão é o galã George Valentin (Jean Dujardin), que resiste à chegada do som ao cinema. Repetindo o mestre Dines, essa é uma metáfora sobre o desafio que artes e artistas (e eu diria o mesmo para todo tipo de profissão) enfrentam quando suas formas de expressão ou suas ferramentas de trabalho são ameaçadas ou consideradas ultrapassadas.

Denunciando aqui a minha idade: terminei da faculdade sabendo como diagramar um jornal com primor! Redigia numa lauda na máquina de escrever; distribuía o texto em colunas precisamente medidas com régua de paica; compunha títulos e subtítulos com letrinhas adesivas a la Kalkitos. Hoje posto neste blog em minutos…

Quando comecei a carreira na TV ouvia loucas histórias sobre os tempos em que telejornalismo era feito como cinema, portanto necessário revelar filme para colocar a notícia no ar – para desespero dos produtores; para a alegria dos cardiologistas. Fiz parte das equipes de reportagens que carregavam aqueles VT’s enormes (um tipo de videocassete) acoplados às câmeras. Aprendi a editar com o sistema Betacam: a gente revisava a gravação numa máquina, selecionava os trechos que valiam e copiava para outra fita, em outra máquina. Saber editar nesse “sistema linear”, acreditem, me garantiu emprego no exterior. Mas em seguida chegaram às redações a edição por computador (“não-linear”) e as câmeras digitais. Tão mais rápido e eficiente… Como ninguém havia pensado nisso antes? Bora aprender tudo de novo. Outra vez.

Dominar os softwares de computer-aided design ou CAD ou AutoCAD, que geram projetos em duas ou três dimensões, é um pré-requisito para um engenheiro como o Gringo – que me levou ao cinema igualmente seduzido pelo argumento infalível de Alberto Dines. Mas quantas plantas de obras já foram desenhadas com lápis e papel?

Parece que os avanços da tecnologia acompanham a chegada de cada nova geração ao mercado, ameaçando com obsolência quem já atingia certa senioridade e estabilidade em seu emprego – não importando a área de atuação. Atualize-se, aprenda, reinvente-se, ou “abra o caminho para o novo”.

E isso não se limita ao trabalho. Experimente enviar notícias para aquele amigo distante através de carta e esperar que a resposta venha pelo correio “convencional”. Uma boa vida de ermitão para você, meu bem.

O Artista convida a essa reflexão.

O Artista é obrigatório porque nos tira da zona de conforto, como bem observou o Gringo. Estimula uma outra forma de compreender um filme; exige prestar atenção nos detalhes, já que a informação não é oferecida numa bandeja. “A nostalgia pode ser revolucionária”, decreta Dines. E por isso é também uma aula de roteiro.

Creio que uma deficiência constante nos filmes é o excesso de informação colocado na boca dos personagens por roteiristas preguiçosos. No cinema mudo a escassez de diálogos exige criatividade para contar a história usando outros recursos narrativos como os objetos da cena, ou as expressões dos atores. E aqui deixo meu aplauso para atriz Berenice Bejo, que dá vida a Peppy Miller, “a nova cara do cinema falado”. Preste atenção no seu “solo” no camarim de George Valentin, um pequeno luxo de roteiro e interpretação.

É o tipo de história que você carrega consigo depois que sai do cinema. Não que seja necessário uma sessão de terapia em grupo para dar sentido ao drama de George Valentin – a saber, nem de graça vejo filmes que desdenham do espectador, cheios de símbolos e metáforas que só o diretor entende.

Dines acertou em cheio. “Não se trata de um drama particular dentro de um ofício – neste caso o título seria O Ator. A ideia era transcender a crise produzida pela introdução do som no cinema e gerar uma provocação válida para qualquer gênero artístico quando ultrapassado pelo progresso tecnológico.”

O trunfo do bom cinema é proporcionar a identificação do público com os personagens. A necessidade de reinvenção é constante, fascina, assombra e angustia ao mesmo tempo. Assim, todos somos um pouco “artistas”.

Hot.

(Da série “te pagaram para ver o mundo, então não reclama”.)

Para encher teus olhos, pois o calorzinho que se anuncia dá sede. Não dá?

Vê aí o Mar do Caribe assim como eu o vi durante alguns dias. Da janela lateral do meu quarto de dormir, essa era a vista – uma visão do paraíso. Praias de areia branca fininha e mar cor de turquesa… O Sol desavergonhado que te agarra inteira…

Porém…

Porém eu estive em Nassau, nas Bahamas, numa missão: gravar o último episódio de uma série de televisão sobre moda. O vôo até lá, por si só, já havia sido memorável: deixamos a República Dominicana em direção a Nassau na cola de um furacão! Foi uma das vezes em que levei extremamente a sério aquelas instruções sobre como abrir a saída de emergência do avião.

Depois, tão cansada que eu estava da maratona de produção e viagens que nem consegui apreciar a ilha, achei muito confusa.

Tudo o que eu queria era uma canga e uns dois metros quadrados daquela praia… Ficava triste de sair cedinho e só espiar aquela imensidão azul pela janela. E de chegar tarde no hotel quando só restava a brisa salgada para me chamar prá brincar.

A tristeza escalava para raiva cada vez que eu entrava no elevador: “Feeling hot, hot, hot! Feeling hot, hot, hot!” tocava num loop interminável! Eu no elevador, toda equipada prá trabalhar, cercada por turistas usando biquíni, e aquela música me torturando… “Feeling hot, hot, hot!”

Ah, sim! Tive uma tarde de folga! Mas…

Mas naquele dia o céu ficou emburrado. Então tudo o que eu conheci do Mar do Caribe foi isso, o que está nas fotografias…

Pronto. Viajaste comigo.

A mala

Não sei arrumar mala. Organizar o que vai dentro dela eu consigo: roupas em rolinho para não criar dobras, meias dentro dos sapatos para aproveitar espaço, perfume no meio da lingerie. Um truque para diminuir o volume das peças: coloque num saco plástico tipo zip lock e feche a vácuo usando um aspirador de pó. Estrategicamente, divido roupas e presentes entre bolsas e malas. Em caso de extravio, uma mulher prevenida vale bem mais que duas sem bagagem alguma.

Mas assim, ser prática e carregar apenas o extremamente necessário? Talento que eu não tenho. Invariavelmente não uso nem a metade do que levo. Planejar um guarda-roupa eficiente, com peças-chave de uma cor? Pode ser… Mas sabe quantas blusas pretas cabem em uma mala?

E isso que viajar, portanto fazer malas, é praticamente um pré-requisito na profissão de jornalista. Já deveria ter aprendido, certo? Pois é aí que tudo se complica – ou se explica. Se a viagem é a trabalho tenho que levar um figurino para reportagem, outro para os (raros) momentos de folga. Nessa mala “à la MacGyver” não pode faltar a fita crepe, várias pinças (em caso de eu perder uma…) e lenços umedecidos. São meus “bombris”, com 1001 utilidades. Fazer barra em calça no meio do nada? ‘Xa comigo.

Uma vezinha só viajei como mochileira. Fui para o Peru. O problema era o tamanho da mochila, daquelas de expedicionário! Foi cheia de coisas de que talvez eu precisasse. Ficou tão, mas tão pesada que acabou alterando o roteiro da viagem. Um dos objetivos era chegar a Machu Pichu pela trilha Inca, em três dias de caminhada, mas o peso da mochila e a falta de ar por causa da altitude me fizeram dar meia volta e concluir a aventura de trem. Não me arrependo; me hospedei na idílica Aguas Calientes e visitei Machu Pichu dois dias seguidos.

Minha teoria é: quem vai carregar a bagagem na maior parte do trecho não sou eu; é o avião, o ônibus, ou o carro. Então, por que não?

Ah, certo… Tem que arrastar a mala escadaria acima… Quando eu morava fora sempre desembarcava no Brasil com duas, monstruosas, a tiracolo. Reclamavam, reclamavam do peso, mas na hora de abrir era aquela alegria! Tinha fantasias de princesa, creminhos, tênis com amortecedor e tração nas quatro rodas, qualquer novidade da Apple.

Quando decidi voltar de vez acho que pequei pela escassez. Num exercício sobre-humano de desapego, tentando reduzir a mudança ao máximo, me obriguei a me desfazer de tanta coisa… (Ainda volto para buscar meus livros, o globo terrestre que também é um abajur e, aproveitando o ensejo, compro várias meias-calças daquelas sem elástico na cintura!)

Dica para quem está voltando para o Brasil de mala e cuia: sabe aquela caixa a mais, aquele volume extra de bugigangas? Traga. Yuri, o artesanato e as antiguidades que encontras pelas feiras de Moscow? Compra, coleciona, carrega. Vale a pena!

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Fico encantada com o entusiasmo do Gringo a cada capítulo de “Milagre nos Andes”. É um relato pessoal de Nando Parrado, um dos sobreviventes da queda de um avião na Cordilheira dos Andes, em 1972. Uma história de provação e superação que me fascina (também recomendo o documentário “A Sociedade da Neve”, do uruguaio Gonzalo Arijón).

A certa altura da saga localizar a cauda do avião estatelada nas montanhas nevadas torna-se fundamental. É ali que está grande parte da bagagem. Casacos de pele e blusões de lã para suportar o frio, batom para proteger os lábios, chocolate e uísque que serão racionados durante dias. A máquina fotográfica que registraria imagens impressionantes. Um rádio.

Longe de mim fazer da tragédia desculpa para exagero, mas o cenário desolador sugere uma reflexão. O avião foi algoz; depois virou abrigo. Aquelas malas, um dia arrumadas com tanto primor pelos passageiros, passaram a representar esperança, tinham as ferramentas para a sobrevivência dos jovens atletas uruguaios.

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A obra de Salvador Dalí não coube em um simples museu. O Teatre-Museu Dalí, na cidadezinha de Figueres (são duas horas de trem, partindo de Barcelona) é dinâmico e instigante como a obra do mestre surrealista.

Num dos salões, o Palau del Vent, o teto é coberto pela representação de um casal. Salvador Dalí e sua musa Gala sobem aos céus. O corpo dele, no lugar da barriga, tem gavetas abertas, vazias.

O que me lembra a pintura do espanhol Dalí é que daqui não levamos nada. Nada de material. Não é o que cobre o corpo que importa, mas o que recheia a alma.

Baseada nisso, crio mais uma teoria para justificar minha irremediável mania de desafiar as leis da física e fazer várias peças ocuparem o mesmo lugar ao mesmo tempo.

Vai dizer que não? Quando nos preparamos para uma viagem escolhemos as nossas roupas mais bacanas, as que nos caem mellhor, ou as mais confortáveis – aquela blusinha que já se moldou à sua anatomia.

A gente já vai imaginando o que vestir nos momentos que estão por vir. “Ah, eu vou ficar legal andando de Mulher Maravilha pelas ruas cariocas…”, pensei num desses devaneios. E lá foi a fantasia ocupando um espaço privilegiado na mala do Carnaval, com bracelete e laço e tudo.

O que conta são as imagens, eternizadas na memória ou em fotografias. Mas os trapinhos que te cobrem nessas horas ajudam a construir essas lembranças. Ajudam a contar uma história.

Portanto, sem culpa… Salve, salve o excesso de bagagem.